Ruy Barbosa
   

Dos 18 aos 25 anos sofreu três perdas, que o marcaram profundamente: a morte da mãe, Maria Adélia, em 1867. E em 1874 a do pai, a quem era muito ligado, e também a de uma noiva de 17 anos, Maria Rosa, tísica. Uma depressão profunda acometera-o em 1870, apenas terminado o curso jurídico em São Paulo. Os médicos falavam em "anemia cerebral" e prescreviam-lhe dietas rigorosas. Mas um médico português foi logo diagnosticando: "O seu mal é fome!" Realimentado e reanimado, o jovem advogado prosseguiu carreira. Logo mais o conhecimento de Maria Augusta Bandeira Viana, com quem se casou aos 26 anos, deu-lhe novo estímulo para lançar-se a uma carreira de trabalho concentrado, às vezes obsessivo – alternado com breves períodos de depressão e afastamento.

Sua extraordinária capacidade de verbalização, de caráter torrencial, levou ao ápice o brilhantismo de expressão, escrita e oral, tão em moda na sua época. Mas as características físicas daquele baiano verborrágico, feio, pequeno, de cabeça desproporcionada com o corpo, fizeram as delícias dos caricaturistas de seu tempo. Um desenho da época mostra-o como boneco de corda, com a legenda: "Corda garantida por 24 horas. Privilegiado pelo Governo Imperial".

O homem público

Voltando à Bahia em 1870, após o término do curso jurídico em São Paulo, Rui desligou-se dos companheiros de geração – que já se pronunciavam abertamente republicanos – para inserir-se no meio liberal/monarquista do pai. Era federalista extremado, mas pretendia "republicanizar" o Império, nos moldes do regime que julgava superior a qualquer outro: a monarquia constitucionalista da Inglaterra. Diz Alfredo Bosi que os dois arquétipos de sua visão de sociedade, o direito romano e a política inglesa, eram idéias "poucas e de escassa originalidade", mas que "reboaram formidavelmente, em virtude do talento verbal que as defendia".

 

Como maçom, e atuando como jornalista do "Diário da Bahia", Rui empenhou-se em propor e defender causas liberais, como a do "ventre livre", e opôs-se, em 1875, à campanha do serviço militar obrigatório, defendida pelo poeta Olavo Bilac. Em 1873 a chamada Questão Religiosa – que opôs Igreja e maçonaria, com participação enérgica e repressiva de dom Pedro II – mobilizaria os círculos intelectuais do país, colocando em discussão a problemática da separação entre Igreja e Estado, que seria defendida por Rui com todas as armas da sua eloqüência. Em 1877, traduzindo O papa e o concílio, aproveitou para criar um prefácio duas vezes maior do que o próprio texto do livro, e no qual simultaneamente condenava os bispos que haviam excomungado os maçons e o imperador que punira os prelados com pena de prisão. De passagem, fustigava o dogma da infalibilidade do papa, recém-declarado em Roma, e o "ultramontanismo" da princesa Isabel.

Na defesa de suas opiniões, muitas vezes Rui mostraria coragem. Principalmente ao enfrentar o poder militar. Num discurso de homenagem ao general Osório, ousava dizer: "O direito agora é quem sagra os heróis; não a conquista. A idolatria das espadas ambiciosas passou".

Como parlamentar, no seu estado natal e na corte, Rui manteve a mesma atuação. Em 1884 foi honrado pelo imperador com o título de conselheiro, em reconhecimento aos seus trabalhos sobre o ensino. Proclamada a República, foi logo chamado para a pasta da Fazenda, muito embora ele próprio se declarasse "um republicano do dia seguinte". Mas o período de sua gestão foi reconhecido como o pior, economicamente, da história do Brasil – seus esforços para dar ao país uma feição industrialista resultaram numa inflação descontrolada e num impasse caótico, conhecido como "o encilhamento".

De 1893 a 1895, opondo-se ao governo de Floriano Peixoto, teve de exilar-se. Foi um dos poucos que teve a coragem de enfrentar o tirano, impetrando um famoso habeas-corpus em favor do grande número de presos políticos, em abril de 1892. O jurista Levi Carneiro comenta: "O traço mais emocionante na argumentação de Rui é o da veemência dos ataques, o destemor implacável com os temerosos".

De Londres, onde se refugiou, Rui escreveu para um jornal do Rio uma série de "Cartas de Inglaterra". Numa delas defendia, antes de o escritor Émile Zola encetar a sua campanha, a inocência do capitão Alfred Dreyfus – francês, mas de origem judaica, vítima do sentimento anti-semita, este fora injustamente acusado de espionagem e condenado, em 1894, ao degredo na Guiana Francesa; Zola liderou o movimento que acabou por reabilitá-lo, em 1899.

Regressando ao país, Rui passou o resto da vida exercendo simultaneamente as carreiras jornalística, jurídica e política. Foi diretor do "Jornal do Brasil" e do "Diário de Notícias". Candidatou-se à presidência da República três vezes, sem sucesso. A "campanha civilista" de 1910 foi perdida em favor do marechal Hermes da Fonseca. No mesmo ano, tendo o marechal-presidente reprimido violentamente a Revolta da Chibata, Rui levantou novamente a sua voz e denunciou o massacre dos marinheiros do navio "Satélite", "espingardeados, sem culpa nem figura de processo, como animais hidrófobos e alijados ao abismo como as reses mortas de peste nos currais de bordo".

Incoerências marcaram, no entanto, sua carreira política. Numerosos são os que o atacaram pelo seu conservadorismo e reformismo. Em 1894 José do Patrocínio não hesitava em chamá-lo de "camaleão doido", por ter Rui se oposto ao indulto aos escravos que haviam atentado contra os senhores. Cobrada lhe foi também a indiferença em relação à situação dos operários – realmente tão precária no Brasil que chocou o ministro francês Georges Clemenceau, quando nos visitou, em 1910.

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