O DESEMPREGO VAI AUMENTAR ... Mas Trabalho Continuará Existindo
 
         
     

Dois estudos realizados pela World Future Society muito tem a ver com uma grande preocupação em todo o mundo nos dias atuais: a questão do desemprego.

O primeiro, explora o fato de que, nos próximos dez a quinze anos, cerca de 80% das funções hoje existentes, desaparecerão ou, pelo menos, terão características completamente diferentes. Se voltarmos no tempo, veremos que não estaria trazendo nenhuma novidade, não fosse o prazo e quantidade das funções em que a pesquisa acredita que venha a ocorrer. Muitos de nós deve estar lembrado da época em que existiam as datilógrafas, estenotipistas, estenógrafas, programadores, ferramenteiros e muitas outras funções que hoje são poucos os profissionais que as exercem ou até já não mais existem.

A outra pesquisa, prevê que, dentro de vinte a vinte e cinco anos, a força de trabalho aplicada na indústria, como hoje ela existe, estará entre um e dois por cento do efetivo atual. Só para se ter uma melhor idéia do que isso significa, uma indústria que tenha neste final de século mil empregados, estará apenas com dez a vinte.

Esses prazos são muito longos? Pense na sua idade e na de seus filhos. Que idade terão dentro de 10, 20 ou 25 anos? É muito longe? O que você acredita que estarão fazendo, ao atingirem essas idades? O que será exigido daqueles que forem contemplados com a possibilidade de permanecer? Que competências deverão ter? Por outro lado, qual será o destino daqueles que não ficarem?

Não resta dúvida de que isso ocorrerá em um crescendo e não de uma só vez e, também que, ao mesmo tempo em que a sociedade acaba com uma estrutura, cria outra. O grande problema é, em quanto tempo, este processo estará concluído, e mais ainda, como as pessoas estarão se preparando para enfrentar essa migração?

Examine com um pouco mais de atenção como foi a introdução do último avanço tecnológico em sua empresa. Como foi a reeducação e o reenquadramento das pessoas nessa nova realidade? Não temos dúvida em afirmar, em seu nome, que as pessoas foram fortemente impactadas e que os resultados organizacionais também.

As grandes mudanças nas organizações e nos modelos de gestão, bem como seus reflexos no mercado de trabalho, são questões que já deveriam estar sendo tratadas com grande profundidade e maturidade em todo o mundo. Em nosso país, onde há uma extensão territorial de dimensões continentais e uma desumana desigualdade econômica, social e educacional, inclusive nas grandes cidades, não poderia ser diferente.

Se pensarmos como Kennedy, em 1962, quando os Estados Unidos tinha uma taxa recorde de desemprego, que dizia ser ótimo seu país ter apenas 7% de desempregados, já que significava que 93% da força de trabalho tinha emprego, ou, ainda, como Antoine Rivarol, que afirmou, certa vez, que o ser humano gasta sua vida justificando o passado, reclamando do presente e temendo o futuro, talvez não precisemos fazer nada. Mas se efetivamente estivermos interessados em uma solução, temos que entender que, para gerar trabalho para toda a população economicamente ativa do país, a questão, a nosso ver, tem que ser atacada o quanto antes e em duas grandes vertentes simultaneamente, de forma muito corajosa e com investimentos vultosos.

Uma dessas vertentes, voltada para o curto prazo, deve ter o objetivo de fazer com que aqueles que chegam ao mercado de trabalho, ou os que procuram se recolocar, consigam atingir seus objetivos. Só para se ter uma idéia do crescimento populacional do país, com reflexos na força de trabalho, lembramos que na Copa do Mundo de 1970 cantávamos ...noventa milhões em ação, p’ra frente Brasil... e agora, em 1998, a música não cai bem porque a letra seria ... cento e sessenta e sete milhões em ação, p’ra frente Brasil...E isso em apenas três décadas.

Não temos dúvida que essa vertente passa necessariamente por uma profunda flexibilização das relações de trabalho, a exemplo do que vem ocorrendo em alguns países, o que está fazendo com que apresentem taxas de desemprego bem inferiores aqueles que ainda mantém uma legislação de carretar mais protecionista. Mas, para que dê certo aqui, é necessário que haja o envolvimento ganha-ganha do conjunto de trabalhadores, das empresas e do governo, este representado, necessariamente, pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Mas a flexibilização não é suficiente em si própria, principalmente face aos resultados de inúmeras pesquisas realizadas a respeito.

É preciso que não nos esqueçamos, como lembra Waldez Luiz Ludwig, que presentemente no Brasil, 57% de sua força de trabalho não mantém relação de emprego com seus tomadores de serviço e que esse percentual tende a ser cada vez maior, em um mundo que valoriza cada vez mais o conhecimento.

Alguns pontos que achamos interessante considerar são os seguintes: - férrea vontade de identificar e equacionar o problema de manter a força de trabalho ocupada e partir, de fato, para a ação, com cronograma definindo resultados concretos esperados;

- identificação, a nível nacional, das atividades que, a curto prazo, possam envolver grandes contingentes de trabalhadores e passar a trabalhar sobre elas. Quase que em paralelo, é preciso fazer o mesmo regionalmente, até o nível de comunidade, objetivando atender o país como um todo já que, no geral, as competências requeridas para São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte são muito diferentes daquelas necessárias as funções existentes em cidades como, por exemplo, Sena Madureira, Santarém ou Feira de Santana, sem nenhum menosprezo às mesmas.

- busca de benchmarking para as atividades identificadas como prioritárias a fim de servir como piso de qualificação e permitir ter mão-de-obra no nível em que ela vai ser exigida. O SENAI, nos últomos anos, já vem trabalhando nessa direção;

- qualificação da mão-de-obra: e isto não nos parece difícil quando o Governo Federal anuncia que está disponível bilhões de reais, entre recursos do FAT - Fundo de Amparo ao Trabalhador, de órgãos federais, estaduais e municipais e do Sistema SENAI, SENAC, SENAR e SEBRAE. Quando Dorothéa Werneck, ainda estava no Ministério do Trabalho, já dizia, com muita propriedade, que o problema do Brasil não era de desemprego, mas sim de falta de pessoal qualificado.

E nós continuamos a achar que continua sendo. Ainda hoje faltam programas capazes de qualificar trabalhadores para um mercado de trabalho que, cada dia é diferente do dia anterior, e que .exige profissionais com competências cada vez mais distintas das exigidas anteriormente.

- desenvolvimento de programas específicos para aqueles que chegam ao mercado de trabalho, qualquer que seja o nível e sua formação. É fundamental que essas pessoas saibam que o mundo do trabalho está passando por uma gigantesca transformação sob vários aspectos: novas formas de vinculação na prestação do serviço, assunção de riscos, necessidade de estar sempre estudando e aprendendo coisas novas, trabalho em equipe e grande parte de sua remuneração sendo variável, em função de parâmetros pactuados.

- mostrar às empresas que elas tem que estar preparadas para a possibilidade de seus colaboradores tomar a iniciativa de se desligar quando ela menos esperar, principalmente porque não podem mais garantir emprego para, como fazia no passado;

- tornar organismos como o SINE mais operantes e procurados como uma solução efetiva, tanto pelos trabalhadores, como pelas empresas. Entidades como federações de industrias, sindicatos patronais e de trabalhadores, empresas de colocação de mão-de-obra e ONGs podem, também, dar uma bela contribuição.

É necessário que os esforços de qualificação de mão-de-obra não sejam apenas do conhecimento daqueles que estão diretamente envolvidos, mas sim de toda a sociedade. É preciso mais do que um Plano de Comunicação daquilo que está sendo feito. É preciso um processo permanente de divulgação assumido pela mídia, tendo o programa como uma pauta sua, de seu público e de interesse da nação.

Por outro lado, neste tópico não pode deixar de ser considerado que, no próprio país, está havendo um processo similar ao da globalização. As empresas estão deixando as mega-cidades e transferindo suas unidades fabris, e muitas vezes até sua alta administração, para outros locais onde vários aspectos são mais convenientes para as duas partes: valor do metro quadrado, a imagem de empresa que se instala na região, o maior poder de compra dos salários, os transportes, a educação, incentivos fiscais e tributários, etc., sem falar na qualidade de vida dos envolvidos. Só no ABC, nos últimos três anos, mais de 3.000 empresas se mudaram (ou se mandaram, se preferirem).

Se isso que já é uma realidade continuar, o trabalhador tem que ter mobilidade para acompanhar a sua empresa ou para buscar trabalho onde ele exista. Na lei geral da oferta e procura, o emprego passou a ser algo muito mais procurado do que ofertado e ele, o trabalhador, tem que se conscientizar disso e romper barreiras para encarar mais esse desafio, tendo sua família como parceira.

A segunda vertente é bem mais trabalhosa e de longo prazo. Tem que se preocupar com uma nova escola para aqueles que estão iniciando seus estudos.

Uma escola que consiga, desde cedo, dar uma visão macro de mundo, de valores éticos, de cidadania, de pensar, de interagir com a sociedade. Uma escola que fale de história e de sua relação com os dias atuais, dos filósofos e de seus pensamentos. Uma escola que valorize a leitura e a interpretação de textos, que dê ênfase à saúde física e mental, bem como a forma de mantê-la. Uma escola onde mestres e alunos estejam sempre felizes com o que estão fazendo, porque estão se formando para a vida.

Vemos, para esta nova estrutura de ensino, os mestres sendo preparados diligentemente como para um evento de longa duração e significado histórico: formar uma nova geração.

É um programa ambicioso. Seria necessário reunir por alguns anos luminares da educação do país, com pensamentos os mais divergentes possíveis - talvez até com assistência internacional - para estabelecer uma estrutura educacional nova, com características que lhe permitisse ser facilmente ajustada a novas realidades sempre que a dinâmica mundial e as características típicas do país apontassem para outra direção.

Como fazer isso em um país da dimensão e dificuldades do nosso? Ninguém sabe a resposta, mas se o desafio não for lançado, ninguém dará o primeiro passo na maratona da solução. Links relacionados: http://www.gamalfa.com.br/

Carlos Alberto Barbosa, autor desse artigo é Sócio-Diretor da Gamalfa Consultoria e Eventos. Foi Presidente da ABRH-Rio Associação Brasileira de Recursos Humanos. Pode ser contatado pelo telefax 21.252-4065 ou pelo email gamalfa@gamalfa.com.br

 
     

 

 
     
Bibliografia:
 
       
         
     
 
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