Revoltas
camponesas na Idade Média. 1358: a violência
da Jacquerie na visão de Jean Froissart
Ricardo
da Costa (UFES)

Os
jacques são massacrados em Meaux. Gaston
Phébus, conde de Foix, liberta as donzelas
da Normandia e de Orleães. (9 de junho
de 1358) (BNF , FR 2643), fol. 226v, Jean Froissart,
Chroniques, Flandre, Bruges XVe s. (170 x 200
mm)
Em
1358, o reino da França foi palco de
uma violenta guerra social entre as ordens,
a Jacquerie, uma sublevação camponesa
que, apesar de ter durado somente um mês,
foi de uma incrível brutalidade, com
igual resposta por parte dos nobres a
sociedade de ordens baseava-se num princípio
de desigualdade, próprio da estrutura
do cosmo. Implicava uma hierarquia, que, por
sua vez, estruturava-se conforme a doutrina
do corpo místico, adaptado à realeza
(o rei, a cabeça, e as ordens, os membros).
O Estado era pensado como um organismo vivo.
Não era a riqueza que conferia o escalão
social e a dignidade e sim a posse de uma dignidade,
que determinava a seu detentor as fontes de
rendimentos, o poder sobre outros homens. Ela
era obtida de diversas maneiras (por exemplo,
por hereditariedade nobiliárquica ou
por um determinado serviço prestado ao
rei). Em suma, era uma sociedade de símbolos
(trajes ou adornos especiais) e de privilégios
(DURAND, s/d: 531).
O Grande Terror da Jacquerie (e sua repressão)
exprimiu com intenso vigor o estado de tensão
latente entre as ordens naquela metade do século
XIV as principais fontes para a Jacquerie
são: Chronique des règnes de Jean
II et de Charles V (Delachenal: 1910-1920, IV
vols.), Chronique of Jean de Venette (Newhall:
1953), Chronique de Jean de Bel (Viard e Dèprez:
1904-1905, II vols.) e as Crônicas de
Jean Froissart (1988).
Este artigo trata da Jacquerie na visão
do cronista Jean Froissart (c. 1337-1410), um
momento raro em que a voz do camponês
se fez presente na documentação
medieval. De fato, o problema da natureza das
fontes medievais, seu caráter claramente
omisso em relação a este grupo
social, inibe uma análise mais profunda
sobre os sentimentos dos camponeses em relação
a seus senhores.
Como o objetivo deste artigo é a Jacquerie,
não tratarei da evolução
e imbricamento das condições sociais
da massa camponesa (os servos servi,
o escravo do século IX, o colono e vilão
dos séculos XI e XII). Tampouco comentarei
as especificidades dos casos francês e
alemão (BLOCH, 1987: 268-287). Trabalharei,
nas palavras de Marc Bloch, com a oposição
primordial da sociedade medieval (e adotada
mais tarde por Georges Duby): senhores e camponeses.
Os estudos arqueológicos não fornecem
dados significativos dos modos de pensar e sentir
daquele estrato social, o maior de todos, a
base material que alicerçou as sociedades
medievais durante toda a sua existência
uma projeção bastante cautelosa
afirma que no século XIII eles seriam
cerca de 69% da população européia
(GEREMEK, 1986: 71). Para Jacques Le Goff, eles
seriam 90% da população européia
(LE GOFF, 1998: 109).
Sabemos com relativa segurança as formas
de trabalho na terra (DUBY: 1987-1988), as fomes,
os direitos dos senhores (DUBY, 1990: 11-41),
os deveres dos camponeses (FOURQUIN, 1987: 166-175),
as persistências pagãs ver,
por exemplo, São Cesário de Arles
(470-543) em seu Sermão para uma
paróquia rural (LAULAND, 1998:
42-48). Podemos até mesmo reconstituir
a estrutura de uma casa camponesa (NICHOLAS,
1999: 174-177), sua alimentação,
mas sobre a natureza dos sentimentos do camponês
em relação à sua condição
servil, temos pouca informação.
Esta dificuldade deve ser ressaltada: os silêncios
da documentação. É o historiador
catando as migalhas documentais à procura
de informações sobre seu tema.
No entanto, esta omissão das fontes não
deve nos enganar, pois à toda ação
segue-se uma reação. Ser explorado
provoca resistências (por vezes passivas,
silenciosas), tumultos, deserções,
fugas para as florestas especialmente
a partir do século XII (FOURQUIN, op.
cit.: 168), violências esporádicas
por exemplo, ...a surda guerrilha
dos roubos nas terras do senhor (...) do incêndio
das suas colheitas. (LE GOFF, 1984, volume
II: 61).
Violências também fortuitas que,
sob certas circunstâncias conjunturais,
poderiam assumir a forma de uma rebelião
aberta e desafiadora ao status quo vigente,
como foi o caso da Jacquerie.
Naturalmente, além do problema das fontes,
as circunstâncias históricas e
culturais das relações sociais
na sociedade medieval serviram de atenuante
para a maior parte dos historiadores que tentaram
explicar as revoltas camponesas do século
XIV. Portanto, a visão que defendo aqui
a que a Jacquerie foi uma guerra entre
as ordens (e não classes) sociais
de maneira nenhuma possui consenso, embora a
crônica de Froissart passe exatamente
esta impressão, como veremos adiante.
Para a impossibilidade da adoção
do conceito de classe para este período,
ver Fourquin (op. cit.: 222-223); para o uso
deste conceito na Idade Média, ver Jacques
Le Goff (op. cit.: volume II).
Feitas
estas considerações preliminares,
antes de tratar do depoimento de Jean Froissart
sobre a Jacquerie, farei uma breve digressão
sobre algumas passagens de documentos medievais
onde o sentimento da condição
de servo se fez presente. Este será o
recorte das fontes: qual a sensação
de viver nas camadas inferiores.
Em outras palavras, onde e de que forma surge
no documento a consciência de pertencer
a uma ordem subalterna e explorada isto
apesar de todos os direitos que eles também
possuíam e a estreiteza do contato
social que existia entre senhor e servo: Na
realidade, nunca os contatos foram mais estreitos
entre as classes ditas dirigentes neste
caso os nobres e o povo: contatos que
a noção de laço pessoal
facilita, essencial para a sociedade medieval
que as cerimónias locais, festas
religiosas e outras multiplicam, e nas quais
o senhor encontra o rendeiro, aprende a conhecê-lo
e partilha a sua existência muito mais
estreitamente que nos nossos dias os pequenos
burgueses partilham a dos seus criados
(PERNOUD, s/d: 47).
Esta consciência de pertença a
um grupo aparece em lampejos cronísticos,
fontes que são sempre escritas por gente
que não pertencia a esta ordem
mais um problema da natureza documental
mas, que mesmo assim, nos mostra que a sociedade
medieval não era tão harmoniosa
como os textos a princípio nos fazem
crer. Jacques Le Goff já assinalou bem
o motivo pelo qual as fontes medievais silenciam
os antagonismos sociais: o quase monopólio
literário dos clérigos até
o século XIII (LE GOFF, op. cit., vol.
II: 55).
Pierre Bonnassie distingue duas fases
na história das revoltas camponesas da
Idade Média:
1)
do final do século X até o século
XII e
2)
séculos XIV-XV (BONASSIE, 1985: 127)
na Alta Idade Média, a documentação
simplesmente omite a existência do camponês:
não há camponês nem
mundo rural na literatura dos séculos
V e VI (LE GOFF, 1980: 121-133). O autor
propõe três motivos:
1)
A ideologia da Alta Idade Média não
era favorável ao trabalho, privilegiando
o modo de vida militar e a vida contemplativa
2)
O peso econômico e social do campesinato
tornou-se quase nulo
3)
A arte torna-se abstrata e o realismo social
e humano regride, o que provoca esta ausência
do camponês também nas representações
artísticas do período.
Por sua vez, Georges Duby destaca o motivo comum
das revoltas camponesas medievais: a resistência
aos impostos (DUBY, 1988: 213). Para a primeira
fase das revoltas, selecionei duas passagens
de fontes onde a consciência de pertença
a um grupo oprimido está presente: uma
revolta na Normandia em 996 brutalmente sufocada
pelos barões e um diálogo fictício
entre um amo e seu escravo, na Inglaterra anglo-saxã
do século X. * Em 996 estourou uma revolta
camponesa na Normandia. Robert Wace (n.1110),
um anglo-normando cônego de Bayeux, funcionário
de Henrique Plantageneta, escreveu uma crônica
literária (incompleta) dos duques da
Normandia intitulada Roman de Rou (Romance de
Rollon, c.1170-1175), mais de cento e cinquenta
anos depois do acontecido, e, portanto, baseando-se
principalmente em fontes latinas (especialmente
a narrativa escrita cem anos antes pelo monge
Guilherme de Jumièges).
Escrevendo em forma de versos rimados, em romance
a língua literária das
cortes (DUBY, 1992: 170), Wace deixou transparecer
todo o ódio do camponês normando
contra seus senhores:
Filhos
da puta, dizem alguns / Porque nos deixamos
maltratar? / Livremo-nos da sua maldade! / Nós
somos homens como eles / Temos membros como
os seus / E corpo de igual tamanho / E do mesmo
modo sofremos / Só nos falta a coragem
/ Unamo-nos por um juramento... (WACE. Roman
de Rou [org. A. J. Holden, 1970-1973], v. 864-872.
Citado em BONASSIE: op. cit.: 128).
O discurso baseia-se na afirmativa da unidade
do ser humano. Eles são como nós:
esta é uma fala que pressupõe
o combate (e a consciência de que é
a parte fraca na luta). É o desejo de
igualar-se ao inimigo, retirar-lhe a aura mística
de superioridade (neste caso, a dignidade de
sua ordem), deixá-lo humano. A ênfase
é dada ao corpo (e membros): a dor é
igual para todos. Eles também podem sangrar.
Basta coragem. Para isso, é necessário
o juramento coletivo. A união do grupo
reforça e inibe o medo. Sem dúvida,
trata-se de um primeiro passo para a afirmação
de uma ação coletiva.
Naturalmente, pela natureza tardia do escrito,
é certo que tais palavras não
foram proferidas desta forma, talvez nem mesmo
tenham sido ditas. No entanto, o desejo de Wace
registrar o fato era, sem dúvida, o de
passar a sensação de revolta,
o ambiente turbulhante no qual a Normandia esteve
envolvida.
Como nos diz Wace, os camponeses, com a divisa
O nosso inimigo é o nosso senhor
(Notre ennemi, cest notre maître)
se uniram por um juramento, elegendo os
mais hábeis, os que melhor falavam
(Les plus adroits, les mieux parlant) para que
nunca tivessem senhor ou mediador. Ao saber
disso, o duque enviou um conde, de nome Raoul,
com forte cavalaria, para reprimir os insurretos.
A brutal repressão senhorial descrita
por Wace fala por si:
Raoul
exaltou-se de tal modo / Que não fez
julgamentos / Pô-los todos tristes e doloridos
/ A muitos arrancar os dentes / E a outros mandou
empalar / Arrancar os olhos, cortar os pulsos
/ A todos mandou assar os jarretes / Mesmo que
com isso morressem / Outros foram queimados
vivos / Ou metidos em chumbo a ferver / Assim
mandou tratar a todos / Ficaram com aspecto
horroroso / Não foram depois disso vistos
em parte nenhuma / Onde não fossem bem
reconhecidos / A comuna ficou reduzida a nada
/ E os vilãos portaram-se bem / Retiraram-se
e demitiram-se / Daquilo que tinham começado
(Raoul semporta tellement / Quil
ne fit pas de jugement / Les fit tous tristes
et dolents / A plusieurs arracher les dents
/ Et les autres fit empaler / Arracher les yeux,
poings couper / A tous fit les jarrets rôtir
/ Même sils en devaient mourir /
Dautres furent brûlés vivants
/ Ou plongués dans le plomb bouillant
/ Les fit ainsi tous arranger / Hideux furent
à regarder / Ne furent depuis en lieu
vus / Quils ne fussent bien reconnus /
La commune est réduit à rien /
Et les vilains se tinrent bien / Se sont retirés
et démis / De ce quils avaient
entrepris.) (Citado em LE GOFF: op. cit.,
volume II: 61) * Na Inglaterra anglo-saxã
anterior à invasão normanda (TREVELYAN,
s/d: 37-92), Aelfric, um mestre-escola de Wessex
(987-1002) lecionou na escola do mosteiro em
Cerne Abbas, próximo de Winchester
um indício da força deste reino,
que, desde o rei Alfredo, soube resistir às
invasões escandinavas (BLOCH, op. cit.:
39-43). Ali, em Cerne Abbas, Aelfric praticava
o latim com seus discípulos através
de textos seus (SWANTON: 1993). Eram principalmente
diálogos entre personagens fictícios,
mas especiais, porque expressavam as relações
sociais, o cotidiano da época. Nestes
colóquios (Colloquy), os protagonistas
eram, de um lado, pescadores e lavradores, e
de outro, seus amos (BARRACLOUGH: 1960). Num
deles, o lavrador descreve seu trabalho:
Amo:
O que você diz, lavrador? Como
realiza seu trabalho?
Lavrador: Trabalho muito, meu senhor.
Saio de casa ao raiar do dia. Levo os bois para
o campo e prendo o arado; por medo do meu senhor,
não há inverno tão rigoroso
em que eu ouse me esconder em casa; mas os bois
jungidos, a relha e a lâmina no arado,
devo arar um acre ou mais todos os dias.
Amo: Tem algum companheiro?
Lavrador: Tenho um rapaz que conduz os
bois com a aguilhada, que agora está
rouco por causa do frio e dos gritos.
Amo: O que você faz durante o dia?
Lavrador: Faço mais do que isso,
com toda certeza. Tenho de encher o estábulo
dos bois com feno, dar água, remover
o estrume.
Amo: É mesmo um trabalho árduo.
Lavrador: É um trabalho duro,
senhor, porque não sou livre. (LACEY,
1999: 46-47)
Os especialistas consideram os colóquios
escritos por Aelfric fruto da observação
direta (LACEY, op. cit.:28). Naturalmente, este
diálogo é absolutamente fictício.
No entanto, exprime com bastante clareza o sentimento
do medo: eles trabalhavam na terra por medo
de seus senhores. Para ser mais preciso: os
que sabiam ler e escrever pensavam que os camponeses
(e escravos, como no caso anglo-saxão)
trabalhavam sob coação (HEERS:
1983). * Lado-a-lado, estas duas passagens que
selecionei demonstram um nível de insatisfação
latente por parte do campesinato, um sentimento
que provavelmente só fez crescer até
chegar ao seu limite, no século XIV.
Os camponeses estão sempre zangados
diz um poema goliárdico da Boémia
e o seu coração nunca está
satisfeito. (LE GOFF, op. cit., vol. II:
60).
Pois após o ano mil, a decadência
das instituições públicas
e o gradativo aumento das exações
(DUBY, 1988, vol. II: 96-100) apesar
das cartas de franquia cartas outorgadas
pelo senhor aos habitantes de vários
senhorios que codificavam os costumes locais
e protegiam os servos de interpretações
abusivas do senhor e seus funcionários,
...precisando as condições
e os limites em que o senhor, de futuro, poderá
exigir tributos e serviços (FOURQUIN,
op. cit.: 174) , forçou o campesinato
a uma uniformização. Para baixo.
Especialmente a partir do século XIII,
tempo que viu alargar a distância entre
ricos e pobres no mundo medieval (DUBY, 1988,
vol. II: 150).
Isto fica claro quando se analisa a evolução
dos termos aplicados ao camponês: pouco
a pouco, um sentido pejorativo tomou conta do
universo semântico que definia o homem
da terra (FOURQUIN, op. cit.: 167), especialmente
as palavras rusticus camponês,
mas desde o século VI como sinônimo
de ignorante, iletrado, em suma, a massa desprovida
de cultura (LE GOFF, 1980: 132) e villani
(vilão) originalmente apenas o
residente da villa (ROBERT, 1989: 2.094), mas
no século XIV já com o sentido
de fealdade moral (LE GOFF, 1984, vol. II: 58).
Os rustici também eram retratados pelos
letrados com profundo desprezo, ridicularizados
na literatura e na arte, nas chansons de geste,
nos contos satíricos e nos poemas goliárdicos
os goliardos (ou vagants) eram clérigos
marginais e urbanos que escreviam poesias criticando
asperamente a sociedade de sua época
(LE GOFF, 1993: 31-39).
Por exemplo, um conto dizia que a alma do vilão
após a morte seria recusada no Inferno,
pois os diabos se recusariam a levá-la
devido ao seu mau cheiro (TUCHMANN, 1990: 162)
apenas se possuísse uma habilidade
excepcional alcançaria o paraíso
(É esse o tema do fabulário
intitulado Du vilain qui gagna le paradis par
plaid isto é, o vilão que
ganhou o paraíso pleiteando.) (LE
GOFF, 1984, vol. II: 58).
Um poema goliárdico (A Declinação
do camponês) mostrava o vilão como
um gatuno (furem), ladrão (latro), maldito
(maledicti), miserável (tristium), mentiroso
(mendacibus) e infiel (infidelibus) (LE GOFF,
1984, vol. II: 59).
Era também comum o camponês ser
descrito como um negro. Numa chanson de geste
de Garin le Lorrain, Rigaud, filho do vilão
Hervis é descrito da seguinte forma:
Era
um rapagão de membros fortes, largo de
braços, de rins e de ombros, com os olhos
afastados um do outro de uma mão-travessa;
não se poderia encontrar em sessenta
países um rosto mais rude e mais desagradável.
Tinha os cabelos eriçados e as faces
negras e curtidas; havia seis meses que não
lavava a cara e a única água que
lha molhara tinha sido a chuva do céu.
E na floresta onde Aucassin vai a cavalo, a
aparição de um jovem camponês:
Tinha uma enorme cabeça. mais negra
que um tição, e tinha mais de
uma mão-travessa entre os olhos, e tinha
enormes bochechas e um grande nariz achatado,
com as narinas largas, e lábios grossos,
mais vermelhos que a carne grelhada, e grandes
dentes, amarelos e feios... (LE GOFF, 1984,
volume II: 58).
Enfim, para os letrados, o camponês era
um ser intermediário, a meio caminho
entre os animais e o homem (LE GOFF, 1989: 93).
A conjuntura do início do século
XIV na França também agravou esse
quadro antagônico. As calamidades que
afetaram os abastecimentos (especialmente os
anos muitos chuvosos a partir de 1309 e depois
nos anos 1315-1317), as sucessivas guerras (com
suas pilhagens e incêndios de colheitas),
a Grande Peste de 1348 e 1349, o conseqüente
despovoamento dos campos e a restrição
dos espaços cultivados (DUBY, 1988, vol.
II: 161-178) afetaram a crise das ordens no
ano de 1358, e, especialmente, a imagem que
o camponês tinha do pacto social e da
nobreza como um todo.
A Revolta dos Jacques (FR 2813), fol. 414, Grandes
Chroniques de France, France, Paris, XIVe s.
(70 x 65 mm)

La jaquerie de maio a junho de
1358
Foi nesse contexto histórico de gradativo
e dissimulado confronto social que aconteceu
a Jacquerie. Além disso, as derrotas
francesas na Guerra dos Cem Anos, o cativeiro
do rei João II (1350-1364) na Inglaterra
após a derrota em Poitiers (1356), mas,
sobretudo, a venalidade dos ministros do rei,
abriram um espaço político para
que o Terceiro Estado convocado para
pagar o resgate de João II tentassem
de alguma forma restabelecer o controle constitucional.
Os primeiros Estados Gerais foram convocados
em 1355 e 1358, portanto, no contexto pré-insurrecional
(FOURQUIN, op. cit.: 221).
Poitiers mostrou ao povo que os cavaleiros eram
incapazes de assumir a missão de proteger
o rei, só ela justificava sua arrogância,
seus privilégios e o sistema fiscal senhorial
(DUBY, 1992: 264). O consenso foi então
bruscamente rompido.
A sublevação camponesa de maio
de 1358 foi precedida por um levante burguês
parisiense, que teve como líder o preboste
(prévot, cargo equivalente ao de prefeito)
Etienne Marcel. O preboste administrava todas
as funções municipais, e era auxiliado
por 10 vice-prebostes e um conselho de 24 clérigos
e leigos. Rico negociante de tecidos, Marcel
era também o principal representante
dos grupos mercantis da burguesia parisiense
no Terceiro Estado (CAZELLES, 1965: 413)
composto então pelas corporações,
especialmente de comerciantes, advogados e fornecedores
de gêneros alimentícios à
coroa (FEBVRE, 1927).
O Delfim Carlos e Etienne Marcel (FR 2813),
fol. 404v, Grandes Chroniques de France. France,
Paris, XIVe s. (70 x 65mm)
O pano de fundo do levante burguês foi
a convocação dos Estados Gerais
para a captação de dinheiro para
a defesa do reino contra a Inglaterra (e o resgate
do rei João II). Marcel comandava metade
dos delegados (400), e exigiu o afastamento
dos sete conselheiros reais (sabidamente corruptos)
e o confisco de suas propriedades.
Além disso, que fosse formada uma comissão
chamada Conselho dos Vinte e Oito
(12 nobres, 12 burgueses e 4 clérigos)
e a libertação de Carlos, o Mau,
de Navarra (TUCHMANN, 1990: 145).
O delfim Carlos fugiu de Paris, rejeitou as
exigências e ordenou a dissolução
dos Estados, que se recusaram. Marcel pressionou
o delfim, com a ameaça de greves (das
guildas e ofícios de Paris) e violência
popular (armando o populacho). Sem recursos,
Carlos voltou a Paris e reconvocou os Estados
que, entre fevereiro e março de 1357
elaboraram, em francês, a chamada Grande
Ordenação, sessenta e um
artigos que expunham o ideal do bom governo
monárquico. Além disso, seria
formado um Conselho de Trinta e Seis (doze de
cada Estado), para aconselhar a coroa (COVILLE,
1902: 119-121). Carlos protelou e, mais uma
vez, Marcel pressionou, levando as massas às
ruas, que gritavam: Às armas!.
Carlos assinou, mas conseguiu que a nobreza
retirasse o apoio na reunião dos Estados
Gerais.
Em agosto, Carlos restabeleceu os conselheiros
afastados e informou a Marcel e ao Conselho
dos Trinta e Seis que governaria sozinho. Os
acontecimentos se precipitaram: após
dois discursos em Paris um de Carlos
de Navarra (libertado para ser um aliado de
Marcel), outro do delfim Carlos e o assassinato
de Perrin Marc, que, por sua vez havia matado
o tesoureiro do delfim Marcel marchou
com cerca de três mil artesãos
e comerciantes armados até o palácio
real.
Chegando ao quarto do delfim, mataram dois marechais
na frente de Carlos, nas palavras de Marcel,
um ato que representava a vontade do povo
(TUCHMANN, op. cit.: 158). Após este
acontecimento, os nobres definitivamente colocaram-se
ao lado da coroa.
Assassinato
dos marechais do Delfim (Robert de Clermont
e Jean de Conflans) por Etienne Marcel e seus
homens no quarto do Delfim Carlos (FR 2813),
fol. 409v, Grandes Chroniques de France, France,
Paris, XIVe s. (90 x 65 mm).
Nestas circunstâncias políticas
aconteceu o levante da Jacquerie. Existem dúvidas
a respeito da gota dágua que motivou
a sublevação camponesa: o confisco
de bens camponeses (TUCHMANN, op. cit.: 158),
uma fome no norte da França (FOURQUIN:
1964) é importante ressaltar que
a revolta se espalhou a partir do norte da região
parisiense, um dos campos mais prósperos
da Europa (DUBY, 1988, vol. II: 214). Seja como
for, uma coisa é certa: a Jacquerie traduziu
a tensão latente na sociedade rural francesa
de então (MOLLAT: 1973). Por sua vez,
Georges Duby afirma que a revolta não
teve como alvo a fortuna dos senhores, e menos
ainda o regime senhorial, fazendo uma tênue
distinção: os camponeses se levantaram
contra um tipo de exploração realizada
pelo rei e pelos chefes guerreiros, exprimindo
a desordem de certos cantões mais
oprimidos pelo imposto (DUBY, vol. II,
1988: 215).
Pelo contrário, entendo que os jacques
se sublevaram contra seus senhores por entenderem
que o pacto social havia se rompido e sua condição
servil deveria terminar. Neste aspecto ela deve
ser entendida sim como uma luta de ordens, guardadas
as devidas proporções com o ambiente
da época, como veremos. Pois eles não
afirmaram o desejo de aniquilar do mundo
toda a nobreza? (FROISSART, 1988: 181)
Como esta passagem da fonte deve ser entendida?
Apenas um desvairio de uma multidão
cega? (DUBY, 1988, vol. II: 214)
Chegamos então a Froissart. De antemão,
digo que seu texto sobre a Jacquerie não
é original. O autor tampouco presenciou
os acontecimentos, pois baseou-se para redigir
seus escritos na Crônica de Jean le Bel.
Originário de Hainaut, Jean le Bel foi
canônico de Saint Lambert de Liège
desde 1311 e lutou ao lado de Jean de Hainaut
durante sua campanha contra a Escócia
(1327). O texto de Jean le Bel é considerado
a principal fonte de Froissart (COVILLE, op.
cit.: 413). Froissart afirma mesmo que aumentou
e historiou o livro de le Bel, sem tomar
partido, sem colorir uma coisa mais que outra,
salvo os bons feitos dos bons, que os conquistaram
pela sua proeza... (FROISSART, op. cit.:
03).
Froissart inicia sua narrativa sobre a Jacquerie
quando Etienne Marcel controlava Paris e pressionava
o delfim. Ele afirma que esta terrível
e grande tribulação (FROISSART,
op. cit.: 179) iniciou-se no Beauvaisis (fim
de maio de 1358). Cerca de cem homens (jacques
Jacques Bonhomme era o nome depreciativo
dado pela nobreza ao camponês) se reuniram,
num cemitério, inicialmente sem líder.
Após a decisão pela revolta, partiram
até a casa do gentil-homem mais próximo,
provavelmente um agente do príncipe
homens de armas estabelecidos pelo soberano
(pois a revolta teve como alvo direto os homens
que representavam a exploração
realizada pela nobreza). Estes jacques, armados
apenas de bastões com pontas de ferro
e facas (FROISSART: op. cit.), destruíram
a casa,
...mataram
o cavaleiro, a dama e os filhos, grandes e pequenos,
e incendiaram tudo. Logo foram a um castelo
e ali ainda fizeram pior, pois prenderam o cavaleiro
e o ataram a uma estaca muito fortemente, e
muitos violaram a mulher e a filha diante do
cavaleiro. Depois mataram a mulher, que estava
grávida, a sua filha e todos os filhos,
e o marido, depois de torturá-lo, queimaram-no
e destruíram o castelo. (FROISSART, op.
cit.: 180)
Logo surgiram líderes: um tal de Jacques
Bonhomme, segundo Froissart, ...de Clermont
em Beauvaisis (...) o pior dos piores.
Outro teve melhor registro:
A
condição das bestas é mais
feliz que a nossa, pois não são
obrigadas a trabalhar mais do que a sua força
lhes permite. E nós, pobres asnos, carregamos
fardos e mais fardos (...) Força então
meus bons amigos; despertemos e mostremos que
somos homens e não bestas (Citado
em BONASSIE, op. cit.: 128)
Estas palavras são atribuídas
a Guillaume Carle (Cale ou Karle) pelo cronista
Belleforest. Verdadeiras ou não, o fato
é que ele se destacou como o líder
dos camponeses. Uma liderança, condição
necessária para a resistência passiva
tomar a forma de uma rebelião declarada
(CHERUBINI, 1989: 91).
Carle era natural da Picardia, no noroeste da
França, uma região com uma alta
densidade populacional já no século
X (NICHOLAS, 1999: 325). As crônicas apontam
sua eloqüência natural e capacidade
de organização: ele montou uma
comuna que, entre outras coisas, deliberava
com um selo oficial e empossava capitães
locais eleitos.
Carle ainda mandou seus homens improvisarem
espadas de foices e costurarem bandeiras com
a flor-de-lis, para demonstrar que a insatisfação
dos camponeses era contra os nobres e não
contra a monarquia. Carle queria a aliança
com as cidades; os dois movimentos, camponês
e burguês se uniriam contra os nobres.
Obteve razoável resultado: Beauvais e
Senlis abriram suas portas e deram alimentos
aos jacques; Beauvais e Amiens chegaram mesmo
a executar vários nobres enviados pelos
jacques como prisioneiros. Mas Compiègne
e Caen não aderiram à revolta
e receberam nobres refugiados (TUCHMANN, op.
cit.: 164).
De Beauvaisis o movimento se espalhou como uma
centelha para o sul de Paris, da Picardia à
Normandia e Champagne. Com tochas, usavam foices,
machadinhas e qualquer coisa que pudesse ser
usada como arma. Apavorados, a primeira reação
dos nobres foi fuga: "...cavaleiros, damas,
escudeiros, suas mulheres e seus filhos fugiam
deles. Damas e donzelas levavam seus filhos
dez ou vinte léguas distantes, ali onde
pudessem se proteger, abandonando suas casas
com todos os seus bens." (FROISSART, op.
cit.: 180)
Froissart
traz a imagem da cruzada para ressaltar a crueldade
dos jacques: Certamente jamais houve entre
cristãos e sarracenos os crimes que cometiam
estes miseráveis, pois quem cometia maiores
atos vis, atos que nenhuma criatura humana deveria
jamais nem imaginar, esse era o mais estimado
e valorado entre eles. a palavra
misérable passou a fazer parte da língua
francesa em 1336, e significa ...aquele
que inspira piedade e está vivendo no
mal, no sentido de más condições
materiais (ROBERT, 1989: 1207).
Então o autor, baseado na crônica
de Jean le Bel, descreve o canibalismo dos jacques,
numa passagem que foi mais tarde repetida em
várias crônicas: Pois, entre outras
vilanias, mataram um cavaleiro e o cravaram
em um assador para assá-lo no fogo diante
de sua dama e de seus filhos. Depois que dez
ou doze forçaram e violaram a dama, quiseram
fazer ela comê-lo à força
e logo fizeram-na morrer de má morte.
Houve mais destruição do que mortes.
Nas crônicas posteriores, as mortes chegam
a um total de trinta e três nobres (TUCHMANN,
op. cit.: 164). Em compensação,
as
...gentes
miseráveis incendiaram e destruíram
mais de sessenta boas casas e fortes castelos
do país de Beauvaisis e dos arredores
de Corbie, Amiens e Montdidier (...) saquearam
entre as terras de Coucy, os bispados de Laon,
Soissons e Noyon, mais de cem castelos e boas
casas de cavaleiros e escudeiros, matando e
roubando tudo o que encontravam (FROISSART,
op. cit.:180- 181).
Mas para que a nobreza não fosse extinta
do mundo, Deus deu fim à revolta: E
se Deus não houvesse posto remédio
com Sua graça, a desgraça teria
crescido de modo que todas as comunidades teriam
destruído os gentis-homens, depois a
santa Igreja e a todas as gentes ricas de todo
o país, pois assim sucedeu no país
de Brie e Artois.
A nobreza, nas palavras de Barbara Tuchman,
sentiu o hálito quente da aniquilação
(TUCHMANN, op. cit.: 165). Froissart diz que
os nobres de Beauvaisis, Corbiois, Vermandois
e Valois e das terras onde aqueles miseráveis
cometiam seus crimes viram suas casas destruídas
e seus amigos mortos, pediram ajuda a seus amigos
em Flandres, Hainaut, Brabant e Bélgica.
A reação branca então começou:
Estrangeiros e gentis-homens do país
se uniram e começaram a matar e decapitar
aqueles miseráveis, sem piedade nem mercê,
e os penduravam nos galhos das árvores
ali onde os encontravam. O momento decisivo
seria em Meaux, onde se encontrava a família
real. Os jacques (cerca de nove mil
e com grande vontade de crimes)
chegaram a 9 de junho.
Na fortaleza, chamada Mercado de Meaux,
estavam a mulher, a infanta e a irmã
do delfim, com cerca de trezentas damas e seus
filhos. A cidade abriu suas portas, instalando
mesas nas ruas com pão, carne e vinho
os jacques faziam saber que esperavam
esse tipo de recepção sempre que
entravam numa cidade. As donzelas, quando viram
tal quantidade de gentes, sentiram medo e terror.
No mesmo dia que os jacques chegaram a Meaux,
dois cavaleiros, que voltavam da cruzada na
Prússia, acudiram as damas, um remédio
que Deus, com Sua graça, concedeu a elas:
Agora
observai a grande graça que Deus concedeu
às damas e donzelas, pois, na verdade,
teriam sido violadas, forçadas e perdidas,
por nobres que fossem, se não houvessem
sido salvas pelos gentis-homens que ali estavam,
e de modo especial, pelo conde de Foix e meu
senhor captal de Buch, pois estes dois cavaleiros
vieram para destruir aqueles camponeses (FROISSART,
op. cit.: 181).
Com cerca de quarenta lanças (120 homens),
os cavaleiros, tendo à frente vinte e
cinco cavaleiros de armaduras e gualhardetes
de prata mostrando seus símbolos heráldicos,
entraram na ponte. Provavelmente na ânsia
da luta, os jacques imprudentemente decidiram
avançar naquele estreito espaço,
onde sua superioridade numérica não
podia prevalecer interessante observar
que Froissart não permite que os jacques
tenham nenhum tipo de coragem em batalha, pois
afirma que
...quando
aqueles miseráveis os viram assim formados,
esqueceram o furor de antes. Ainda que não
fossem muitos contra eles, os primeiros começaram
a retroceder, e os gentis-homens a persegui-los
e a lançar-lhes lanças e espadas
e a derrubá-los. Então os que
estavam diante e sentiam os golpes ou temiam
recebê-los, retrocederam todos de uma
vez de terror, e caíram uns em cima dos
outros (FROISSART, op. cit.: 184)
Os cavaleiros os mataram como bestas
no sentido medieval, besta pode ser qualquer
animal irracional (PANUNZIO: 1963), e morreram
naquela dia cerca de sete mil. Meaux foi saqueada
e incendiada, com todos os vilãos do
burgo dentro, e ainda ardeu durante duas semanas,
...e foi posteriormente condenada por
crime de lesa-majestade e eliminada como comuna
independente. (TUCHMAN, op. cit.: 166).
Com essa vitória, os nobres ganharam
confiança e a Jacquerie foi reprimida.
Os Jacques são massacrados em Meaux (1358)
(FR 2813), fol. 414v, Grandes Chroniques de
France, France, Paris, XIVe s. (70 x 65 mm)
Mas faltava ainda Guilherme Carle. Carlos de
Navarra, agora novamente aliado, contra-atacou
na Picardia e em Beauvais. Marchou em Clermont,
sob o controle de Carle, que comandou um ataque
organizado em campo aberto. Surpreso, Navarra
preferiu a traição: convidou Carle
para conversar. O picardo aceitou, dirigindo-se
ao acampamento de Navarra sem nenhuma proteção.
Num gesto covarde, o rei de Navarra, nobre e
cavaleiro, prendeu Carle e acorrentou-o.
Esta
captura desarticulou completamente o exército
camponês, que a seguir foi derrotado.
Segundo Froissart, mais de três mil jacques
foram mortos: O próprio rei de
Navarra acabou um dia com três mil muito
próximo de Clermont, em Beauvaisis.
Trezentos que se refugiaram num mosteiro foram
queimados vivos e Navarra ainda degolou Carle
depois de tê-lo coroado rei dos jacques,
num aro de ferro em brasa (TUCHMANN, op. cit.:
167).
Depois de Meaux e Clermont, os jacques não
conseguiram mais se unir de novo, a Jacquerie
terminara. O último líder da reação
branca foi o nobre Enguerrand de Coucy:
Depois desta destruição que se
fez em Meaux, não voltaram a se unir
em nenhuma parte, pois o jovem senhor de Coucy,
que se chamava meu senhor Enguerrand, ia com
muitos gentis-homens acabando com todos os que
encontravam, sem piedade nem mercê (FROISSART,
op. cit.: 184)
* Analisemos os dados abaixo:
Citações
- Gentis-homens
Damas - 15
Cavaleiros - 12
Donzelas - 06
Escudeiros - 05
TOTAL = 38
Citações - Camponeses
Gentes - 09
Gentes miseráveis - 08
Vilãos - 03
Criminosos - 02
Violadores - 01
Jacques - 01
TOTAL = 24
Ao utilizar a análise lexicográfica
como método para o tratamento da fonte,
percebi que Froissart trata da sublevação
de forma binária, numa oposição
simples a análise semântica
auxilia a confirmação de núcleos
de sentido do texto e sua abordagem quantitativa
se baseia na freqüência da aparição
de elementos da mensagem. A observação
do conteúdo após a análise
de sua singularidade e das circunstâncias
de sua produção pode ser
mais bem controlada e servir de aferidor metodológico
das hipóteses basilares da observação
(BARDIN, 1994: 114-115).
Preferencialmente, utiliza muito mais espaço
para o universo cavaleiresco, apesar de tratar
de uma revolta camponesa de grandes proporções,
além de sempre desqualificar o camponês.
Mas o mais importante a ressaltar é que
Froissart coloca o leitmotiv da revolta apenas
como um ímpeto sexual coletivo: os jacques,
como criminosos e violadores que são,
desejam apenas violarem damas (15) e donzelas
(06), as mais citadas ao longo do texto.
*
Por fim, tentarei responder às questões
levantadas por Garcia de Cortazar e Ruiz de
Aguirre e consideradas essenciais enquanto perspectivas
de abordagem dos movimentos populares:
1)
a Jacquerie foi um movimento espontâneo
ou organizado?
2) Quais foram as suas principais motivações?
3) E sobre a sua estrutura interna?
4) Qual foi o processo da revolta e a reação
dos restantes grupos sociais?
5) Qual foi a amplitude geográfica da
mesma? e
6) Quais foram as conseqüências do
movimento a nível imediato? (CORTAZAR,
1983: 160).
A Jacquerie inicialmente foi um movimento espontâneo,
mas que rapidamente evoluiu para uma contestação
aberta aos nobres. A principal motivação
dos jacques era o extermínio puro e simples
da nobreza, ou, nas palavras de Froissart, destruir
a todos os gentis-homens e nobres do mundo para
que não restasse ninguém.
Sua estrutura interna baseava-se no campesinato
dos arredores de Paris segundo Duby,
camponeses ricos (DUBY, 1992: 264). No entanto,
Duby não indica a fonte de sua informação.
Talvez se trate de uma hipótese por dedução,
já que a região onde a revolta
começou era uma das mais ricas da França,
como vimos. Tinham líderes locais de
destaque (como Guilherme Carle) mas sem nenhum
tipo de comando militar, fator essencial nas
derrotas de Meaux e Clermont.
Através das palavras de Froissart tentei
mostrar pari passu o processo da revolta. O
único grupo social que esboçou
uma cooperação foi o dos burgueses
citadinos as cartas de perdão
concedidas pelo infante Carlos depois dos acontecimentos
mostram os ofícios sociais envolvidos
com os jacques açougueiros, padres,
tanoeiros, até mesmo oficiais do rei
(LUCE: 1895).
As conseqüências da revolta foram
o oposto do que desejavam os jacques: o poder
senhorial apertou o cerco; nenhum movimento
surgiu em decorrência da sublevação;
o povo de Paris tornou-se objeto de desconfiança
por parte da monarquia; os Estados Gerais perderam
o direito de se reunirem à revelia do
rei a monarquia estava com a campo aberto
para se tornar absoluta; assim que foi eleito,
Carlos V mandou construir a Bastilha (DUBY,
1992: 265). Demoraria quatrocentos anos para
ser derrubada.
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