Percursos
Vividos, Percursos Conhecidos nos Núcleos
Urbanos Medievais"
Por
Amélia Aguiar Andrade
«Na
primeira tarde, ao abraçar-me
de novo, a avó dissera-me: —
Se deixasse o Bairro, parecer-me-ia
que tu não havias de voltar mais.
Aqui, todos me perguntavam por ti e
era como se estivesses sempre presente.
Depois, eu vejo pouco e, se saio, sinto-me
mais segura aqui, porque conheço
as ruas de cor. Por vezes, se caminho
um pouco distraída, só
noto as demolições quando
vou a entrar num estabelecimento e me
encontro diante de um descampado».Vasco
Pratolini, O Bairro, Lisboa, s/d, p.
196.
O
forasteiro que percorria qualquer vila
ou cidade medieval levava da paisagem
urbana uma imagem efémera e parcial.
Era demasiado curto, com efeito, o tempo
que gastava a calcorrear o caminho que
ligava a porta por onde entrara à
que escolhera para sair. E certo que
não ficava indiferente ao protagonismo
da muralha e, se os seus olhos conseguiam
apartar-se dos tabuleiros repletos de
tentadoras mercadorias que ladeavam
o seu percurso, reconhecia a muralha,
o castelo, os campanários que
anunciavam a presença de igrejas
e/ou mosteiros ou os pormenores arquitectónicos
que caractcrizavam uma residência
de prestígio.
Se
porventura a sua estada se prolongava
por mais algumas horas ou dias tomava
contacto com outras artérias.
Exactamente aquelas que o conduziam
a locais e/ou edifícios de utilização
pública — o mercado, a
estalagem, a igreja, o paço do
concelho, entre outros —, destinos
mais frequentes das suas deslocações
a um núcleo urbano.
Em
qualquer dos casos, ninguém diria
que se movimentava através de
uma topografia desconhecida. A firmeza
dos seus passos transmitia a certeza
de quem reencontrava uma organização
espacial que, nos traços gerais,
era semelhante à de outras vilas
e cidades. Mas o seu saber esgotava-se
no reconhecimento [52] desses elementos
familiares, incapaz de responder a questões
tão simples como a descrição
do caminho mais curto para chegar às
hortas exteriores à cerca, o
que se escondia por detrás da
fachada de uma casa ou as razões
de obras em curso.
Na
verdade, só a junção
das vivências quotidianas com
as memórias, exclusivas dos moradores,
podia satisfazer esse tipo de questões.
Apenas os que habitavam permanentemente
um determinado espaço urbano
conseguiam atingir com o meio envolvente
a familiaridade esclarecedora. Com efeito,
ao longo da sua vida, ao sabor da sua
mobilidade e dos seus interesses conjunturais,
o morador estabelecia uma relação
privilegiada com a paisagem urbana,
desenhando distintos percursos que palmilhava
com a desatenção do hábito
ou com a surpresa atenta da novidade.
Mas,
ainda e sempre uma imagem parcial. Nem
mesmo o morador se podia gabar de conhecer
todos os cantos e esquinas da vila ou
cidade em que vivia. Especialmente quando
esta atingia uma superfície considerável.
Nesse caso, era óbvia a sua tendência
ao confinamento a unidades espaciais
mais restritas tais como os bairros
ou, se o entre muralhas se mostrava
exíguo, aos arrabaldes que se
desenvolviam fora de portas. Estabelecia,
por isso, um evidente contraste entre
o espaço onde vivia e o espaço
onde ia, correspondendo este último
a artérias ou edifícios
que demandava apenas em situações
específicas.
Era
pois, através das ruas do arrabalde,
no interior do seu bairro ou na área
mais vasta que uma cerca de pedra delimitava
que o homem medieval estabelecia os
seus roteiros. Que tanto podiam ser
de trabalho como de lazer, de festa,
fé e até de dor. Por aí
arrastava a sua marginalidade ou exibia,
orgulhosamente, os sinais exteriores
de uma condição social
diferente. E eram essas ruas ainda sem
pavimento e essas casas desalinhadas
as testemunhas mudas do último
dos seus percursos, aquele que não
conhecia regresso.
Infelizmente,
as fontes disponíveis não
se mostram favoráveis à
recuperação desses trajectos
perdidos. Antes parecem apostadas
em escondê-los em textos que privilegiam
a seca e despojada visão jurídico-administrativa.
Outra coisa não era de esperar.
A palavra escrita, preciosa, reservava-se
para o que merecia a pena recordar.
Gentes anónimas e o espaço
em que se movimentavam raramente beneficiavam
do direito a serem preservados através
de textos manuscritos.
Assim
se compreende melhor porque razão
este texto renuncia à reconstituição
de todos os percursos possíveis,
consciente de que eles são tantos
e tão variados como os homens
que habitavam os núcleos urbanos
medievais. Incapaz de recuperar a totalidade
dos elementos de referência, das
significações e das memórias
dos moradores, atreve-se a refazer alguns
dos caminhos mais correntes e óbvios.
Esbatidos pela escassez de pormenores
e filtrados pela visão espacial
dos que detêm o acesso à
escrita. Apesar de tudo, não
deixa de valer a pena percorrê-los.

A
artéria onde se situava a sua
casa de morada era a mais familiar para
qualquer indivíduo que, quase
sempre, era capaz de a descrever com
exactidão e minúcia. Essa
rua, mil vezes palmilhada, colava-se
à pele de quem a habitava de
tal forma que, quando era necessário
ultrapassar o incómodo das frequentes
homonímias medievais, não
se hesitava em agregar o seu designativo
ao nome de baptismo e ao patronímico
de quem a habitava.
Cenário
preferencial do quotidiano do morador,
aí decorria senão a totalidade
pelo menos a maior parte da sua existência
tal como se desenrolara a do seu pai
e a do seu avô e onde, quase de
certeza, ia ter lugar a dos seus filhos
e netos. Porque as filhas e as netas
partiam ainda jovens, para outras casas,
situadas em outras ruas, tal como acontecera
com as suas mães e as suas avós.
Onde cumpriam o mais [53] frequente
destino da mulher: o casamento. Só
as mulheres sem irmãos, herdeiras
únicas por força do acaso
biológico, tinham o direito de
impor a sua residência de sempre
ao senhor que o matrimónio lhes
trazia.
Permanências
tendencialmente estáveis e duradouras,
apenas interrompidas se tempos de prosperidade
despertavam a cobiça por um lar
mais espaçoso ou por uma zona
de maior prestígio. Ou se os
revezes da fortuna – a viuvez,
a pobreza ou a velhice — obrigavam
a procurar uma habitação
mais modesta. Ou quando era preciso
partir para outros lugares.
Para os que ficavam, a rua não
tinha segredos. Ainda criança,
apreendera toda a sua extensão
seguindo as regueiras que os despejos
ou as águas da chuva abriam na
superfície terrenta. As brincadeiras
juvenis, por seu lado, familiarizaram-no
com as vielas e azinhagas de utilização
restrita que conduziam a outras artérias
e a outros mundos. Entre correrias e
gritos aprendeu a descobrir as melhores
frutas e vegetais das hortas que se
escondiam por detrás das casas.
E estendeu as mãos para afagar.
entre encanto e receio, um pintainho
recém-libertado da casca. Com
o correr do tempo e tal como acontecia
com o seu corpo, a sua rua transformava-se
perante os seus olhos. Lançavam-se
passadiços, erguia-se mais um
sobrado, ocupavam-se com novas construções
os espaços ainda vazios. Frágeis
nos seus adobes e madeiras, as casas
degradavam-se com frequência,
dando lugar a pardieiros ou a míseras
ruínas. Mas logo a azáfama
de carpinteiros e pedreiros anunciava
a sua recuperação.
Às
vezes, as obras tinham outros objectivos
acrescentar uma torre, uma escada exterior
de pedra, um novo compartimento, enfim,
um qualquer pormenor que fizesse a casa
distinguir-se do tipo de construção
mais corrente. E assim se mostrava a
todos a adaptação bem
sucedida do seu proprietário
às regras do mundo urbano. Com
um pouco de sorte até podia acontecer
que a rua aceitasse o protagonismo da
riqueza e do prestígio. E então
um nome de homem ou de mulher podia
transforma-se em topónimo que
o hábito ou a inércia
mantinha presente mesmo quando a morte
natural sobrevinha.
Estas
transformações da fisionomia
de uma artéria eram comentadas,
recordadas e por vezes até invejadas
por os que as observavam mais amiúde.
Comparava-se o antes e o depois, enriquecendo
uma imagem espacial já de si
bastante elaborada. Ao contrário
do que acontecia com os passantes que
destas alterações levavam
uma imagem instantâtnea e fugaz,
isenta de explicações.
O
morador assinalava sem dificuldade as
confrontações de cada
edifício ou o nome dos seus ocupantes
e ninguém melhor do que ele para
escolher os beirais que protegiam da
chuva ou os locais de maior frescura
durante as calmas de Verão. Mas
também reconhecia o som da roldana
que fazia descer balde de um poço
vizinho, o cheiro penetrante do estrume
que alguém acabara de espalhar
na horta familiar, o bater dos liços
do tear ou os passos cansados de um
velho que vivia duas casas à
frente.
O
mais provável era que, tal como
acontecia com a maioria dos habitantes
dos núcleos medievais, se sentasse
à soleira da porta da sua residência.
Escapava, assim, à exiguidade
de uma casa de divisão única
que a escassez de aberturas tornava
sombria mesmo quando do lado de fora
o sol brilhava. Aí, nessa casa-oficina,
permanecia grande parte do dia, debruçado
sobre o seu trabalho e tendo ao lado
tabuleiros onde expunha os artefactos
que confeccionava. Entre o desdobrar
das conversas e discussões de
outros moradores. as interpelações
dos compradores ou a passagem de forasteiros.
Talvez trocasse opiniões com
outros artífices ou respondesse
a pequenas provocações
sob as quais se escondiam longos anos
de companheirismo. Ansiava pelo momento
em que o cheiro dos alimentos cozinhados
lhe invadia as narinas anunciando a
pausa destinada às refeições.
E mais ainda esperava o toque das Trindades
que assinalava o fim da labuta quotidiana.
Ao
cair da noite, a rua aquietava-se. Recolhiam-se
os tabuleiros e os instrumentos de trabalho.Fechavam-se
portas e janelas. Tal como um cenário
vazio depois de uma representação
[54] tornava-se silenciosa, lúgubre,
plena de sombras. Uma imagem que a maioria
dos seus ocupantes desconhecia. Abrigados
à protecção do
lar poucos se atreviam a percorrê-la
durante a noite, certos de que, à
luz da lua ou da candeia, tudo o que
antes era familiar ganhava dimensões
estranhas quase fantasmagóricas.
Felizmente, durante poucas horas, pois
em breve os alvores da madrugada conferiam
de novo aos objectos a tranquila dimensão
habitual.
Entretido
pela sua rotina de trabalho ou distraído
com o apelo das múltiplas solicitações
que o rodeavam, nem sempre ocorria ao
morador a ideia de erguer os olhos acima
da linha dos telhados das imediações
da sua residência. Se o fazia,
deparava-se-lhe o céu. Que na
sua variabilidade traduzida em azuis
intensos, cinzentos brumosos, negros
estrelados ou nuvens de formas caprichosas
lhe anunciavam a sucessão dos
dias e das noites ou a alternância
das estações do ano.
Esse
cenário natural, contudo, era
frequentemente invadido por vastas construções,
elaboradas com materiais oneroos e menos
usuais. Mesmo quando a cidade ou vila
atingia dimensões razoáveis
ou se localizava em sítio acidentado
não deixava de se avistar, de
qualquer lugar, um pano de muralha,
algumas ameias do castelo ou o campanário
de uma ou mais igrejas. Em certos casos,
agigantadas pela proximidade porque
muitas artérias urbanas medievais
tinham um desses edifícios singulares
como ponto de chegada ou de partida.
Outras ainda, mercê da sua localização
periférica, tinham o muro como
óbvia confrontação.
Familiares
porque quotidianamente avistadas, estas
construções assumiam-se
como autênticos protagonistas
da paisagem urbana. Não só
pela sua monumentalidade e preferência
por locais elevados mas também
pelo seu valor simbólico. Que
qualquer morador, à sua maneira
e à sua medida, não deixava
de entender.
A
muralha com as suas torres, o castelo,
as igrejas, enquadradas pela massa indiferenciada
da construção corrente,
eram a manifestação mais
real e imediata da especificidade dos
espaços urbanos. Ao destacar-se
do meio rural envolvente, onde prevaleciam
campos cultivados, pastos e matas semeados
de casas esparsas, não estabelecia
apenas um contraste paisagístico.
Com efeito, essas distintas formas de
o homem medieval afeiçoar os
espaços que ocupava correspondiam
também a dois mundos social,
económica, institucional e culturalmente
opostos.
Diferenças
que mesmo o morador mais desatento acabava
por apreender, uma vez que se manifestavam
em pequenos pormenores do dia a dia.
Tal como a surpresa que lia nos olhos
dos recém-chegados perante regras
e hábitos urbanos que, para ele,
eram tão naturais como o ar que
respirava. Ou no à vontade com
que atravessava as portas de saída,
sem temer as onerosas portagens e peagens.
E, principalmente, quando olhava a muralha
e era invadido por uma reconfortante
sensação de tranquilidade.
A solidez compacta desses muros parecia-lhe
imune a todos os males. Aos ataques
dos inimigos, aos ares de peste vindos
de fora, aos forasteiros indesejáveis
e até à fúria sazonal
que atingia as águas desses rios,
normalmente serenos, que vizinhavam
com grande número dos núcleos
urbanos medievais portugueses. A protecção
régia que, em certos casos, essa
muralha significava parecia-lhe ainda
suficiente para refrear os abusos dos
poderosos. Talvez se sentisse, então,
mais livre, mesmo sabendo que eram apenas
alguns os que podiam moldar o presente
de acordo com as suas próprias
vontades. Enfim, um sem-número
de vantagens que o faziam, por certo,
agradecer a Deus a oportunidade de viver
num centro urbano e não no campo.
Mas,
o quotidiano de qualquer vila ou cidade
não se confinava aos limites
estreitos e tortuosos de uma rua. Implicava
deslocações a outras artérias,
aos arrabaldes (quando os havia) e derramava-se
até por toda a arca peri-urbana
próxima.
Para o morador, lugares tão diversos
reduziam-se a uma dualidade simples,
a que opunha os locais onde ia aos outros,
onde rara ou jamais ia. Dos primeiros
tinha uma percepção que,
quanto à riqueza de pormenores,
variava na razão directa da frequência
de utilização. Dos restantes
possuía uma visão sincrética
que se manifestava na imprecisão
dos designativos que lhe atribuía.
Sobre alguns locais nem chegava a ter
qualquer ideia. Não sabia onde
ficavam e só o acaso poderia
encaminhá-lo nessa direcção.
Talhavam-se,
assim, percursos múltiplos e
diversificados condicionados por factores
como a idade, a saúde, o sexo,
a condição social, a actividade
profissional, a etnia e até o
usufruto ou restrição
da liberdade de movimentos. Quase se
pode afirmar que a cada indivíduo
correspondia um percurso pessoal e único
e, por isso, não é de
mais repeti-lo, impossível de
reconstituir. Contudo, havia certos
locais, alguns edifícios e consequentemente
itinerários que nenhum habitante
podia desconhecer. Mesmo quando residia
no arrabalde ou o seu bairro atingia
o dinamismo suficiente para, à
semelhança do que acontecia nas
cidades muçulmanas peninsulares,
oferecer aos seus moradores tudo o que
era preciso ao bom andamento do dia
a dia.Na verdade, todos foram pelo menos
uma vez na vida ao castelo, à
casa do concelho, ao paço dos
tabeliães. E mil vezes tivera
de palmilhar o caminho que conduzia
à igreja, à fonte, aos
açougues, às portas da
muralha ou aos locais onde se instalavam
as tendas e boticas. Pormenorizemos,
então, alguns desses trajectos
que se podem considerar comuns a todos
os habitantes de um núcleo urbano
medieval.
A
ida ao castelo era, sem margem para
dúvidas, um percurso eminentemente
masculino. A maioria das mulheres só
lhe conhecia a robusta fachada pois
não chegavam a perfazer os dedos
de uma mão de circunstâncias
em que a sua presença era aí
desejada. Mesmo os homens, não
deixavam de experimentar, sobre o castelo,
sentimentos contraditórios. Era
óbvio que o alcaide e a guarnição
aí instalados eram o melhor garante
de defesa em situações
de confronto bélico. Mas quantos
aborrecimentos e contrariedades não
podiam associar-se à sua existência!
O que fazia a ida ao castelo pouco apetecida.
Com efeito, de lá vinham quase
sempre exigências: casas a derrubar
nas proximidades do muro, reparações
a empreender, abastecimentos a garantir
e até ordens para, momentaneamente,
se trocarem os instrumentos de trabalho
pelas bestas, pelos arcos e pelas flechas.
Visitas
que podiam ainda saldar-se por humilhações
engolidas no silêncio de quem
se reconhecia impotente perante o ultrapassar
das fronteiras de um poder atribuído
por um monarca, na maioria dos casos,
cada vez mais longínquo. Em momentos
graves, como em 1245, 1319, 1383-85
ou em 1448, deve ter sido com angústia
que as gentes urbanas esperaram a decisão
do seu alcaide: a rebelião ou
a fidelidade a um juramento?
Quase
sempre isentos de monumentalidade e
com escassos sinais distintos exteriores,
o paço do concelho e a audiência
dos tabeliães, que não
poucas vezes se associavam num só
edifício, tanto podiam instalar-se
em pontos nevrálgicos da área
urbana, tais como a praça ou
uma rua principal, como preferiam uma
artéria secundária, uma
daquelas que os forasteiros só
demandavam em ocasiões específicas.
Espaços orientados para uma utilização
pública que não se esgotava
na população residente
entre muros, eram regidos por homens
pois era tradição reservar-lhes
a responsabilidade da gestão
concelhia e o ofício de tabelião.
Variando
em número de acordo com a importância
administrativa e o dinamismo económico
da localidade, os tabeliães,
juntamente com os escrivães que
os auxiliavam, instalavam-se durante
quase todo o dia no paço que
lhes era reservado. Para aí se
dirigia quem precisava de conserver,
através da palavra escrita, as
condições de um contrato,
os termos de uma concórdia, os
argumentos de uma contenda ou as cláusulas
de um acordo de casamento. Regressavam
com um pedaço de pergaminho ou
de papel onde se inscreviam formulários
complexos, assinaturas e sinais que
pareciam dar mais razão às
suas razões. Mas nem todos eram
obrigados a deslocar-se para obtenção
de um documento autenticado. Se a sua
condição social ou a sua
prosperidade eram suficientes, cabia
ao tabelião palmilhar a distância
que separava a audiência da residência
desses afortunados. Alturas havia, porém,
em que a presença do tabelião
na casa de um morador não prenunciava
nada de bom. Significava que alguém
se sentira tão doente, tão
isento de forças que não
tivera dúvidas de que a morte
se avizinhava. Apressava-se, então,
a saldar por escrito as suas contas
com o mundo que ia abandonar. Remidas
as dívidas e as faltas, encomendados
e pagos os sufrágios, a sua alma
franqueava mais facilmente o Além.
Para
os habitantes de uma cidade ou vila
medieval que tinham logrado obter o
estatuto de vizinho a ida à casa
do concelho podia fazer parte de uma
rotina semanal que tinha no sábado
o seu dia mais certo. Se a assembleia
dos seus pares o fizera homem-bom ou
fora escolhido para alguma das magistraturas
municipais competia-lhe estar presente
nas reuniões destinadas a organizar
até ao mais ínfimo pormenor,
não apenas o quotidiano urbano
mas também as relações
com o mundo exterior. As decisões
então tomadas implicavam que
gente dos quatro cantos do interior
da cerca e até de fora de portas
encaminhasse os seus passos até
à casa do concelho.
Com
efeito, só nesse lugar se obtinha
licença para estender mais um
tabuleiro à porta de casa, se
aferiam os pesos e medida, se pagavam
coimas e multas ou se adjudicavam contratos.
Ou se ia responder a uma inquirição
preparatória de um regulamento,
jurar o ofício ou assumir o compromisso
de abastecer o açougue de carne
fresca. E vinham também os que
por razões diversas tinham transgredido
as normas concelhias. Traziam angústia
nos gestos e nos olhares, pois a decisão
da audiência dos almotacés
podia traduzir-se em algumas horas humilhantes
no colarinho da picota ou por um número
variável de dias passados numa
cadeia húmida e fria.
Ponto
de encontro de variadas gentes, o paço
municipal atraía quase sempre
uma chusma de pedintes. Vinham com a
esperança, não destituída
de fundamento, valha a verdade, de que
os homens da vereação
associassem ao exercício de prerrogativas
institucionais que consideravam enobrecedoras,
a prática da esmola, própria
das gentes de teres e haveres.
Ao
domingo, o toque dos sinos não
chamava o morador para o trabalho. Antes
lhe recordava que era tempo de parar
com a labuta de todos os dias e dirigir
o pensamento para Deus. Na igreja paroquial
que o crescimento demográfico
quatrocentista tornava acanhada, nas
sés que se queriam sempre monumentais
ou nas colegiadas e mosteiros que as
dádivas tornavam cada dia mais
belas e ricas, decorriam actos litúrgicos
que obtinham a adesão de uma
assistência vinda, na sua maioria,
das ruas limítrofes. Talvez não
percebesse o significado profundo do
ritual, apesar do esforço dos
eclesiásticos para adaptá-lo
às novas realidades urbanas.
Nem o texto, que era recitado numa língua
já esquecida. Mas não
deixava de ser sensível às
cores brilhantes do vestuário
dos oficiantes, à riqueza das
alfaias, à solenidade dos gestos
e até à sonoridade dos
cãnticos. Julgava-se então
mais próximo da divindade e tinha
quase a certeza de que as orações
ditas em local e momento tão
belos seriam mais facilmente atendidas.Mas
não era apenas o cumprimento
do preceito dominical que arrastava
o morador até à igreja.
Na verdade, com excepção
da rua de residência, nenhum outro
elemento da paisagem urbana acompanhava
tão de perto o correr da vida
de um indivíduo. Recém-chegado
ao mundo dos vivos era na igreja que
recebia a água baptismal que
o tomava membro da comunidade cristã
enquanto a passagem definitiva à
idade adulta que o casamento sancionava,
cada vez mais preteria a cerimónia
privada em favor de um acto público
que tinha como cenário o templo
de maior devoção dos nubentes.
Para os que escolhiam a vida religiosa
junto de comunidades seculares ou regulares
sediadas na sua vila ou cidade era num
desses templos que se exercia a privilegiada
missão de intermediário
entre os crentes e a divindade. E era
nas entranhas desses edifícios
que o seu corpo encontrava o repouso
final. De acordo com uma hierarquia
de lugares talhada pela riqueza e pelo
prestígio e que não deixava
dúvidas a ninguém que
mesmo na morte os homens eram diferentes.Era
também aí que qualquer
morador vivia momentos felizes. Suspenso
no desfecho de representações
e entremezes ou comovido com a mensagem
de pregadores mendicantes. Assistia
à partida de procissões
[57] em que também se incorporava
e que percorrendo as artérias
mais importantes do núcleo urbano
homenageavam a Virgem, os santos, o
Corpus Christi ou comemoravam o Domingo
de Ramos, e glórias passadas
como a batalha do Salado. Em dias de
festa agradecia-se o nascimento do herdeiro
do trono, ou as visitas do rei ou dos
grandes dignitários. E entre
cenários de luto e pranto chorava-se
a morte de reis e príncipes.Mas
a igreja, com o rossio fronteiro —
alguns gostavam de chamar-lhe praça
—. era um ponto de encontro muito
concorrido. Não admira portanto
que se escolhessem as suas portas para
a fixação de documentos
cujo conteúdo todos deviam conhecer
ou que nos seus amplos alpendres se
fizesse de tudo um pouco: reuniões
alargadas de vizinhos, elaboração
de documentos, regatia e até
a audição de pleitos em
que a presença de muitas testemunhas
era aconselhável.
As
torres que encimavam as portas de saída
abertas ao longo do perímetro
da muralha apontavam o caminho certo
a todos os moradores que, por uma ou
outra razão, eram obrigados a
abandonar temporariamente o centro urbano
onde residiam. Uns, como os mercadores,
os almocreves e os oficiais régios,
faziam-no por dever de ofício
e o seu primeiro destino era apontado
pelos topónimos que essas portas
tomavam e que no Portugal medievo pareciam
querer desenhar autênticas redes
urbanas. Nas vilas e cidades do litoral,
a porta da Ribeira juntamente com a
sua torre eram a última visão
da paisagem urbana que levavam aqueles
que, por mar, partiam em busca de outras
terras, gentes e mercados. Eram sempre
ausências com regressos ardentemente
desejados. Porque significavam a recuperação
da segura protecção
das paredes da muralha, sempre tão
ambicionada no intranquilo mundo medieval.
Era também por essas saídas
que partiam os homens e mulheres que
o mundo urbano recusava. Partiam cheios
de revolta e desespero sabendo que jamais
podiam regressar. Uns porque os esperava
a morte na forca situada fora de portas.
Aos gafos denunciados pelas chagas e
aleijões, restava-lhes uma vida
sem alegria dentro dos estreitos limites
de gafaria. Ante os olhares condoidos
e horrorizados dos passantes e a vista
de uma cintura de muralhas que lhes
recordava um espaço que já
não podia ser seu.
Para a maioria dos habitantes de um
centro urbano, contudo, as ausências
eram curtas e isentas de qualquer significado
especial, uma vez que correspondiam
a uma rotineira jornada de trabalho.
Por isso, escolhiam o caminho mais curto,
a saída que mais directamente
os conduzia aos pelames, às olarias,
aos fornos de loiça e cal. De
onde regressavam ao cair da tarde, no
passo lento de quem tinha ocupado o
dia em extenuantes labores. Que por
demasiado sujos e barulhentos eram considerados
indesejáveis no interior da cerca.
Mas
o mundo urbano, apesar de subestimar
institucionalmente a área rural
envolvente, não deixava de depender
fortemente dela. Com efeito, aí
se ia buscar água, lenha, pedra,
barro e areia. Entre o arvoredo das
matas próximas ou nos vinhedos
e ferragiais mais característicos
do Sul do País apanhava-se caça
miúda que trazia variedade à
dieta alimentar. E aproveitava-se a
força das águas dos rios
e ribeiras para fazer mover os engenhos
de moinhos e azenhas, obtendo assim
as farinhas para fabrico de pão
ou os fios que se utilizavam nos teares.
Aí se situavam também
as parcelas agrícolas que uns
compravam por vaidade e ostentação
e outros exploravam para assim completarem
os rendimentos provenientes do seu mester.
Em
certas alturas do ano o movimento entre
o interior da muralha e a zona peri-urbana
intensificava-se. No Inverno, quando
era preciso fazer as sementeiras, as
mondas ou a conservação
e limpeza das vinhas. Ou nos meses de
Agosto e Setembro quando urgia empreender
as colheitas ou apanhar as uvas. Fainas
que, a sul do Tejo, se prolongavam até
Novembro, mês da apanha da azeitona
nos inúmeros olivais que enquadravam
quase todas as vilas e cidades aí
localizadas. Nessas alturas a zona peri-urbana
tomava-se suficientemente apelativa
para atrair bandos de garotos ávidos
de fruta, gente disposta a vender a
força dos seus braços
e até os proprietários
normalmente absentistas que não
prescindiam dc uma vigilância
pessoal dos seus haveres.
Mas
também se podia ir fora de portas
sem levar preocupações
materiais no espírito. Instalados,
por opção, nas imediações
dos núcleos urbanos medievais,
os mendicantes, que apenas rareavam
a norte do Douro, atraíam, com
a sua mensagem de pobreza voluntária,
um número cada vez maior de fiéis
entre essas populações
de desenraizados que afluíam
às cidades e vilas. Muitos moradores
preferiam orar nesses mosteiros para
onde canalizavam as suas doações.
Nas
suas idas e vindas cruzavam-se com os
muitos que faziam esse percurso em sentido
inverso. Uns vinham de longe, outros
apenas do termo. Mas havia quem viesse
de muito perto, das habitações
que se acolhiam à tranquila sombra
exterior da cintura de muralhas, O arrabalde,
com efeito, poucas vezes excedia o comprimento
de uma rua e quem aí morava era
obrigado a franquear regularmente as
portas da cerca. Para ir ao castelo,
à audiência, à casa
do concelho ou à igreja matriz.
Mas também para se dirigir aos
açougues, à ribeira, à
praça e às tendas e boticas.
Aí encontravam os moradores do
entre muros pois também eles
tinham de cumprir esses percursos de
abastecimento diário.
Reconhecendo
o papel dominante da mulher no interior
do lar, a sociedade medieval tendia
a reservar-lhe a manipulação
e a transformação dos
alimentos. Assim se justificava a presença
maioritária de mulheres, comprando
ou vendendo, nos locais onde se comercializava
o pão, as carnes enxercadas ou
na ribeira onde se amanhava e vendia
peixe. No entanto, reservava-se aos
homens o trabalho nos açougues.
Só a eles competia, entre a Páscoa
e o Entrudo, sujar as mãos com
o sangue, as tripas e a gordura. O que,
se por um lado lhes trazia prosperidade,
não deixava, no entanto, de os
desprestigiar marcando-os com o tabu
do sangue.
Às
mulheres competia ainda o abastecimento
doméstico de água quando
não se podia contar com a comodidade
de um poço particular. E todos
os dias lá iam elas até
à fonte ou ao chafariz que a
vereação instalara em
pontos concorridos, quase sempre em
cruzamentos de ruas ou próximo
das saídas para servirem ainda
forasteiros sedentos. Junto à
fonte tinham lugar autênticas
assembleias femininas que, de certa
maneira, se contrapunham às reuniões
exclusivamente masculinas das tabernas.
Em que se conversava, se lamentava o
destino ou se invejava o sucesso de
alguém, O riso brotava fácil
tal como as discussões em que
se trocavam palavras violentas, pancadas
e puxões de cabelos. Depois,
voltavam para casa, penosamente, extenuadas
pelo peso dos cântaros transbordantes
que deixavam marcas húmidas na
poeira da rua.A aquisição
de bens não perecíveis
podia não afastar o morador da
rua em que residia. Tudo dependia da
sua localização. Sabia,
no entanto, que era nas ruas de intenso
movimento de forasteiros que se concentravam
os ofícios do vestir e do calçar
ou os menos vulgares, como a arte dos
metais preciosos. E que os trabalhos
do ferro exigiam a proximidade auxiliadora
da água havendo que os procurar
para os lados da ribeira ou pelo menos
nas imediações da fonte.
Mas nem todas as parcelas do espaço
urbano eram igualmente apetecíveis
a todos os moradores. Se algumas não
lhe eram aconselháveis outras
mesmo eram-lhe interditas.
As
esterqueiras, esses rossios delimitados
por um pano de muralha onde a população
fazia os seus despejos domésticos
era frequentemente ponto de abrigo para
malfeitores e arruaceiros. Locais a
evitar, especialmente quando o crepúsculo
já se anunciava.
Pouco
aconselháveis a gente pacata
e sobretudo às mulheres honestas
eram as tabernas, as estalagens e a
mancebia. Alimentadas pelo elevado consumo
de vinho que caracterizava a dieta alimentar
medieval, as tabernas proliferavam por
toda a superfície amuralhada
e constituíam, juntamente com
as estalagens localizadas nas artérias
de saída, um espaço privilegiado
para os jogos de azar e para os confrontos
violentos que não raro se saldavam
pela morte ou o exílio, Um percurso
que muitos preferiam não ter
aprendido.
Desconsideradas
socialmente mas apesar disso toleradas,
as prostitutas eram compelidas a circunscreverem-se
a uma área — a mancebia
— que os oficiais concelhios lhes
determinavam. Um local muito procurado
pela populaçâo masculina,
sobretudo pelos jovens que aguentavam
mal a espera cada vez mais demorada
pelo dia do casamento. Locais barulhentos
onde o vinho, os insultos e as agressões
faziam parte do quotidiano.
A
judiaria no interior da muralha e o
arrabalde mouro fora de porta faziam
parte daquele grupo de lugares que qualquer
morador localizava com exactidão.
Mas isso não queria dizer que
já lá tivesse estado.
Na verdade, a judiaria e a mouraria
assumiam-se como espaços autónomos
e auto-suficientes. Mais do que a comodidade
de tudo encontrar nos limites do seu
bairro, antes era a expressão
de uma segregação que
procurava reduzir ao mínimo os
contactos entre comunidades minoritárias
e o resto dos ocupantes do espaço
urbano. Pretendia-se o confinamento
dessas gentes de crenças e costumes
distintos diminuindo a sua mobilidade
dentro da cerca.
Para
os cristãos a ida à judiaria
ou à mouraria tinha sempre uma
razão: um negócio a ultimar,
um câmbio a realizar ou a consulta
ao físico que em grande número
de cidades e vilas portuguesas era um
judeu. Quanto às mulheres, só
entravam na judiaria durante o dia e
sempre acompanhadas. A sua presença
estava interdita nas mourarias.
Mas
vai já longo este deambular através
do mundo urbano na companhia de quem
o habitava. No entanto, talvez valha
a pena voltar. Para calcorrear outros
itinerários ou seguir, a par
e passo, os que, como os oficiais concelhios,
tinham da paisagem
urbana um conhecimento privilegiado.
Ou nos dias especiais — festas,
entradas de personalidades, confrontos
bélicos, incêndios, etc.
— em que ruas e edifícios
ficavam irreconhecíveis. Deixemos
isso para outra altura e para outros
textos.
NOTA
Por absoluta falta de espaço
este texto não vai acompanhado
de notas. Assinale-se que os elementos
para a sua execução foram
recolhidos em fontes e trabalhos já
publicados que se encontram citados
em Amélia Aguiar Andrade, «Um
percurso através da paisagem
urbana medieval», in Povos e Culturas,
n°2, A Cidade em Portugal: Onde
se Vive, Lisboa, 1987,57-77. Devem contudo
citar-se ainda os seguintes trabalhos:
M.Ângela Beirante, Evora Medieval,
diss, dota, dact., Lisboa, 1988; Manuel
Sulvio Alves Conde, Tomar Medieval—
O espaço e os homens (séculos
Xl V-XV), dias, mestrado dact., Lisboa,
1988, e A. H. Oliveira Marques et alii,
Atlas de Cidades Medievais Portuguesas
(séculos XII-XV), vol. 1, Lisboa,
1990?.
[Ousámos
publicar ese texto pela originalidade
na forma como o tema é abordado
e pelo carácter pedagógico
que possui. A autora está citada
resta apenas citar onde este artigo
se encontra: Estudos de História
e Arte - Homenagem a Artur Nobre de
Gusmão, Edições
Vega, 1995].
Fonte:
Mercado
Medieval de Óbidos