SACERDOTES,
GUERREIROS E CAMPONESES
A
SOCIEDADE está dividida em três
ordens. Além da eclesiástica,
a lei reconhece outras duas condições:
a do nobre e a do servo que não são
regidas pela mesma lei. Os nobres são
os guerreiros, os protetores das igrejas, defendem
a todo o povo e ao mesmo tempo se protegem a
eles mesmos. A outra classe é a dos servos.
Essa classe de desgraçados não
possui nada sem sofrimento; fornece provisões
e roupas a todos pois os homens livres não
podem valer-se sem eles. Assim, pois, a cidade
de Deus que é tomada como una, na verdade
é tripla. Alguns rezam, outros lutam
e outros trabalham. As três ordens vivem
juntas e não podem ser separadas.(ADALBERON,
Carmen ad Rotbertum regem francorum,
citado por PINSKY, J., op. cit. p.71.)
A
Sociedade Feudal
A
sociedade feudal era formada pela aristocracia
proprietária de terras (composta pelo
alto clero e pela nobreza) e pela massa de camponeses
(servos e vilões não proprietários).
O
clero ocupa papel relevante na sociedade feudal.
Os sacerdotes destacavam-se como servidores
de Deus, detentores da cultura e administradores
das grandes propriedades da Igreja, além
de sua marcante ação assistencial
aos desvalidos. A Igreja procurava legitimar
o modo de agir da aristocracia, afirmando que
Deus tinha distribuído tarefas específicas
a cada homem e que, portanto, uns deviam rezar
pela salvação de todos (o clero),
outros deviam lutar para proteger o povo de
Deus (a nobreza) e os outros deviam alimentar
com seu trabalho, aqueles que oravam e guerreavam
(os camponeses).
Os nobres (reis, duques, marqueses, viscondes,
barões e cavaleiros) habitavam os castelos,
que eram, ao mesmo tempo, residência e
núcleo de defesa contra os ataques de
inimigos. O castelo é sinal de
segurança, de poderio e de prestígio.
No século XI erguem-se as torres e vence
a preocupação da defesa. Em seguida,
precisam-se os encantos da habitação.
Continuando bem defendidos, os castelos passam
a dar mais lugar aos alojamentos e criam edifícios
de habitação dentro das muralhas.
Mas a vida ainda se concentra na sala grande.
O mobiliário é diminuto. As mesas
em geral são desmontáveis e uma
vez concluídas as refeições,
são retiradas. O móvel normal
é a arca ou baú, onde são
arrumadas as roupas ou a baixela. Esta é
de um supremo luxo, resplandece e é também
uma reserva econômica. (LE GOFF,
J., op. cit. v.2, p.125.)
O
senhor feudal procurava cercar-se em seu castelo
de uma corte numerosa, com dezenas de comensais
entre vassalos, parentes, amigos, cavaleiros,
além de criados domésticos e artesãos
especializados(ferreiros, carpinteiros, tecelões,
prateiros, ourives, curtidores, cervejeiros).
Sua hospitalidade pressupunha adegas e coleiros
sempre cheios, mesmo em épocas de colheitas
baixas. Para isso, os grandes senhores possuíam
vários domínios, administrados
em sua ausência pelos intendentes, encarregados
de fiscalizar a produção dos camponeses.
UM
CASTELO MEDIEVAL. O castelo é, principalmente,
um local fortificado, uma fortaleza; na origem,
era de madeira; os seus principais elementos
eram uma paliçada e uma torre de dois
andares, a cave e uma grande sala, em que se
entrava por uma escada de mão. Era construído
sobre uma elevação do terreno,
a motte. O castelo passa a ser a
base visível e concreta dos poderes do
castelão, cuja bandeira ondula na torre
de mensagem. (LE GOFF, J., op. cit. v.2, p.
275.
Os
nobres gastavam seus rendimentos em jóais
e banquetes e ocupavam seu tempo em treinamentos
no uso de armas(espada, lança e escudo),
em torneios, duelos e caçadas, utilizando
cães e cavalos amestrados, símbolo
de pompa e riqueza. A necessidade de melhores
equipamentos, armaduras e cotas de malhas contribuíram
para o progresso da metalurgia.
Caravanas
e mensageiros a serviço do senhor feudal
percorriam constantemente os caminhos precários
da época, mobilizando bois, cavalos,
carroças, barcos e homens para transportar
os artigos de que os nobres necessitavam. Os
torneios e as festas atraíam grande número
de artífices e mercadores para as redondezas
dos castelos, interessados em novos negócios.
As despesas da nobreza eram asseguradas pelos
tributos arrancados aos servos; quando isso
não bastava, os senhores recorriam a
empréstimos, inicialmente junto às
igrejas e posteriormente junto aos premistas
judeus, nessa época os únicos
isentos da condenação da usura
que recaía sobre os cristãos.
Os camponeses, anteriormente colonos e escravos,
transformaram-se em servos da gleba (presos
à terra) ou vilões (livres), dependentes
do senhor que detinha o poder de proteger, de
julgar, de punir e de arrecadar impostos, tendo
em vistaa a fragmentação do poder
público. Estavam submetidos a uma série
de encargos e sujeições considerados
infamantes, como as corvéias, as banalidades,
o direito de consórcio e a impossibilidade
de abandonar o domínio sem autorização.
As corvéias consistiam na obrigação
de prestar ao senhor serviços gratuitos
de tipo variado como: trabalho na lavoura, construção
de cercas e pontes, entrega de pilhas de lenha,
durante determinados dias da mesma. As banalidades
eram taxas cobradas pelo uso do moinho do senhor
para moer cereais, do forno para assar o pão
e o lagar para pisar as uvas para o vinho.
Os servos não possuíam a plena
posse de seu lote ou manso e, portanto, não
podiam transmiti-lo livremente por herança.
Ao morrer um camponês, seu filho pagava
uma taxa de sucessão para continuar em
seu lugar. A condição de servo
impunha também a autorização
do senhor para contrair matrimônio. Se
o futuro cônjuge pertencesse a outra aldeia
ou domínio, o senhor exigia uma compensação
em dinheiro para permitir o casamento.
OS
DIREITOS SENHORIAIS EM VERSON
"Em
São João (24 de junho), os camponeses
de Verson na Normandia devem ceifar os prados
do senhor e levar os frutos ao castelo. Depois,
devem cuidar do fossos. Em agosto, colheita
do trigo que devem levar à granja. Eles
próprios não podem recolher os
seus feixes senão depois que o senhor
tirou antecipadamente a sua parte. Em setembro,
devem a porcagem: um porco em oito
e dos mais bonitos. Em São Diniz (9 de
outubro) pagam o censo, depois o
direito de fechar o seu campo. No começo
do inverno, corvéia sobre a terra senhorial,
para prepará-la, semear e passar a grade.
Em Santo André (30 de novembro) paga-se
uma espécie de bolo. Pelo Natal, galinhas
boas e finas. Depois, uma certa quantidade
de cevada e trigo. Se o camponês vender
a sua terra, a décima terceira parte
do preço de venda pertence ao senhor.
No domingo de Ramos, deve ele a carneiragem
um certo número de carneiros
e uma nova corvéia de trabalho. Depois
deve ir para a forja, ferrar os cavalos; no
bosque, cortar as árvores para o senhor
e fazer a corvéia do carreto. Ainda mais:
o moleiro do castelo, para moer o grão
do camponês, cobra um alqueire de grão
e uma certa quantidade de farinha; no forno,
é preciso pagar também, e o forneiro
jura que, se não tiver o seu pagamento,
o pão do camponês ficará
mal cozido e mal virado.
(LUCHAISE,
La société française
au temps de Philippe Auguste.
Citado por ALBA, André. A Idade Média.
S.P., Ed. Mestre Jou, 1967, p.33/34.)
Para a nobreza, o servo comparava-se a um animal
selvagem, de uma feiúra repugnante e
sempre de mal humor. Era ridicularizado em poemas
que se referiam a ele como vilão,
rústico, gatuno,
diabo, ladrão,
apresentando-o ainda como um viciado, maldito
e miserável. Dessa maneira, o camponês
medieval, além de explorado pelas corvéias
e impostos, era desprezado e visto como uma
figura que apenas se parecia com uma pessoa
humana.
Naquela
época, as terras cultivadas não
eram muito extensas e os campos não tinham
proteção contra a má colheita
provocada por seca, inundação
ou passagem de soldados. Por isso, a população
camponesa alimentava-se mal, vivendo à
beira da fome ou morrendo com as epidemias tão
comuns na Idade Média e que atingiam
principalmente a camada mais pobre.
A exploração dos servos pelos
nobres esbarrava numa forte resistência
de muitos deles, que não recolhiam os
tributos devidos, incendiavam as colheitas,
fugiam para as florestas ou uniam-se a bandos
de foras da lei. Revoltas camponesas, mesmo
duramente reprimidas, não foram raras
e caracterizavam as relações de
conflito entre a nobreza e o campesinato durante
a época feudal.
Autores:
Fábio Costa Pedro e Olga M. A. Fonseca
Coulon.
História: Pré-História,
Antiguidade e Feudalismo, 1989