Peste Negra
 

A devastação causada pela peste diminuiu sensivelmente após 1350, embora a doença permanecesse no continente europeu, de forma endêmica, até o início do século XVIII. Sua marcha mortal pela Europa deixou seqüelas permanentes, que transformaram a relação entre as pessoas, abalaram a imagem de infalibilidade do clero, reforçaram a fé pessoal e aumentaram a popularidade de cultos místicos.  Na arte, mudou a forma de representação da morte, apresentada sempre de forma assustadora, levando com seu abraço os falecidos horrendamente descarnados e torturados, testemunhas permanentes das imensas cicatrizes sociais e psicológicas provocadas pela peste negra.

Em alguns locais, entretanto, tomaram-se medidas realmente eficazes, embora discutíveis. Em Milão, muravam-se as casas ao primeiro sinal de infecção, aprisionado doentes e sãos e evitando a propagação da praga. Em Nuremberg, instituiu-se um rigoroso programa de saúde pública, que incluía a pavimentação e limpeza das ruas e a remoção dos dejetos. A higiene pessoal, para muitos um conceito totalmente novo, foi estimulada, sendo que alguns trabalhadores recebiam até dinheiro para o banho como parte do salário. Em conseqüência destes esforços, Milão e Nuremberg tiveram uma das mais baixas taxas de mortalidade entre as cidades européias.

Conclusão

Um dos maiores erros na história é tentar analisar um determinado fenômeno com os olhos do presente. Na imensa maioria das vezes, só conseguiremos compreender um determinado fato através de uma análise que leve em consideração todo o conjunto de aspectos que caracterizam a época em que o mesmo aconteceu. Devemos olhar para o passado com os olhos dos homens de seu tempo. O homem medieval via a peste como um castigo divino. Entretanto, se analisarmos todos os dados referentes à habitação, higiene, alimentação e saúde, veremos que o caráter pandêmico da praga derivou da precariedade de todos estes aspectos, e de sua homogeneidade mais ou menos acentuada em todo o território europeu. A "morte negra" provavelmente não teria ocorrido se as condições de moradia ou higiene fossem outras, pelo menos não na extensão que ocorreu. Durante o apogeu do Império Romano, havia cidades muito maiores, mas as condições de habitação e saúde eram muito superiores. A peste foi um fenômeno característico de um mundo em mutação. Foi o alto preço pago por um continente que começava a se abrir para o resto do mundo através do aumento das relações comerciais, mas que ainda vivia em um ambiente concebido para uma vida isolada e auto-suficiente. Sob este aspecto, a praga teve um lado positivo, ao obrigar o homem ocidental a mudar a sua forma de se relacionar com o meio ambiente, ensinado-o o valor do planejamento urbano e  da higiene, além de expor a fragilidade da ciência médica medieval e, conseqüentemente, possibilitar sua evolução, livrando-a, pelo menos para alguns, da ignorância e da superstição.

Lista de ilustrações

  1. Planta baixa de uma casa camponesa típica. In: História da vida privada Vol  II. São Paulo: Cia das Letras, 1990.
  2. Mapa do avanço da peste negra na Europa. . In: Dicionário da idade média.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.

Notas

  1. BOCCACCIO, Giovanni. Decamerão. São Paulo : Círculo do Livro, p. 9-10,1991
  2. LARIOUX, Bruno. A idade média à mesa. Lisboa : Publicações Europa-América, 1989.
  3. BOCCACCIO, Giovanni. Decamerão. São Paulo : Círculo do Livro, 1991.

Bibliografia e fontes

  1. BOCCACCIO, Giovanni. Decamerão. São Paulo : Círculo do Livro, 1991.
  2. BOYLE, Charles. História em revista. Rio de Janeiro : Abril Livros, v. 12, 1991.
  3. BOYLE, Charles. O mundo doméstico. Rio de Janeiro : Abril Livros, 1993.
  4. DUBY, Georges. História da vida privada.São Paulo : Cia das Letras, v. 2, 1990.
  5. LAURIOUX, Bruno. A idade média à mesa. Lisboa: Publicações Europa-América, 1989.
  6. LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Lisboa: Editorial Estampa,  1983.
  7. LE GOFF, Jacques. As doenças tem história. Lisboa: Terramar, 1990.
  8. LOYN, H. R. Dicionário da idade média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.
  9. TUCHMAN, Barbara W. Um espelho distante. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.


Fonte: Projeto Chronos

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