Victor Hugo
 

Enquanto isso, Adèle, esposa de Hugo, estava entendiada; em 1831, ela já tinha começado um caso com Sainte-Beuve, o crítico literário. Ela se recusou a manter seu relacionamento com Hugo, que se lançou em uma extraordinária sucessão de casos amorosos; a maior parte deles era breve, mas um deles – com a atriz Juliette Drouet – começou em 1833 e durou até a morte dela meio século depois. Quatro anos mais jovem que ele, ela tinha longos cabelos pretos, olhos violetas, era magra, e tinha um conhecimento considerável da literatura francesa. Ele pagava as dívidas dela, e ela copiava os manuscritos dele.

O período 1829-1843 foi o mais produtivo da carreira do escritor. Seu grande romance histórico, "Notre Dame de Paris" - mundialmente conhecido como "O Corcunda de Notre Dame" - (1831), o conduziu à nomeação de membro da Academia Francesa, em 1841.

Criado no espírito da monarquia, o escritor acabou se tornado favorável a uma democracia liberal e humanitária. Eleito deputado da Segunda República, em 1848, apoiou a candidatura do príncipe Luís Napoleão, mas se exilou após o golpe de Estado que este deu em dezembro de 1851, tornando-se imperador. Hugo condenou-o vigorosamente por razões morais em "Histoire d'un Crime".

Durante o Segundo Império, em oposição a Napoleão 3o, viveu em exílio em Jersey, Guernsey e Bruxelas. Foi um dos poucos a recusar a anistia decidida algum tempo depois. O Times de Londres declarou: “Estamos orgulhosos por Victor Hugo ter escolhido viver em solo inglês, que se alimenta da sua presença, e se enriquece por meio dela”. O New York Tribune também disse: “Sua voz é a voz dos homens livres do mundo inteiro”.

Hugo passou a falar mais sobre a liberdade. Denunciou a execução de John Brown, que tentara provocar uma revolta de escravos na Virgínia em dezembro de 1859, e louvou os esforços de Giuseppe Garibaldi para estabelecer uma democracia liberal na Itália. Diante de uma platéia de mais de mil pessoas reunidas na ilha de Jersey, Hugo disse que “a liberdade é o bem mais precisos de toda a humanidade. Comida e água não são nada; vestimentas e abrigos são luxos. Quem é livre permanece com sua cabeça erguida, mesmo que esteja com fome, sem roupas e sem teto. Eu dedicarei a minha própria vida, o que quer que ainda reste dela, à causa da liberdade – liberdade para todos!”

Então, Hugo se voltou para um projeto que há muito estava passando por sua cabeça: um romance provisoriamente intitulado Misères [“Misérias”], para o qual começara a tomar notas ainda em 1840. Trabalhou nele de 1845 até fevereiro de 1848 (quando outra revolução na França interrompeu seu trabalho), indo adiante, mudando o título hesitantemente para Jean Trejean, e finalmente deixando o manuscrito de lado. No dia 26 de abril de 1860, foi ao cofre de estanho onde tinha guardado o manuscrito e retomou seu trabalho. Escreveu que passara “quase sete meses repensando e clarificando toda a minha primeira concepção da obra, de modo que viesse a haver uma unidade completa entre o que eu escrevi doze anos atrás e o que vou escrever agora”. Suspendeu seus dois banquetes diários e passou a escrever como um relâmpago. Escreveu dois terços do livro em 1861, e terminou Os miseráveis em 19 de maio de 1862.

Embora transborde simpatia e generosidade em Os miseráveis para com as pessoas que passam por dificuldades, Hugo sempre permaneceu distante dos socialistas da sua época. Ele parecia estar atacando o dogma marxista da luta de classes quando escreveu que “Existe uma tentativa – uma tentativa errônea – de fazer da burguesia uma classe especial. Mas a burguesia é somente a porção satisfeita do povo; o burguês é o homem cuja vez de se sentar chegou. Uma cadeira não é um castelo”. Hugo persistiu em seu ataque: “O comunismo e o agrarianismo acreditam que resolveram este segundo problema [da distribuição de renda], mas estão enganados: a distribuição destrói a produtividade. A repartição em partes iguais mata a ambição e, por conseqüência, o trabalho. É uma distribuição de açogueiros, que mata aquilo que reparte. Portanto, é impossível tomar essas pretensas soluções como princípio. Destruir riqueza não é distribuí-la”. Ele acreditava na capacidade do empreendedorismo privado e da paz de amenizar a pobreza: “Todo progresso caminha na direção dessa solução. Algum dia, todos ficaremos surpresos, pois veremos que com a ascensão de toda a raça humana, as suas camadas mais baixas também irão naturalmente sair da zona de sofrimento em que se encontram. A abolição da miséria será alcançada simplesmente com uma simples elevação do nível de todos”.

Esta obra, traz claramente a filosofia política de Victor Hugo. É um mundo onde há cooperação - e não luta - entre as classes; onde o empreendedor desempenha um função essencialmente benéfica para todos; onde o trabalho é a via principal de aprimoramente pessoal e social; onde a intervenção estatal por motivos moralista - seja do policial ou do revolucionário obcecado pela justiça terrena - é um dos principais riscos para o bem de todos que será gerado espontaneamente pelos indivíduos privados.

Sempre um reformista, envolve-se em política por toda a sua vida. Mas se critica as misérias sociais, não adota o discurso socialista da luta de classes. Pelo contrário, ele próprio viveu uma vida financeiramente confortável, construída com seus próprios esforços, tornando-se um dos escritores mais bem remunerados de sua época. Acreditava no direito do homem usufruir dos frutos do seu trabalho, embora reforçasse a responsabilidade que acompanha o enriquecimento pessoal. Desse modo, sempre buscou prosperar enquanto doava uma parte significativa de sua renda para diferentes obras de caridades.

Victor Hugo, no entanto, nunca aceitou o discurso socialista. Ele acreditava que uma sociedade aberta encontraria soluções para seus problemas. Mais que isso, ele era contra políticas de redistribuição de riquezas, pois o efeito dessas seria desincentivar a produção, fazendo com que toda a sociedade caminhasse para trás. Caso fosse permitida a liberdade de comércio, por outro lado, e caso se tolerasse algum grau de desigualdade social, o resultado - largamente comprovado pela história posterior - seria o progresso geral de todos, beneficiando inclusive os membros mais pobres da sociedade. Portanto, a defesa de um ordem que permita o progresso é benéfica para todos, e não para uma classe específica.

"O comunismo e o agrarianismo acreditam que resolveram este segundo problema [da distribuição de renda], mas estão enganados: a distribuição destrói a produtividade. A repartição em partes iguais mata a ambição e, por conseqüência, o trabalho. É uma distribuição de açogueiros, que mata aquilo que reparte. Portanto, é impossível tomar essas pretensas soluções como princípio. Destruir riqueza não é distribuí-la".

A partir de 1849, Victor Hugo dedicou sua obra à política, à religião e à filosofia humana e social. Reformista, desejava mudar a sociedade mas não mudar de sociedade. Em 1870 Hugo retornou a França e reatou sua carreira política. Foi eleito primeiro para a Assembléia Nacional, e mais tarde para o Senado. Não aderiu à Comuna de Paris mas defendeu a anistia aos seus integrantes.

De acordo com seu último desejo, foi enterrado em um caixão humilde no Panthéon, após ter ficado vários dias exposto sob o Arco do Triunfo.


O enterro de Victor Hugo em 1885


Fonte: Uol | www.vidaslusofonas.pt/victor_hugo.htm | http://www.victorhugo.culture.fr/ | http://artculturalbrasil.blogspot.com/2010/01/condoreirismo.html | http://galeriaphotomaton.blogspot.com/2009/05/victor-hugo-vida-e-obra.html | http://www.ordemlivre.org/node/368 | http://www.truca.pt/ouro/biografias1/victor_hugo.html

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