| A Novela na Idade Média |
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A utopia medieval fornecia um caminho para se chegar à perfeição, tratava-se sobretudo de um modelo. No entanto, o importante não era saber se o andarilho chegaria a realizar seu modelo utópico no fim de sua caminhada e sim tentar trilhar sempre o caminho escolhido. Por esse motivo, no fim, Félix morre e outro o substitui, pois a descoberta de nosso eu, do porque estamos aqui e qual o nosso destino são perguntas eternas que a filosofia sempre tentará responder. E o novo Félix sai novamente pelo mundo, dessa vez contando e recontando o Livro das Maravilhas, para ...louvar, glorificar, exaltar e santificar o nome de Jesus Cristo e de sua mãe Santa Maria.
Ramon Llull é um dos grandes utópicos de seu tempo apesar do forte filão aristotélico de sua filosofia (JAULENT, 2001: 22-23). Devemos ter em mente que o utopista, para conseguir idealizar sua sociedade perfeita, necessita pelo menos duas qualidades próprias: grande capacidade de imaginação e resfriamento de suas paixões (CARRERAS Y ARTAU, op. cit., vol. I: 630). Isso se traduz numa serenidade generosa no caso de Llull e de seu Félix, contemplativa e auto-reflexiva , que consegue perceber as possibilidades latentes de uma determinada sociedade através de sua percepção da realidade vigente e ao mesmo tempo propor um modelo ideal com base numa dura crítica dessas potências adormecidas.
Dessa forma, Llull, apesar de não abandonar a característica do entretenimento exemplarista como uma forma possível de edificar e reformar a sociedade, sugere um retorno utópico a uma igreja desligada dos poderes seculares, não essa igreja do século XIII, mas uma igreja reformada, não só espiritualmente mas também acima de todas as questões mundanas que dilaceravam os poderes monárquicos de seu tempo. Pois seu modelo que serve de base para sua reforma são os apóstolos e mártires. Não é à toa que para Llull o papa deveria ser como uma espécie de árbitro internacional das questões litigiosas entre os reinos cristãos.
Essa supremacia papal luliana se baseava fundamentalmente no conceito de Christianitas, a idéia de uma espécie de sociedade jurídico-espiritual de todos os cristãos (num sentido político-social). Assim, a cristandade seria muito mais do que um simples conglomerado de reinos e povos cristãos, pois estes estariam unidos pela submissão espiritual à Igreja Romana (OLIVER, 1957: 237). Esta era uma idéia grandiosa que havia sido gerada a partir do pontificado de Gregório VII (1187), terminando com o próprio Bonifácio VIII, isto é, durante boa parte do período em que Ramon escreveu suas obras. Assim, como possuí um objetivo unificador com fins missionários, Ramon evitava todo e qualquer tipo de polêmica em seus escritos. Por esse motivo, sua hierarquia social encimada espiritualmente pelo papa deve ser vista muito mais como um meio para se chegar a um fim a unidade da cristandade. Este era seu objetivo maior, juntamente com a paz, para poder realizar a propagação da fé cristã. Entendo que sua hierarquia não deve ser analisada como uma tese hierocrática, tão ao gosto dos teólogos, decretistas e decretalistas de seu tempo (decretal era uma carta ou constituição pontifícia, emitida em resposta a consultas sobre questões de moral ou direito).
Assim, convido-os a uma bela viagem poética e maravilhosa nos caminhos de Félix (http://www.ricardocosta.com/sumfelix.htm). Vamos conhecer o mundo medieval através da sensibilidade e da percepção de um homem medieval, e não utilizando esquemas teóricos genéricos que muitas vezes deturpam o tempo passado com a visão do tempo presente. Trata-se de perceber o percebido na ótica do tempo vivido, compreender a forma da experiência passada nos moldes daqueles que a viveram, deixando que o homem fale por si. Nesse caso, o historiador deve falar apenas para elucidar as palavras, os gestos, as cenas descritas nessas múltiplas narrativas que às vezes são tão reais.
O Livro das Maravilhas é tanto uma obra significativa de seu tempo que conheceu uma grande popularidade, na Idade Média e no Renascimento. Existem manuscritos que chegaram até nós em castelhano (um do século XV), francês (um do século XV), italiano (três do século XV, um do XVI e um do XVI) e catalão (três do século XIV, dois do XV e cinco do XVII), sem contar a grande difusão e posterior impressão do Livro das Bestas. Boa viagem.
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Fonte: Site do Prof. Ricardo da Costa (UFES) - http://www.ricardocosta.com/

