A Novela na Idade Média
 

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Feita esta ressalva e este breve comentário a respeito do Livro VII, volto então às características mais genéricas do Livro das Maravilhas. Como disse anteriormente, o objetivo da obra é salvar as almas perdidas, pois à medida que o leitor caminhar com o protagonista da novela conhecerá Deus e suas obras. O tom lamurioso do escrito — que se deve ao fato do autor acreditar que os homens de seu tempo não conheciam nem amavam a Deus — percorre toda a obra. Félix se maravilha porque o mundo não adora a Deus e especialmente porque seus governantes (príncipes, clérigos e os ricos burgueses) não dão o exemplo e são os responsáveis pelo estado lamentável que o mundo se encontra (BONNER, 1989, vol. II: 12).
Exemplo, exemplum, exempla: o Livro das Maravilhas é construído inteiramente com base nesse tipo de narrativa, típica do século XIII. Eu gostaria de enfatizar o caráter inovador de Llull na forma da exposição de seus exempla. Mas antes, em primeiro lugar, quero ressaltar que os exempla medievais são textos importantes para uma análise da vida cotidiana do homem medieval. A utilização do exemplum (e suas metáforas), como documento histórico é claramente defendida por Jacques Le Goff, um dos grande especialistas deste tipo de fonte histórica (LE GOFF, 1994: 267).

Embora o exemplum luliano esteja inserido na pregação urbana característica do século XIII, ele não se enquadra exatamente na definição do exemplum clássico medieval — um relato breve e verídico para ser inserido num sermão ou discurso de fundo teológico com o objetivo de convencer uma platéia através de uma lição moral (BREMOND, 1998: 21-28; CAZALÉ-BÉRARD, 1998: 29-42; GREGG, 1997 e LE GOFF, 1999: 324-344). Oriundo da retórica antiga — a partir de Aristóteles (exemplum – paradeigma) (CURTIUS, 1996: 97) — o exemplum medieval possuía uma estrutura literária bastante rígida e repetitiva, pois era normalmente destinado a um auditório iletrado (SCHMITT, 1999: 144).

Por sua vez, o exemplum luliano nunca é realista e não pretende ter um valor de documento histórico. Embora o objetivo seja o mesmo, o de converter ou reformar através de histórias moralizantes, Ramon busca sempre uma atemporalidade e uma utopicidade aplicáveis universalmente (BONNER I BADIA, op. cit.: 118-119).

Esta tendência de Llull de transformar exempla em parábolas fantásticas também se explica na forma escolhida de transmissão (a palavra escrita em prosa), e pela vontade explícita de entreter o ouvinte/leitor (GONZÁLEZ CASANOVAS, 1998: 64). Por esse motivo, a forma do desenvolvimento do exemplum luliano possui um dinamismo e um entrelaçamento textual que o distingue bastante do exemplum clássico trecentista definido acima.

Para uma conceitualização, talvez possa definir o exemplum luliano como um phantasticus exemplum. Ramon Llull muitas vezes cria diálogos abstratos entre as virtudes, os vícios, os animais e o homem — já foi visto que, da mesma forma que o mundo dos homens é reflexo e vestígio (vestigium) do mundo divino, o mundo dos animais é também reflexo do mundo dos homens (MALAXECHEVERRÍA, op. cit.). Como na visão do homem medieval todos estes mundos estão interligados, é possível então o diálogo entre os componentes das partes — embora nesse aspecto Ramon não fosse original: Jacques de Vitry (†1240), bispo de Acre e pregador de grande reputação na primeira metade do século XIII, já se havia valido dos exempla animalescos, uma vez que a associação com o mundo dos animais conferia uma grande eficácia ao exemplum narrado (LE GOFF, 1994: 271-272).

De qualquer modo, este é o caso de muitas narrativas contidas no Félix. E ressalto ainda que o fato do exemplum luliano não ser real, isto é, não estar baseado em diálogos reais — apesar das passagens claramente autobiográficas — não invalida seu caráter e sua base no real.

Explico. Para criar essa atmosfera literária sedutora, com os textos exemplaristas se encadeando numa sucessão rítmica vertiginosa — que muitas vezes faz com que o leitor se veja obrigado a voltar ao início do diálogo para entender novamente os porquês das respostas — Llull com certeza ambientou os personagens e os diálogos na vida cotidiana que presenciou, em Maiorca, Aragão, França, África ou Avignon. O objetivo era torná-los reais apesar de não serem reais. Somente essa familiaridade com as cenas e os diálogos (entre reis, príncipes, nobres, burgueses, ferreiros, sapateiros, eremitas, judeus, muçulmanos, camponeses, clérigos) faz com que o leitor/ouvinte sinta-se em seu mundo — o de Llull e o seu próprio. Caso contrário, seria necessário um esforço de abstração que, de certa forma, anularia a circularidade criada entre leitor e escritor, em que pese as dezenas de passagens filosóficas e metafísicas onde o autor tenta ambientar sua Arte no mundo real e palpável do leitor.

Na verdade, o Livro das Maravilhas é um grande espetáculo, onde o mundo medieval e especialmente os diálogos medievais são postos em cena — talvez nunca o conceito de teatrocracia de Balandier, a idéia de que o grande ator político, reconhecido pela sua força dramática e que “comanda o real através imaginário”, produzindo um espetáculo político, esteja tão bem encaixado num documento (BALANDIER, 1982). O protagonista — Félix — é, sobretudo, um anfitrião que recebe em seu caminho todo o espectro social do século XIII. E o mais importante: essa enciclopédia do conhecimento em forma de literatura fantástica que é o Livro das Maravilhas tem como epicentro o homem — quase 60% da obra é reservada à Humanidade, pois para Llull e para todos os homens do século XIII somos o ápice da criação divina.

Isso desfaz em grande parte o mito que a Idade Média não pensou o homem. A idéia luliana de natureza humana como o ponto de encontro entre a primeira causa (“...amá-Lo, honrá-Lo, servi-Lo e conhecer a Vossa bondade e a Vossa nobreza...” [RAMON LLULL, ORL, vol. I, 1906, cap. 45, 2, p. 227. Traduzido e disponível na INTERNET: http://www.ricardocosta.com/intencao.htm) e sua operação determina qual a definição do homem e sua relação com Deus e o mundo: em relação à criação, o homem é o centro, em relação ao criador e ao mundo, o homem é criativo enquanto produz coisas (ferramentas e obras de arte) (DOMÍNGUEZ REBOIRAS, 1997: 288).

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