| A Novela na Idade Média |
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Por sua vez, o exemplum luliano nunca é realista e não pretende ter um valor de documento histórico. Embora o objetivo seja o mesmo, o de converter ou reformar através de histórias moralizantes, Ramon busca sempre uma atemporalidade e uma utopicidade aplicáveis universalmente (BONNER I BADIA, op. cit.: 118-119).
Esta tendência de Llull de transformar exempla em parábolas fantásticas também se explica na forma escolhida de transmissão (a palavra escrita em prosa), e pela vontade explícita de entreter o ouvinte/leitor (GONZÁLEZ CASANOVAS, 1998: 64). Por esse motivo, a forma do desenvolvimento do exemplum luliano possui um dinamismo e um entrelaçamento textual que o distingue bastante do exemplum clássico trecentista definido acima.
Para uma conceitualização, talvez possa definir o exemplum luliano como um phantasticus exemplum. Ramon Llull muitas vezes cria diálogos abstratos entre as virtudes, os vícios, os animais e o homem já foi visto que, da mesma forma que o mundo dos homens é reflexo e vestígio (vestigium) do mundo divino, o mundo dos animais é também reflexo do mundo dos homens (MALAXECHEVERRÍA, op. cit.). Como na visão do homem medieval todos estes mundos estão interligados, é possível então o diálogo entre os componentes das partes embora nesse aspecto Ramon não fosse original: Jacques de Vitry (1240), bispo de Acre e pregador de grande reputação na primeira metade do século XIII, já se havia valido dos exempla animalescos, uma vez que a associação com o mundo dos animais conferia uma grande eficácia ao exemplum narrado (LE GOFF, 1994: 271-272).
De qualquer modo, este é o caso de muitas narrativas contidas no Félix. E ressalto ainda que o fato do exemplum luliano não ser real, isto é, não estar baseado em diálogos reais apesar das passagens claramente autobiográficas não invalida seu caráter e sua base no real.
Explico. Para criar essa atmosfera literária sedutora, com os textos exemplaristas se encadeando numa sucessão rítmica vertiginosa que muitas vezes faz com que o leitor se veja obrigado a voltar ao início do diálogo para entender novamente os porquês das respostas Llull com certeza ambientou os personagens e os diálogos na vida cotidiana que presenciou, em Maiorca, Aragão, França, África ou Avignon. O objetivo era torná-los reais apesar de não serem reais. Somente essa familiaridade com as cenas e os diálogos (entre reis, príncipes, nobres, burgueses, ferreiros, sapateiros, eremitas, judeus, muçulmanos, camponeses, clérigos) faz com que o leitor/ouvinte sinta-se em seu mundo o de Llull e o seu próprio. Caso contrário, seria necessário um esforço de abstração que, de certa forma, anularia a circularidade criada entre leitor e escritor, em que pese as dezenas de passagens filosóficas e metafísicas onde o autor tenta ambientar sua Arte no mundo real e palpável do leitor.
Na verdade, o Livro das Maravilhas é um grande espetáculo, onde o mundo medieval e especialmente os diálogos medievais são postos em cena talvez nunca o conceito de teatrocracia de Balandier, a idéia de que o grande ator político, reconhecido pela sua força dramática e que comanda o real através imaginário, produzindo um espetáculo político, esteja tão bem encaixado num documento (BALANDIER, 1982). O protagonista Félix é, sobretudo, um anfitrião que recebe em seu caminho todo o espectro social do século XIII. E o mais importante: essa enciclopédia do conhecimento em forma de literatura fantástica que é o Livro das Maravilhas tem como epicentro o homem quase 60% da obra é reservada à Humanidade, pois para Llull e para todos os homens do século XIII somos o ápice da criação divina.
Isso desfaz em grande parte o mito que a Idade Média não pensou o homem. A idéia luliana de natureza humana como o ponto de encontro entre a primeira causa (...amá-Lo, honrá-Lo, servi-Lo e conhecer a Vossa bondade e a Vossa nobreza... [RAMON LLULL, ORL, vol. I, 1906, cap. 45, 2, p. 227. Traduzido e disponível na INTERNET: http://www.ricardocosta.com/intencao.htm) e sua operação determina qual a definição do homem e sua relação com Deus e o mundo: em relação à criação, o homem é o centro, em relação ao criador e ao mundo, o homem é criativo enquanto produz coisas (ferramentas e obras de arte) (DOMÍNGUEZ REBOIRAS, 1997: 288).

