| A Novela na Idade Média |
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Por outro lado, sua visão social centrada na corte real da forma como está exposta nesse bestiário mudou substancialmente cinco anos depois, como podemos perceber no texto da Árvore Imperial (1295-1296) (traduzida e publicada na INTERNET em http://www.ricardocosta.com/imperial.htm). Parece que Llull optou por ressaltar as ordens sociais ao lado do príncipe que estavam ascendendo socialmente.
Por um lado, através do florescimento das cidades (por exemplo, os burgueses. Ver LOPEZ, 1965: 263). Por outro, na formação de um grupo de letrados, os intelectuais - que, por sua vez, deram origem mais tarde à burocracia nos nascentes estados nacionais (SANTAMARÍA, 1989: 134), como, por exemplo juízes, inquiridores e advogados - o conceito de burocracia foi maravilhosamente estudado por Max Weber, e sua definição (sistema impessoal com uma separação entre a esfera pública e privada, administrado por funcionários exclusivos e especialmente treinados para o cargo, nomeados por processos formais, tais como exames, organizados de uma forma hierárquica, usando registros escritos e funcionando com áreas fixas de jurisdição) mostra que o caso medieval não se encaixa nele (WEBER, 1968; BURKE, 1980: 66).
Assim, no período medieval aqui tratado, meados do século XIII, este sistema burocrático weberiano e o conceito de Estado ainda estavam sendo formados. Por exemplo, dos itens que definem o conceito para Weber, a questão da admissão do burocrata através de exames formais ainda não estava fixada no ocidente medieval europeu (SKINNER, 1996: 25-87). Um outro ponto que diferenciava a idéia do ofício público da modernidade no século XIII era sua estreita ligação com a idéia de fidelidade pessoal: o ofício era uma prova de confiança do soberano, pois o exercício do ofício público nobilitava (HESPANHA, 1982: 386).
A confirmação que o Livro das Bestas é um manual político destinado à educação régia está em seu epílogo: Está terminado o Livro das Bestas, no qual Félix deu a um rei para que visse a maneira segundo a qual fazem as bestas, e entenda o significado de como o rei deve reinar e deixar-se guardar de malvado conselho e de falsos homens. (RAMON LLULL. OS, vol. II, p. 162).
Pelo local e data de sua composição, existe uma unanimidade entre os especialistas: o Livro das Bestas é dedicado ao rei Filipe IV da França. Na época, o rei deveria ter uns vinte anos e Ramon provavelmente se sentia com liberdade para dar conselhos principalmente pelo fato de Filipe ser sobrinho de Jaime II de Maiorca, protetor de Ramon.
No entanto, no caso do mau conselheiro não se encontrou ainda um personagem histórico que correspondesse à Renart, pois todos os maus conselheiros de Filipe, o Belo (especialmente Guilherme de Nogaret c. 1265-1313) só adquiririam fama dez anos mais tarde (BONNER, 1989, vol. II: 14), embora Pierre Dubois (c.1250-c.1320) já tivesse afirmado que Filipe era mal aconselhado (DUBY, 1992: 253). Cabe aqui um pequeno parênteses para Guilherme de Nogaret e Pierre Dubois, pois são uma espécie de paradigma desse homem-novo dos quatrocentos que Llull tanto se opunha. Pierre Dubois foi jurista e escritor político. Por volta de 1300, tornou-se advogado do rei em Coutances. Sua obra mais famosa foi De Recuperatione Terrae Sanctae (1306). Como todo bom jurista a serviço da coroa francesa, defendia que esta deveria aumentar seus poderes administrativos e assumir a liderança da Europa, tudo em nome da paz (KANTOROWICZ, 1998: 163-64). Já Guilherme de Nogaret era de origem plebéia, tendo sido professor de direito em Montpellier. Nomeado juiz-maior de Beaucaire e Nîmes em 1299, foi chamado para o conselho real por Filipe, o Belo e nomeado cavaleiro. Em 1303, participou da prisão do papa Bonifácio VIII (o chamado Atentado de Anagni), e dos templários na França (PERNOUD, s/d: 129). Nogaret é sempre lembrado pelos historiadores por sua crueldade, desumanidade e cega devoção à monarquia francesa (HOLTZMANN, 1898; DEMURGER, 1986: 286). Georges Duby é um dos poucos historiadores que possui uma opinião mais neutra em relação a Nogaret e a Filipe, o Belo (DUBY, 1992: 249-255).
Assim, no Livro das Bestas, o rei ocupa na terra o lugar de Deus, e seu primeiro dever é para com a paz e a justiça (RAMON LLULL. OS, vol. II, p. 146-147) e, sobretudo, por esse motivo, o rei é imagem de Deus na terra. No entanto, o príncipe luliano está sujeito a maus conselheiros, fruto da corrupção humana. Mais tarde, na Árvore Imperial, Ramon estenderá esta visão de homem corrompido (que no Livro das Bestas enfatiza a figura do mau conselheiro) ao próprio rei: ele deverá ter um confessor que será sua própria consciência, para que o reino seja resguardado de atitudes erradas por parte de seu príncipe.

