| A Novela na Idade Média |
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Assim, apesar de conseguir eliminar uma série de rivais (até mesmo o Boi) com sua perfídia além de aterrorizar outros tantos quando está a ponto de conseguir seu objetivo e atentar contra a vida do rei Leão, o Elefante e o Javali fazem com que o espírito de fidelidade medieval triunfe, e a Raposa Renart sucumbe pelas mãos do próprio rei Leão, que no fim dá um urro, metáfora da libertação de sua má influência:
Como Na Renart houvesse falado, o rei lançou um olhar muito horrível ao Coelho e ao Pavão, e deu um urro muito grande, para que a natureza de sua alta soberania tivesse maior virtude na consciência do Coelho e do Pavão que a natureza da qual o Coelho e o Pavão tinham pavor de Na Renart. Como o Leão houvesse gritado com grande brado, ele ordenou furiosamente ao Coelho e ao Pavão que lhe dissessem a verdade, e o Coelho e o Pavão não puderam conter-se, e disseram a verdade ao rei. E então o rei pessoalmente matou Na Renart. (RAMON LLULL. OS, vol. II, 1989, p. 161-162).
Logo no início do Livro das Bestas Llull trata da eleição do rei (Em uma bela planície, por onde passava uma bela água, estavam muitas bestas que desejavam eleger um rei...). Sua teoria de pacto social se baseava no critério de elegibilidade do rei entre seus pares. Ramon em parte no modelo imperial, em parte no modelo monástico para construir sua assembléia utópica de bestas que elegem o rei.
Existem várias influências muçulmanas na obra que já foram mapeadas pelos especialistas. Com exceção do nome e caráter do protagonista (Na Renart) retirado do Roman de Renart francês (século XII), uma das três obras mais lidas nos séculos XIII e XIV, além da Bíblia, é claro (as outras duas eram o Roman de la rose e a Legenda aurea. Ver COHEN, 1997: 94-96) todo o conteúdo da obra é de origem oriental. É uma das poucas vezes que Ramon Llull utilizou quase que explicitamente um material literário preexistente (BONNER, 1989, vol. II: 13).
E curiosamente, Ramon coloca Renart no feminino (Na Renart), ao contrário do Roman de Renart francês, onde a raposa é um protagonista masculino, o que dá ao personagem um cunho todo pessoal, além, é claro, de associar o feminino ao demoníaco e subversivo (devemos ter em conta que a palavra Roman não pode ser traduzida por Romance e sim por Conto. Não eram romans porque fossem românticos; é provável que o sentimento tenha passado a ser assim chamado exatamente por constar do Roman. Assim, a tradução mais apropriada seria Conto da Raposa). Em contrapartida, a maior parte dos adjetivos que dizem respeito à Na Renart estão no masculino, o que causa uma grande estranheza ao leitor.
No caso do Roman de Renart, Ramon pode ter conhecido esta obra através da cultura jogralesa. Das influências arábicas, a principal delas é o conto Kalila e Dimna, uma versão arábica que chegou à Europa medieval do Panxatandra (Cinco casos de sabedoria) indiano. O tradutor do original persa para o árabe foi o persa Ibn al-Mukafa (724-759) (IBN AL-MUKAFA, s/d).
Ramon pode ter conhecido duas versões desta história - outra referência muçulmana encontrada é a obra Rasail (Epístolas), dos Irmãos da Pureza Muçulmana, uma obra enciclopédica que possuía um apêndice sobre uma disputa entre o homem e os animais (DAGENAIS, op. cit.: 131-139). Em 1251, Kalila e Dimna foi traduzido para o castelhano por ordem do então infante Afonso, futuro Afonso X de Castela. Esta tradução foi presenteada à rainha Joana de França, esposa de Filipe, o Belo (que por sua vez encarregou Ramon de Bèziers de traduzi-la para o latim). A seguir, João de Cápua traduziu o Kalila e Dimna do hebraico para o latim entre 1263 e 1278, dando-lhe o título de Directorium humanae vitae. Muito provavelmente, Ramon Llull teve contato com uma destas versões, possivelmente a latina de João de Cápua (RUBIÓ I BALAGUER, op. cit.: 320).
No entanto, embora tenha se baseado em material já existente, Llull o converteu em motivo para doutrinar moralmente o ambiente político monárquico de seu tempo, para servir de instrução aos reis. Vários exempla do bestiário medieval de Kalila e Dimna reaparecem narrativamente no Livro das Bestas: o leão e a lebre, o papagaio, o símio e o vaga-lume.
Os exemplos originais de Ramon são: a eleição do rei e do bispo, o ermitão e o rei, o mau bispo, o burguês rico, e vários outros como se vê, exemplos morais da corrupção dos costumes sociais. Mas mesmo os contos orientais recontados no Livro das Bestas possuem uma modulação nos diálogos inexistente no conto oriental, muito mais seco e esquemático (RUBIÓ I BALAGUER, op. cit.: 321). Todos os exemplos narrados no Livro das Bestas possuem o mesmo sentido moralizante: que a perversidade da raposa (o homem que se corrompe com a proximidade do poder) sirva de exemplo para que os reis estejam alertas contra seus conselheiros. Esta é a moral da história: o rei deve se guardar dos maus conselheiros.

