| A Novela na Idade Média |
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Em tristeza e em languidez estava um homem em terra estranha. Fortemente se maravilhava ao ver como as gentes deste mundo conheciam e amavam tão pouco a Deus, que criou este mundo e com grande nobreza e bondade o deu aos homens a fim de que por eles fosse muito amado e conhecido. Este homem chorava e se lamentava por Deus ter neste mundo tão poucos que O amem, O sirvam e O louvem. E para que fosse conhecido, amado e servido faz este Livro das Maravilhas... (RAMON LLULL. Fèlix o el Libre de meravelles. In: OS, vol. II, p. 19)
Numa sensibilidade tipicamente franciscana, o homem (Ramon) pede então ao filho, de nome Félix considerado por alguns como uma extensão metafórica e literária do próprio Llull (BATLLORI, 1957: 312) que vá correr o mundo para descobrir (se maravilhar) o porque os homens cessaram de amar e conhecer a Deus:
Amável filho, quase mortas estão a sabedoria, a caridade e a devoção, e poucos são os homens que se encontram na finalidade para a qual Nosso Senhor Deus os criou (...) Vá pelo mundo e maravilhe-se dos homens que cessam de amar e conhecer Deus (...) Félix foi, obediente a seu pai (...) E com a doutrina que seu pai lhe transmitiu andou pelos bosques, montes e planícies, pelos lugares ermos e povoados, encontrou príncipes e cavaleiros pelos castelos e cidades, e se maravilhava das maravilhas que existem no mundo. Perguntava o que não entendia, explicava o que sabia e metia-se em trabalhos e perigos a fim de que a Deus fossem feitas reverência e honra. (RAMON LLULL. Fèlix o el Libre de meravelles. In: OS, vol. II, p. 20)
Assim, Félix sai pelo mundo como um errante, questionando o porquê das coisas, como um herói cristão, cheio de estoicismo religioso e uma simplicidade frugal. Esse protagonista da novela - que Llull criou com base em lendas célticas e bretãs trazidas para a Catalunha por trovadores provençais - flui agradável e singelamente por entre o misticismo e o realismo, uma característica das criações literárias espanholas (ALFONSO, 1968: 77-81).
Félix é uma novela de crítica social. De intenção reformista, didática e moral, não possui diretamente os objetivos de conversão tão próprios do pensamento luliano, pois foi escrita para o próprio mundo cristão. E exatamente por apontar criticamente para as instituições existentes e para os ofícios daqueles que possuíam as rédeas do poder (príncipes, prelados e ricos burgueses), já foi dito que a obra possui um ar áspero e contracultural (BONNER, 1989, vol. II: 10).
O conteúdo de Félix é enciclopédico, e inclui todo o universo medieval. Os temas de seus dez livros o indicam:
1. Deus, 2. Anjos, 3. Céu, 4. Elementos, 5. Plantas, 6. Metais, 7. Bestas, 8. Homem (capítulo que ocupa quase 60% de toda a novela), 9. Paraíso e 10. Inferno.
A seqüência da viagem de Félix pelo mundo é intencional: é um caminho cosmogônico, pois ilustra a ordem da criação, onde o próprio mundo e todas coisas existentes são entendidas como uma expressão viva da obra de Deus (GALERA: http://terravista.pt/Guincho/7933/bgalera.htm#_ftnref14.).
O objetivo da redação do Livro das Maravilhas é bastante claro: que Deus seja conhecido pelas pessoas, que seja amado e servido. Assim, Ramon quer que os homens de seu tempo, ao lerem Félix, tenham a sua alma salva (BONNER, 1989, vol. II: 12). Deve-se ainda ter em mente que o ato de maravilhar-se, conceito que percorre todo o Livro, é a forma luliana de contemplação do mundo, ao lado da meditação solitária tipicamente medieval, uma evasão metafísica e transcendental do mundo real (BATLLORI, 1957, vol. I: 311).
O maravilhoso em Ramon Llull é, sobretudo, a pura admiração, um ato de experimentar sentimentos de admiração, um prolongamento do thaumázein platônico - em Platão, o homem se alegra por conhecer as coisas por reflexo da divindade; no caso de Llull, se maravilha (COLOMER, 1975: 28. Em português, a palavra maravilha possui ambos os sentidos: é um ato ou fato admirável e assombroso - a maravilha da natureza - e também pode ser entendido como um milagre, uma coisa prodigiosa que causa encanto e fascinação. Maravilha em português é também uma coisa bela, o que indica uma reminiscência do pensamento medieval que associava a verdade com a beleza e a bondade [Unum, Verum, Bonum], tudo retroagindo ao uno, isto é, a Deus).
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Antes de prosseguir na obra como um todo, gostaria
de abrir um pequeno parêntese para o capítulo
7 (Das Bestas) do Livro das Maravilhas. Explica-se:
ele é como um corpo estranho na obra. Até
a datação desse opúsculo é
motivo de discussão entre os especialistas:
cogita-se que tenha sido escrito antes do Félix
(ou seja, antes de março de 1286) e incluída
posteriormente (BATLLORI, 1957, vol. I: 314; para
a refutação, ver DAGENAIS, 1979: 131-139).
Depois de haver tratado das plantas (Livro 5) e dos
metais (Livro 6), Ramon passa a falar dos animais
(as bestas). Mas ao invés de prosseguir na
forma expositiva anterior ou melhor, exemplarista,
já que a narrativa baseia-se em pequenos exemplos
alegóricos (exempla) e encadeados sucessivamente,
que servem como forma literária para o pensamento
analógico do autor , Llull inova na forma
de exposição e tira Félix de
seu papel de protagonista - do viajante que
se maravilha - para colocá-lo ao lado
do leitor, na qualidade de observador da história
e mesmo de aprendiz - voltarei adiante ao tema dos
exempla medievais (BONNER I BADIA, s/d: 179).

