A Novela na Idade Média
 

Estas passagens explicam muito a respeito da proposta de reforma social luliana - reforma que alicerça todo o Livro das Maravilhas. Para Llull, o mundo só poderia ser reformado se, por um lado (o da cristandade), os fiéis fossem educados na religião (a começar pelos príncipes) e, por outro, os infiéis fossem convertidos, através do diálogo, pela razão. Assim, seus projetos de reforma social possuíam um forte alicerce espiritual (BONNER, 1989, vol. II: 09):

Assim, o Livro das Maravilhas se insere num novo contexto político e numa nova fase da vida de Ramon Llull: a corte parisiense de Filipe, o Belo e a própria Universidade de Paris, onde o autor leu sua Arte pela primeira vez para um público “internacional” de estudantes e doutores de diversas nações (HILLGARTH, 1971: 46). Contudo, por problemas de comunicação em sua exposição (“sua maneira arábica de falar”) esta tentativa de divulgar sua Arte em Paris foi um fracasso, à semelhança de sua estada em Roma pouco antes (Vida Coetânia, 18, 19).

O Livro das Maravilhas é uma das obras mais conhecidas de Ramon Llull. Seu Prólogo, como o da Árvore da Ciência (1295-1296), é autobiográfico, num tom lamurioso, e explica as circunstâncias da redação da obra — uma das características literárias do pensamento luliano (BATLLORI, 1957: 313). Ramon, numa estranha terra (que todos os especialistas estão de acordo tratar-se de Paris), chora e se lamenta que tão poucos adorem a Deus:

Em tristeza e em languidez estava um homem em terra estranha. Fortemente se maravilhava ao ver como as gentes deste mundo conheciam e amavam tão pouco a Deus, que criou este mundo e com grande nobreza e bondade o deu aos homens a fim de que por eles fosse muito amado e conhecido. Este homem chorava e se lamentava por Deus ter neste mundo tão poucos que O amem, O sirvam e O louvem. E para que fosse conhecido, amado e servido faz este Livro das Maravilhas... (RAMON LLULL. “Fèlix o el Libre de meravelles”. In: OS, vol. II, p. 19)

Numa sensibilidade tipicamente franciscana, o homem (Ramon) pede então ao filho, de nome Félix — considerado por alguns como uma extensão metafórica e literária do próprio Llull (BATLLORI, 1957: 312) — que vá correr o mundo para descobrir (“se maravilhar”) o porque os homens cessaram de amar e conhecer a Deus:

Amável filho, quase mortas estão a sabedoria, a caridade e a devoção, e poucos são os homens que se encontram na finalidade para a qual Nosso Senhor Deus os criou (...) Vá pelo mundo e maravilhe-se dos homens que cessam de amar e conhecer Deus (...) Félix foi, obediente a seu pai (...) E com a doutrina que seu pai lhe transmitiu andou pelos bosques, montes e planícies, pelos lugares ermos e povoados, encontrou príncipes e cavaleiros pelos castelos e cidades, e se maravilhava das maravilhas que existem no mundo. Perguntava o que não entendia, explicava o que sabia e metia-se em trabalhos e perigos a fim de que a Deus fossem feitas reverência e honra. (RAMON LLULL. “Fèlix o el Libre de meravelles”. In: OS, vol. II, p. 20)

Assim, Félix sai pelo mundo como um errante, questionando o porquê das coisas, como um herói cristão, cheio de estoicismo religioso e uma simplicidade frugal. Esse protagonista da novela - que Llull criou com base em lendas célticas e bretãs trazidas para a Catalunha por trovadores provençais - flui agradável e singelamente por entre o misticismo e o realismo, uma característica das criações literárias espanholas (ALFONSO, 1968: 77-81).

Félix é uma novela de crítica social. De intenção reformista, didática e moral, não possui diretamente os objetivos de conversão tão próprios do pensamento luliano, pois foi escrita para o próprio mundo cristão. E exatamente por apontar criticamente para as instituições existentes e para os ofícios daqueles que possuíam as “rédeas do poder” (príncipes, prelados e ricos burgueses), já foi dito que a obra possui um “ar áspero e contracultural” (BONNER, 1989, vol. II: 10).

O conteúdo de Félix é enciclopédico, e inclui todo o universo medieval. Os temas de seus dez livros o indicam:

1. Deus, 2. Anjos, 3. Céu, 4. Elementos, 5. Plantas, 6. Metais, 7. Bestas, 8. Homem (capítulo que ocupa quase 60% de toda a novela), 9. Paraíso e 10. Inferno.

A seqüência da viagem de Félix pelo mundo é intencional: é um caminho cosmogônico, pois ilustra a ordem da criação, onde o próprio mundo e todas coisas existentes são entendidas como uma expressão viva da obra de Deus (GALERA: http://terravista.pt/Guincho/7933/bgalera.htm#_ftnref14.).

O objetivo da redação do Livro das Maravilhas é bastante claro: que Deus seja conhecido pelas pessoas, que seja amado e servido. Assim, Ramon quer que os homens de seu tempo, ao lerem Félix, tenham a sua alma salva (BONNER, 1989, vol. II: 12). Deve-se ainda ter em mente que o ato de maravilhar-se, conceito que percorre todo o Livro, é a forma luliana de contemplação do mundo, ao lado da meditação solitária tipicamente medieval, uma “evasão metafísica e transcendental do mundo real” (BATLLORI, 1957, vol. I: 311).

O maravilhoso em Ramon Llull é, sobretudo, a pura admiração, um ato de experimentar sentimentos de admiração, um prolongamento do thaumázein platônico - em Platão, o homem se alegra por conhecer as coisas por reflexo da divindade; no caso de Llull, se “maravilha” (COLOMER, 1975: 28. Em português, a palavra maravilha possui ambos os sentidos: é um ato ou fato admirável e assombroso - a maravilha da natureza - e também pode ser entendido como um milagre, uma coisa prodigiosa que causa encanto e fascinação. Maravilha em português é também uma coisa bela, o que indica uma reminiscência do pensamento medieval que associava a verdade com a beleza e a bondade [Unum, Verum, Bonum], tudo retroagindo ao uno, isto é, a Deus).

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Antes de prosseguir na obra como um todo, gostaria de abrir um pequeno parêntese para o capítulo 7 (Das Bestas) do Livro das Maravilhas. Explica-se: ele é como um corpo estranho na obra. Até a datação desse opúsculo é motivo de discussão entre os especialistas: cogita-se que tenha sido escrito antes do Félix (ou seja, antes de março de 1286) e incluída posteriormente (BATLLORI, 1957, vol. I: 314; para a refutação, ver DAGENAIS, 1979: 131-139).
Depois de haver tratado das plantas (Livro 5) e dos metais (Livro 6), Ramon passa a falar dos animais (as bestas). Mas ao invés de prosseguir na forma expositiva anterior — ou melhor, exemplarista, já que a narrativa baseia-se em pequenos exemplos alegóricos (exempla) e encadeados sucessivamente, que servem como forma literária para o pensamento analógico do autor —, Llull inova na forma de exposição e tira Félix de seu papel de protagonista - do “viajante que se maravilha” - para colocá-lo ao lado do leitor, na qualidade de observador da história e mesmo de aprendiz - voltarei adiante ao tema dos exempla medievais (BONNER I BADIA, s/d: 179).

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