O Livro das Maravilhas (1288-1289) de
Ramon Llull
Ricardo
da Costa (UFES)
Félix
ou O Livro das Maravilhas é uma
das primeiras novelas de cunho filosófico-social
escritas na Europa medieval (CARRERAS
Y ARTAU, 1939, vol. I: 630). Novela,
em catalão medieval, uma boa
nova, uma novidade (novell, novella)
(GGL, vol. III, 1984: 436). A obra foi
escrita por Ramon Llull (1232-1316)
em Paris em 1288-1289, durante sua primeira
visita àquela cidade. Llull tinha
então cerca de 56 anos: já
era um homem velho para os padrões
medievais. Sua visão sobre a
sociedade cristã, sobre a monarquia
e sobre os poderes constituídos
já estava solidamente consolidada.
Um
homem velho para o seu tempo sim, mas
cheio de idéias novas, desejando
conhecer e, sobretudo, reformar o mundo.
Assim, é pouco provável
que a corte de Filipe IV, o Belo (1268-1314),
tenha alterado substancialmente sua
visão política forjada
em seus anos de formação
em Maiorca e Aragão.
A redação do Livro das
Maravilhas se insere num momento muito
especial da vida de Ramon: em 1287 ele
entrou na cena política européia
(HILLGARTH, 1971: 47), quando visitou
inutilmente a cúria romana
o papa Honório IV (1285-1287)
acabara de falecer e também
a corte de Filipe, o Belo, saindo de
seu mundo mediterrâneo de Maiorca
e adjacências. Até então,
Llull tinha ido somente a Montpellier
(1274-1275), para atender a um chamado
de Jaime II de Maiorca para que seus
livros fossem analisados - e aprovados
- por um frei menor mestre em teologia.
Além disso, pela primeira vez
Llull leu sua Arte na Universidade de
Paris, e tentou uma aproximação
com Filipe, o Belo - sinteticamente,
defino a Arte luliana como um sistema
de pensamento aplicável a qualquer
tema ou problema específico,
uma tentativa de unificar todo o pensamento
da cultura medieval e um instrumento
para investigar a verdade das criaturas
tendo como pressuposto apriorístico
a verdade de Deus, Arte assim criada
com o principal objetivo de converter
os infiéis. Ela era mais que
uma doutrina: era uma técnica,
um sistema, um modo de exposição
técnico de uma ciência.
Possuía cinco usos, segundo seu
próprio criador:
1)
Conhecer e amar a Deus amar a
Deus era um preceito cristão
(Mc 12: 30 e Lc 10: 27), mas amar e
conhecer a Deus era uma característica
da teologia muçulmana, o que
indica uma influência islâmica
no pensamento de Ramon;
2)
Unir-se às virtudes e odiar os
vícios, um processo que, segundo
Llull, refrearia as paixões com
a virtude da temperança;
3)
Confrontar as opiniões errôneas
dos infiéis por meio das razões
convincentes, ou necessárias;
4)
Formular e resolver questões
e
5)
Poder adquirir outras ciências
em um breve espaço de tempo e
tirar as conclusões necessárias
segundo as exigências da matéria.
Isto fazia da Arte luliana uma ciência
das ciências, proporcionando o
critério para um ordenamento
preciso e racional de todo o conhecimento
(COSTA, 2000).
Provavelmente Llull tinha o objetivo
de convencer o rei da França
a fundar escolas em seu reino que ensinassem
línguas orientais a missionários
à semelhança do colégio
de Miramar em Maiorca, como havia tentado
na cúria romana um ano antes.
Uma passagem da Vida Coetânia
(1311), autobiografia ditada a um amigo
da cartuxa de Vauvert, em Paris, afirma
esta intenção:
Depois
disso, Ramon foi à corte de Roma
para ver se poderia conseguir do senhor
papa e dos cardeais que fossem construídos
pelo mundo monastérios similares
(a Miramar) para o ensino de diversas
línguas. Contudo, quando chegou
à corte soube que o papa, o senhor
Honório, acabara de morrer. Por
isso, deixou a corte e dirigiu seus
passos a Paris a fim de comunicar ao
mundo a Arte que Deus havia-lhe dado
(Vida Coetânia, 18, traduzida
e disponível na INTERNET em http://www.ricardocosta.com/vita.htm)
Isto também está claro
em três cartas de Llull a Filipe,
o Belo, à Universidade de Paris
e a um prelado desconhecido, datadas
de 1287-1289 (HILLGARTH, 1971: 50),
em que sua petição
escrita num latim elegante (o que indica
que provavelmente solicitou os préstimos
de um latinista parisiense) corresponde
à seguinte passagem autobiográfica
no Livro das Maravilhas:
Filho
disse o ermitão
um homem que durante um longo tempo
havia trabalhado para a utilidade da
Igreja Romana veio a Paris e disse ao
rei da França e à Universidade
de Paris que fossem feitos monastérios
onde fossem ensinadas as línguas
daqueles que são infiéis,
e que se traduzissem a essas línguas
a Arte Demonstrativa e que com aquela
Arte Demonstrativa fosse aos tártaros
e que lhes predicasse e lhes ensinasse
a Arte; e que se levassem alguns deles
a Paris e lhes ensinasse a nossa língua
e a nossa escrita antes que retornassem
à sua terra. Todas estas coisas
e muitas outras solicitou este homem
ao rei e à Universidade de Paris,
e que fosse confirmada pelo santo apóstolo
e fosse uma obra perdurável.
Dessa maneira, filho, poderia crescer
a fé romana, porque converteríamos
os tártaros e aqueles da Licônia
e outros gentios, e aqueles destruiriam
os sarracenos, e assim, pela via do
martírio e pela grandeza da caridade,
todo o mundo poderia ser entregue à
cristandade (RAMON LLULL. Fèlix
o el Libre de meravelles. In:
OS, vol. II, p. 291).
Ramon menciona os tártaros
mongóis porque neste período,
com o fim das cruzadas na Palestina
em 1291, existia uma intensa atividade
diplomática entre os reinos europeus
e o grande Khã mongol da Pérsia
(também em domínio dos
tártaros), que possuía
então uma simpatia pelo cristianismo
(VILLOSLADA, 1963: 547-552; CAHEN, 1989:
301-315). Esta possível aliança
mongol com os reinos cristãos
tinha o objetivo político de
expulsar os mamelucos egípcios
da Síria e da Palestina. Toda
esta atividade diplomática suscitava
o interesse de Ramon Llull pelo fato
de sua proposta de conversão
dos infiéis poder ser aí
inserida.