| A Novela na Idade Média |
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Além disso, pela primeira vez Llull leu sua Arte na Universidade de Paris, e tentou uma aproximação com Filipe, o Belo - sinteticamente, defino a Arte luliana como um sistema de pensamento aplicável a qualquer tema ou problema específico, uma tentativa de unificar todo o pensamento da cultura medieval e um instrumento para investigar a verdade das criaturas tendo como pressuposto apriorístico a verdade de Deus, Arte assim criada com o principal objetivo de converter os infiéis. Ela era mais que uma doutrina: era uma técnica, um sistema, um modo de exposição técnico de uma ciência. Possuía cinco usos, segundo seu próprio criador:
1) Conhecer e amar a Deus amar a Deus era um preceito cristão (Mc 12: 30 e Lc 10: 27), mas amar e conhecer a Deus era uma característica da teologia muçulmana, o que indica uma influência islâmica no pensamento de Ramon;
2) Unir-se às virtudes e odiar os vícios, um processo que, segundo Llull, refrearia as paixões com a virtude da temperança;
3) Confrontar as opiniões errôneas dos infiéis por meio das razões convincentes, ou necessárias;
4) Formular e resolver questões e
5) Poder adquirir outras ciências em um breve espaço de tempo e tirar as conclusões necessárias segundo as exigências da matéria. Isto fazia da Arte luliana uma ciência das ciências, proporcionando o critério para um ordenamento preciso e racional de todo o conhecimento (COSTA, 2000).
Provavelmente Llull tinha o objetivo de convencer o rei da França a fundar escolas em seu reino que ensinassem línguas orientais a missionários à semelhança do colégio de Miramar em Maiorca, como havia tentado na cúria romana um ano antes. Uma passagem da Vida Coetânia (1311), autobiografia ditada a um amigo da cartuxa de Vauvert, em Paris, afirma esta intenção:
Depois disso, Ramon foi à corte de Roma para ver se poderia conseguir do senhor papa e dos cardeais que fossem construídos pelo mundo monastérios similares (a Miramar) para o ensino de diversas línguas. Contudo, quando chegou à corte soube que o papa, o senhor Honório, acabara de morrer. Por isso, deixou a corte e dirigiu seus passos a Paris a fim de comunicar ao mundo a Arte que Deus havia-lhe dado (Vida Coetânia, 18, traduzida e disponível na INTERNET em http://www.ricardocosta.com/vita.htm)
Isto também está claro em três cartas de Llull a Filipe, o Belo, à Universidade de Paris e a um prelado desconhecido, datadas de 1287-1289 (HILLGARTH, 1971: 50), em que sua petição escrita num latim elegante (o que indica que provavelmente solicitou os préstimos de um latinista parisiense) corresponde à seguinte passagem autobiográfica no Livro das Maravilhas:
Filho disse o ermitão um homem que durante um longo tempo havia trabalhado para a utilidade da Igreja Romana veio a Paris e disse ao rei da França e à Universidade de Paris que fossem feitos monastérios onde fossem ensinadas as línguas daqueles que são infiéis, e que se traduzissem a essas línguas a Arte Demonstrativa e que com aquela Arte Demonstrativa fosse aos tártaros e que lhes predicasse e lhes ensinasse a Arte; e que se levassem alguns deles a Paris e lhes ensinasse a nossa língua e a nossa escrita antes que retornassem à sua terra. Todas estas coisas e muitas outras solicitou este homem ao rei e à Universidade de Paris, e que fosse confirmada pelo santo apóstolo e fosse uma obra perdurável. Dessa maneira, filho, poderia crescer a fé romana, porque converteríamos os tártaros e aqueles da Licônia e outros gentios, e aqueles destruiriam os sarracenos, e assim, pela via do martírio e pela grandeza da caridade, todo o mundo poderia ser entregue à cristandade (RAMON LLULL. Fèlix o el Libre de meravelles. In: OS, vol. II, p. 291).
Ramon menciona os tártaros mongóis porque neste período, com o fim das cruzadas na Palestina em 1291, existia uma intensa atividade diplomática entre os reinos europeus e o grande Khã mongol da Pérsia (também em domínio dos tártaros), que possuía então uma simpatia pelo cristianismo (VILLOSLADA, 1963: 547-552; CAHEN, 1989: 301-315). Esta possível aliança mongol com os reinos cristãos tinha o objetivo político de expulsar os mamelucos egípcios da Síria e da Palestina. Toda esta atividade diplomática suscitava o interesse de Ramon Llull pelo fato de sua proposta de conversão dos infiéis poder ser aí inserida.
Félix
ou O Livro das Maravilhas é uma das
primeiras novelas de cunho filosófico-social
escritas na Europa medieval (CARRERAS Y ARTAU,
1939, vol. I: 630). Novela, em catalão
medieval, uma boa nova, uma novidade (novell,
novella) (GGL, vol. III, 1984: 436). A obra
foi escrita por Ramon Llull (1232-1316) em
Paris em 1288-1289, durante sua primeira visita
àquela cidade. Llull tinha então
cerca de 56 anos: já era um homem velho
para os padrões medievais. Sua visão
sobre a sociedade cristã, sobre a monarquia
e sobre os poderes constituídos já
estava solidamente consolidada. 
