Departamento
de Geografia - Universidade
Estadual de Maringá
ISSN
1415-0646
TRIMESTRAL
- VOL.1 Nº 2 - OUT/NOV/DEZ
1997
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TÍTULO |
GEOGRAFIA:
DA ANTIGÜIDADE
À PÓS-MODERNIDADE
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AUTOR |
Dr.
ANTONIO CHRISTOFOLETTI
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ATIVIDADE |
UNESP
- Instituto de
Geociências e
Ciências Exatas
Rio Claro |
Todos
os pensadores da Antigüidade
e Idade Média que descreveram
as características de paisagens
e povos situados em lugares
da superfície terrestre
são exemplos de geógrafos.
As preocupações em conhecer
lugares e povos, em realizar
a contagem das coisas, em
relatar as histórias e em
pensar sobre a vida e sobre
o mundo são atividades existentes
em todas as civilizações.
Por essa razão, fazem com
que as disciplinas Geografia,
História, Matemática e Filosofia,
por exemplo, lancem suas
raízes históricas até a
Antigüidade. Entretanto,
todas as informações obtidas
nessas épocas pertenciam
ao conhecimento filosófico,
ao conhecimento religioso
e ao conhecimento do senso-comum.
A
partir do século XVIII,
com a Idade das Luzes, e
no transcurso do século
XIX começou a se estruturar
um modo de conhecimento
melhor organizado e sistemático,
que formalizou o conhecimento
científico. Com a atuação
e trabalhos dos naturalistas,
dentre os quais se destaca
a figura de Alexandre von
Humboldt, estabeleceu-se
a concepçào que propiciou
perceber e compreender as
paisagens diferenciadas
dos lugares e dos povos
como fenômenos específicos,
merecedoras de descrição,
análise e explicação.
Incorporando
a tradicional tarefa de
descrever a Terra, a Geografia
surgiu organizada como sendo
uma disciplina científica
no transcorrer da segunda
metade do século XIX. E
na sua tarefa de produção
científica, relacionada
com a corrente do positivismo
e da modernidade, surgiram
estudos procurando estudar
a distribuição espacial
dos fenômenos físicos (relevo,
clima, solos, águas), biológicos
(vegetação e fauna), sociais
(população, cidades, religião,
etc) e econômicos (agricultura,
produção de energia, comércio,
etc) na superfície terrestre.
Entretanto, compreendia-se
claramente que em todo território
ou área esses diversos fenômenos
se entrelaçavam, formando
uma paisagem distinta ou
unidade espacial, denominada
região, possibilitando os
estudos sobre as mais diversas
unidades e diferenciação
areal da superfície terrestre.
A tarefa dos geógrafos expressava-se
em analisar os aspectos
da distribuição espacial
dos fenômenos e as características
específicas dos lugares
e regiões.
O
século XX chegou e esse
procedimento de análise
geográfica permaneceu estável
até a década de cinqüenta.
A turbulência gerada pelo
desenvolvimento das informações,
da prática científica e
transformações tecnológicas
na Segunda Guerra Mundial
começou a provocar mudanças
nas atividades das disciplinas.
No caso da Geografia, ocorreu
a expansão da análise quantificativa,
dos estudos sobre padrões
espaciais e interação espacial
e a absorção da análise
sistêmica. As categorias
de fenômenos componentes
da paisagem começaram a
ser compreendidos como elementos
que se estruturavam em sua
disposição espacial e funcionavam
integradamente pela ação
dos processos e fluxos,
formando uma organização
espacial, cujo conceito
absorvia e ampliava os anteriores
ligados às paisagens e regiões.
Esse procedimento conceitual
e analítico ganhou maior
difusão no setor da Geografia
Física, no estudo dos fenômenos
físicos e na abordagem sobre
os sistemas espaciais físicos,
denominados de geossistemas.
Em virtude dos percalços
na Guerra do Vietname, dos
movimentos populares e dos
movimentos ambientalistas
e ecológicos ocorridos na
década de sessenta, difundiu-se
a conotação da relevância
social e expandiram-se propostas
de análise visando substituir
as normas metodológicas
do neopositivismo, representadas
pelo materialismo dialético,
hermenêutica, fenomenologia
e abordagem humanística.
Tais proposições repercutiram
em muitos estudos sobre
os fenômenos sociais e econômicos,
no campo das questões relacionadas
com a Geografia Humana.
Mas
o evoluir do conhecimento
científico não parou e interagiu
(desencadeando e usufruindo)
com as transformações tecnológicas,
principalmente da informática.
A documentação originada
pelo uso do sensoriamento
remoto e expansão da cartografia
propiciou explosão no fornecimento
informativo sobre as características
observadas em todas as áreas
da superfície terrestre.
A fim de enfrentar esse
desafio, para a manipulação
e análise da grande quantidade
de informações sobre a distribuição
espacial dos fenômenos,
foram desenvolvidos os sistemas
de informação geográfica.
Na
segunda metade dos anos
sessenta os cientistas,
principalmente os meteorólogos
e físicos, começaram a perceber
que os fenômenos apresentavam
um comportamento caótico,
o que levou à formulação
da teoria do caos. Esse
comportamento salientava
que os sistemas possuíam
uma dinâmica não-linear,
pois a categoria dos resultados
gerados pelos processos
eram previsíveis mas os
estados-resposta imediatos
não podiam ser determinados
com certeza, pois tornavam
dependentes de pequenas
diferenças nas condições
iniciais e aos efeitos ocasionados
por pertubações. Simultaneamente,
compreendia-se que os sistemas
evoluíam para estados de
auto-organização, e os seus
limites críticos podiam
ser alterados pela ação
de forças condicionadoras,
promovendo reajustagens
ou mudanças estruturais
no sistema. O conhecimento
científico apresentava nova
dimensão a respeito da estrutura,
funcionamento e dinâmica
dos sistemas e à comprensão
de como o mundo funciona.
Paralelamente,
estabelecia-se melhor a
relação de que a atuação
dos processos acabava gerando
o aparecimento de uma forma,
que expressava a organização
e disposição dos elementos
componentes. Por exemplo,
a ação do vento carregando
as folhas dispersas pelo
chão pode formar montículos.
Esses montículos de folhas
são formas organizadas como
respostas à ação do vento,
mas que aparentemente surgem
como confusas e caóticas.
Elas não podem ser descritas
nas categorias lineares
(uni-direcionais), de áreas
(bi-dimensionais) ou de
volumes (tri-dimensionais)
da geometria euclidiana.
As formas dos montículos
como as da superfície terrestre
são sinuosas (rios, linhas
costeiras), rugosas (topografias),
tortuosas (cidades, bacias
hidrográficas), fragmentadas.
Na década de oitenta surgiu
o desenvolvimento da geometria
fractal da natureza visando
a análise desse amplo campo
de formas geométricas irregulares.
Também
a partir da década de oitenta
os cientistas começaram
a dedicar atenção ao estudo
dos sistemas complexos,
a fim de compreender e analisar
as características da complexidade
inerente às diversas categorias
de sistemas. Compreende-se
facilmente a existência
de sistemas complexos biológicos,
físicos, econômicos, sociais,
etc. que, embora focalizando
categorias difeentes de
fenômenos, possuem muitas
peculiaridades comuns em
sua estruturação e dinâmica.
Entre as categorias de sistemas
complexos também se enquadra
a dos sistemas de organização
espacial.
O
desenvolvimento científico
em torno dos sistemas dinâmicos
não-lineares, do comportamento
caótico, da auto-organização
e da geometria fractal vem
sendo considerado como característica
da ciência na fase da pós-modernidade.
A Geografia, como disciplina
científica, não pode deixar
de acompanhar esse desenvolvimento
e absorvê-lo na potencialidade
de contribuir para a compreensão
e análise da categoria de
fenômenos que representa
o seu objeto de estudo.
Deve-se
salientar que a categoria
de fenômenos que representa
o objeto de estudo da Geografia
expressa a sua linhagem
e continuidade, como disciplina
individualizada, ao longo
da evolução histórica, embora
sempre incorporando as inovações
e as novas abordagens científicas.
Tais incorporações são realizadas
pela e para a Geografia,
a fim de esclarecer e precisar
seus conceitos e ampliar
seu arsenal técnico. Mas
a sua problemática analítica
quanto ao objeto permanece
a mesma, isto é, conhecer
as características da espacialidade
dos fenômenos e das organizações
espaciais na superfície
terrestre, desde o exemplar
único na escala de grandeza
do globo até a enorme quantidade
de lugares na escala de
grandeza local. Pela relevância
de sua temática, o conhecimento
geográfico surge sempre
como de elevado potencial
aplicativo para atender
a demanda e as necessidades
da sociedade, como hodiernamente
ocorre, por exemplo, nas
problemáticas relacionadas
com a análise ambiental
e desenvolvimento sustentável.
Fonte:
Publicado
originalmente no Jornal
Cidade, no dia 0l
de junho de l997, página
l9.
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