Platão
Jogo e Educação na República de Platão

http://www.bu.edu/wcp/Papers/Educ/EducKren.htm

Arthur A. Krenz


Resumo: Este artigo analisa a conexão entre jogo  (paidia) e educação  (paidéia) na República de Platão. Mais exatamente, procura-se mostrar que o diálogo apresenta duas abordagens pedagógicas opostas entre si em relação à educação da liderança política: a primeira, a abordagem de um amante socrático da sabedoria, procura libertar os cidadãos através do jogo filosófico fundado no ideal de excelência (areté), que visa à construção de uma sociedade justa para o bem público; e a segunda, a abordagem dos sofistas tirânicos que educam através da força coercitiva para a obtenção de vantagens particulares e escravização dos cidadãos em benefício dos fins pessoais do governante. A República de Platão pretende mostrar que o “jogo” filosófico é o melhor meio pedagógico para educar uma coletividade justa e preparar os líderes filosóficos para governar.


 
Este artigo traça uma conexão entre jogo (paidia) e educação (paidéia) na República de Platão.(1) Neste diálogo, o jogo é apresentado como o melhor meio pedagógico para a educação de uma coletividade justa e para o cultivo dos líderes que podem se valer de seus conhecimentos e experiências para estabelecer uma cidade justa (pólis). Minha abordagem hermenêutica à República é modelada pelas abordagens mais recentes aos diálogos de Platão, que consideram a forma do diálogo como significativa para o entendimento do conteúdo dos diálogos. Específico à conexão entre jogo e educação na República é o contexto dramático que identifica uma batalha de vida e morte entre a filosofia  (liberdade) e a sofística  (tirania) no que concerne à educação (cultura) e à liderança no estabelecimento da “cidade” justa.

Educação e jogo no contexto do diálogo, os personagens, e a batalha entre o livre jogo da filosofia e o controle tirânico dos sofistas.


  A forma dramática da República, o caráter dos participantes  e o contexto político-social dos eventos em Atenas e na Grécia durante o tempo de Socrátes e Platão, tudo isso tem importantes implicações para a interpretação do significado filosófico do diálogo.(2) Eles ajudam o leitor a entender seu objetivo e propósito central – a construção (linguística) de uma cidade justa (polin...logo, 2.369a; lexeos, 5.473a) e o cultivo de quem governará uma comunidade de modo justo.(3) Este objetivo é  apoiado pela busca filosófica do Bem, a proteção da cidade justa dos perigos que ameaçariam ocasionar seu declínio e sua queda, e os meios educacionais mais prováveis para tornar possível a construção desta cidade justa. A proposta socrática de um processo educacional que visa a criação de uma cidade livre e libertadora é lúdico em seu estilo, mas séria  em sua intenção. Previsivelmente, este caráter lúdico  é apresentado no contexto da luta (agón) e da contestação. Este conflito entre as duas abordagens educacionais – a saber, o aprendizado pela força ou pela coerção (bía) versus o aprendizado pelo livre jogo– manifesta-se no conflito entre força tirânica e persuasão filosófica, entre a sofística  e a filosofia, e entre a vantagem particular e o bem público.
  A importância do jogo (paidiá) na República é refletida na interação dos interlocutores, e é particularmente  predominante no pensamento e na vida de Sócrates e em sua extensa discussão com Trasímaco, um arqui-sofista, e com os dois irmãos de Platão, Adimanto e Glaucon. Sócrates, principal o “jogador/personagem”  do diálogo, na medida em que considera a importância da dialética  na educação dos governantes filósofos, descreve sua discussão com Adimanto e Glaucon sobre a educação dos líderes filósofos e a constituição da “cidade em palavras” como uma “brincadeira” (paidzomen, 7.536b-c).
Os leitores do diálogo são avisados de que o relato falado  e escrito dos procedimentos não é de primeira mão, mas uma “re-apresentação” – uma nova narração de memória – por Sócrates, que “ontem” ficou acordado durante toda a noite conversando no Pireu sobre a desejabilidade de uma vida justa e de uma sociedade justa. Leva-se aproximadamente 10 horas para ler o diálogo em voz alta. Assim, é provável que a conversação real tenha durado pelo menos esse mesmo tempo. Entretanto, mesmo que os leitores concedam a Sócrates uma memória prodigiosa  dos detalhes de uma noite toda de conversação no Pireu, e uma  nova narração acurada da discussão da noite com um ouvinte anônimo no dia seguinte, não é prudente se pensar que Sócrates esteja apresentando uma visão autorizada  e imparcial de quaisquer dos personagens principais, incluindo a de Sócrates ou mesmo a de Platão, seu engenhoso autor. Antes, os discursos dos participantes devem ser lidos com cautela, não se pode assumir que a nova narração de Sócrates da prolongada discussão e que o relato escrito por Platão sejam totalmente imparciais e acurados ou possam ser aceitos indiscriminadamente. Os leitores devem explorar  as questões e os problemas de interpretação por si mesmos.

A República se inicia com o relato de Sócrates de sua viajem para fora de Atenas: “desci ao Pireu ontem com Glaucon", diz ele, "o filho de Aríston, para rezar à deusa; ao mesmo tempo, desejava observar como eles encenavam o festival” (1.327a). A cena dramática do diálogo é acontece por volta de 416 a.C.,  no período da instituição do novo festival em honra da deusa Bendis – deusa da lua (4) e da noite – que estava sendo celebrada nas festividades noturnas no Pireu com um desfile de archotes.(5)  Muito tem sido produzido acerca das características espaço-temporais  desta passagem de abertura e de outros pontos altos no diálogo, tal como  o Mito da Caverna.(6) Ambos envolvem uma descida – a viajem de Sócrates ao mundo noturno “inferior” do porto do Pireu e, no Mito da Caverna,  a descida do filósofo ao mundo cotidiano das sombras dentro da escuridão  da caverna. Também é significativo que estas “descidas” a mundos mais baixos ocorram no escuro da noite no Pireu e na escuridão  desorientadora que permeia a vida diária na caverna.
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