Johann
Friedrich Karl Benz Gauss (1777 -
1855)
O
princípe dos matemáticos
Matemático,
astrônomo e físico alemão
(30/4/1777-23/2/1855), criador da
geometria diferencial.
Nasceu
a: 30 de Abril de 1777, em Brunswich,
na Alemanha
Morreu a: 23 de Fevereiro de 1855,
em Göttingen, na Alemanha
Cientista
alemão , Carl Friedrich Gauss
nasceu em Brunswich, na Alemanha e
morreu em Göttingen, na Alemanha.
Estudou na Universidade de Göttingen
de 1795 a 1798, onde passou a ensinar
Matemática a partir de 1807,
sendo ao mesmo tempo diretor do Observatório
Astronômico pertencente àquela
Instituição. Manteve
ambos os cargos até à
sua morte. Gauss dedicou-se à
matemática, à astronomia,
à geodesia, à física-matemática
e à geometria. O seu nome consta
de numerosos resultados obtidos nos
domínios da astronomia, da
física e da matemática.
Nestas áreas, Gauss demonstrou
a denominada lei fundamental
da álgebra, segundo
a qual uma equação do
segundo grau tem duas soluções,
uma do terceiro tem três e assim
sucessivamente. Para tratar medidas
astronômicas desenvolveu o método
dos mínimos quadrados
. Com este sistema conseguiu calcular
em pouco tempo, e com grande exatidão,
as órbitas dos corpos celestes,
a partir de poucas observações.
Obteve ainda as chamadas coordenadas
de Gauss - utilizam-se especialmente
para a determinação
de um ponto sobre a superfície
da Terra (latitude e longitude); a
curva de Gauss - curva da distribuição
normal mediante a qual é possível
representar-se medidas prováveis
da Estatística; o método
de eliminação de Gauss
- utiliza-se na análise numérica
para resolver sistemas de equações
lineares; e o plano de Gauss - plano
para representação dos
números complexos.
Vida
Filho
de um trabalhador do campo, foi criado
no seio de uma família pobre,
austera e sem educação.
Dadas as precárias condições
econômicas da sua família,
recebeu o precioso apoio do Duque
de Brunswich que reconheceu nele uma
criança-prodígio. Este
apoio começou quando Gauss
tinha 14 anos e permitiu-lhe dedicar-se
exclusivamente aos estudos, durante
16 anos.
Ainda
antes do seu vigésimo quinto
aniversário, já Gauss
era famoso pelo seu trabalho em Matemática
e Astronomia. Aos 30 anos foi nomeado
Diretor do Observatório de
Göttingen, cidade da qual raramente
saiu, exceto por questões científicas.
Aí, trabalhou durante 48 anos
(de 1807 a 1855) até à
sua morte, com quase 78 anos.
A
vida pessoal de Gauss foi trágica
e complicada. Um pai insensível,
a morte prematura da sua primeira
mulher, a pouca saúde da sua
segunda mulher e uma terrível
relação com os seus
filhos negou-lhe, até tarde,
a possibilidade de vida estável
no seio de uma famíla equlibrada.
Mesmo
com todos estes problemas, Gauss manteve
uma rica e espantosa atividade científica.
A sua precoce paixão pelos
números e cálculos estendeu-se
à Teoria dos Números,
à Álgebra, à
Análise, à Geometria,
à teoria das Probabilidades
e à Teoria dos Erros. Ao mesmo
tempo, levou em frente uma intensiva
pesquisa empírica e teórica
em muitos outros ramos, incluindo
Astronomia Observacional, Mecânica
Celeste, levantamento topográfico,
Geodesia, Geomagnetísmo, Electromagnetísmo
e Mecanismos Ópticos.
***
Gauss
não encontrou nenhum colaborador
entre os seus colegas matemáticos
tendo trabalhado sempre sozinho. Mas,
se é verdade que o seu isolamento
relativo, a sua compreensão
das matemáticas «puras»
e «aplicadas», a sua preocupação
com a astronomia e o uso frequente
que faz do latim têm a marca
do século XVIII, é inegával
que, nos seus trabalhos, se reflete
o espírito de um novo período.
Se, tal como os seus contemporâneos
Kant, Goethe, Beethoven e Hegel, se
manteve à margem das grandes
lutas políticas da sua época,
a verdade é que, no seu próprio
campo, Gauss expressou as novas ideias
da sua época de uma forma poderosíssima.
As suas publicações,
a sua abundante correspondência,
as suas notas, e os seus manuscritos
mostram que ele possuía uma
das maiores virtuosidades científicas
de todos os tempos.
Antepassados e Ambiente Familiar
Nem
na descendência de Gauss, nem
no seu ambiente infantil, existe qualquer
indício do que viria a ser
o trabalho da sua vida.
Do
lado de seu pai, temos sobretudo donos
de pequenas quintas, trabalhadores
rurais e operários em Braunschweig
(que é agora uma parte da ex-Alemanha
de Leste), isto é, trabalhadores
que lutavam arduamente pela sua subsistência.
Contudo, há também notícia
de agricultores abastados, pedreiros
e titulares de postos eclesiásticos.
O avô paterno, Jürgen Goos,
estabeleceu-se na cidade de Braunschweig
(mais tarde, capital do Ducado de
Braunschweig) em 1744. Seu pai, Gebhard
Dietrich Gauss, nasceu em 1744. Finalmente,
e após muito trabalhar como
pedreiro, construtor de canais e jardineiro,
Gebhard tornou-se proprietário
de uma casa, em Wilhelmstrasse, que
havia sido comprada por seu pai, Jürgen
Goos, em 1753, com uma elevada hipoteca.
Como Gebhard calculava e escrevia
bem, foi-lhe confiado a função
de tesoureiro de um fundo de enterro.
A primeira mulher de Gebhart morreu
em 1775. No ano seguinte, Gebhart
casou com Dorothea Benze. O único
filho desta união foi Carl
Friedrich Gauss, que nasceu a 30 de
Abril de 1777, na casa de Wilhelmstrasse
(que mais tarde se tornou um museu
e foi destruída num bombardeamento
durante a Segunda Guerra Mundial).
O avô materno de Gauss, Kristoffer
Benze, era pedreiro na aldeia de Velpke,
nos arredores de Braunschweig. Como
trabalhava no arenito, seus pulmões
foram afetados, acabando por morrer
quando tinha apenas trinta anos.
O irmão mais novo de Dorothea,
Johann Friedrich, era dotado, original
e autodidata, tendo aprendido por
si próprio a ser um bom tecelão
de damasco. Quando morreu, em 1809,
Gauss declarou que o mundo havia perdido
um gênio, declaração
esta que só tem a evidência
do olhar de Gauss como sustentação.
Quanto à sua mãe, Dorothea,
nunca aprendeu a escrever e quase
não conseguia ler. No entanto
tinha uma ótima inteligência,
bom humor e um forte carater. O seu
filho Carl Friedrich foi o seu interesse
dominante da sua vida cujas últimos
vinte e dois anos dedicou a acompanhar
o filho no observatório, em
Göttingen.
Em
1810 Gauss descrevia os seus pais
numa carta para Minna Waldeck (que
se tornou a sua segunda esposa) nas
seguintes palavras:
"O
meu pai era um homem absolutamente
honesto, em muitos aspectos merecedor
de respeito, e certamente um homem
bem visto. Mas na sua casa era tirânico,
grosseiro, e violento... Nunca teve
a minha confiança completa
quando eu era uma criança.
No entanto, creio que nenhuma influência
dele se faz realmente sentir em mim,
dado que me tornei independente muito
cedo...
A minha mãe nasceu a cinquenta
quilómetros de Braunschweig,
e lá trabalhou durante alguns
anos como empregada. Casou com o meu
pai em 1776, e não houve mais
crianças além de mim.
O seu casamento não foi feliz
o que ficou a dever-se a circunstâncias
exteriores e ao fato das duas personalidades
não serem compatíveis.
A minha mãe é certamente
uma mulher muito boa, que não
é indigna do amor do seu filho."
A Infância
O
Prodígio Matemático
Começaram
cedo os indícios que faziam
adivinhar o talento incrível
que Gauss demonstraria ao longo de
sua vida. Isso é patente em
alguns dos excertos que relatam a
sua infância. É o caso
do seguinte episódio: durante
os verões, Gebhard Gauss, que
era contramestre numa firma de alvenaria,
pagava o salário semanal aos
seus trabalhadores. Uma vez, quando
Gebhard estava prestes a pagar o salário
a um dos trabalhadores, Carl Friedrich,
na altura com apenas três anos,
levantou-se e disse: "Papa, cometeste
um erro!", indicando em seguida
a quantia certa. Gauss tinha seguido
os cálculos sem sequer poder
ver os registos escritos (dado que
a sua altura ainda não era
suficiente para alcançar a
mesa), e para surpresa dos presentes,
uma confirmação provou
que Carl Friedrich estava certo.
É
portanto natural que Gauss tivesse
o costume de dizer que tinha aprendido
a contar e a calcular antes de ter
aprendido a falar.
Outra das suas proezas foi aprender
a ler sozinho. Como o conseguiu? Segundo
reza a história apenas perguntando
aos adultos como se pronunciavam as
letras do alfabeto. E isto foi só
o início do que viria a ser
a sua obra.
A
Educação
Carl Friedrich tinha sete anos quando
entrou para a Escola Primária
St. Catherine, sendo inicialmente
apenas mais um no meio de tantos alunos.
O seu professor era J.G. Büttner,
um professor tradicional que, em geral,
considerava os seus alunos como incapazes
e pouco dotados. No entanto, cedo
descobriu que Gauss era diferente.
Como o descobriu? Quando o seguinte
episódio aconteceu:
Gauss tinha cerca de dez anos e frequentava
a classe de aritmética quando
Büttner propôs o seguinte
difícil problema:
"Escrevam
todos os números de 1 a 100
e depois vejam quanto dá a
sua soma."
Era hábito, quando a classe
tinha uma tarefa deste tipo, que se
fizesse o seguinte: o primeiro aluno
a acabar iria até à
secretária do professor com
a sua ardósia e colocá-la-ia
em cima da mesa. O seguinte a acabar
colocaria a sua ardósia em
cima da do colega e assim sucessivamente,
até a pilha de ardósias
estar completa.
O problema em questão não
era difícil para alguém
que tivesse alguma familiaridade com
as progressões aritméticas.
Como os rapazes ainda eram principiantes,
Büttner certamente pensou que
lhe seria possível fazer um
intervalo por um bom bocado. Mas estava
enganado... Em alguns segundos, Gauss
colocou a sua ardósia na mesa,
e ao mesmo tempo disse no seu dialecto
Braunschweig: "Ligget se"
(Aqui jaz ). Enquanto os outros alunos
continuavam a somar, Gauss sentou-se
calmo e sereno, impassível
aos olhares desdenhosos e suspeitos
de Büttner.
No final da aula os resultados foram
examinados. A grande maioria dos alunos
tinha apresentado resultados errados
pelo que foram severamente corrigidos
com uma cana-da-índia. Na ardósia
de Gauss, que se encontrava no fim,
estava apenas um número: 5050
(É desnecessário dizer
que o resultado esta correcto.) Como
seria de esperar, Gauss teve que explicar
ao espantado professor Büttner
como é que tinha obtido aquele
resultado:
"Então,
1+100=101, 2+99=101, 3+98=101, e por
ai em diante, até finalmente
49+52=101 e 50+51=101. Isto dá
um total de 50 pares de números
cuja soma dá 101. Portanto,
a soma total é 50101=5050."
Desta maneira aparentemente simples,
Gauss tinha encontrado a propriedade
da simetria das progressões
aritméticas, derivando a fórmula
da soma para uma progressão
aritmética arbitrária
– fórmula que, provavelmente,
Gauss descobriu por si próprio.
Este acontecimento marcou o ponto
de viragem na sua vida. Büttner
imediatamente percebeu que pouco mais
tinha para ensinar a Gauss e deu-lhe
o melhor livro escolar de aritmética,
especialmente encomendado de Hamburg.
Por essa altura, Gauss teve um estreito
contacto com Martin Bartels, na altura
com 18 anos, assistente de Büttner
nas aulas o que constituiu um golpe
de sorte, não tanto para Gauss
que pouco tinha a aprender com ele
mas para Bartels que, mais tarde,
se tornou professor de Matemática.
Perante este génio, tanto Büttner
como Bartels visitaram o pai de Gauss
para lhe falarem da educação
do seu filho. Gebhard estava habituado
a que a sua vontade fosse lei na família
e havia idealizado que os seus dois
filhos seguissem os seus passos (o
que, de facto, aconteceu com o meio
irmão de Carl Friedrich, George,
fruto do primeiro casamento de seu
pai). Inicialmente Gebhard mostrou-se
relutante e perguntou-lhes (com razão)
como é que iria arranjar dinheiro
suficiente para subsidiar a educação
superior do seu filho. A isto Bartels
e Büttner responderam com o único
argumento que era habitual e, frequentemente,
o único possível, nesses
dias: "Não temos dúvida
que arranjaremos qualquer pessoa distinta
que queira sirvir de patrono a um
tal génio."
O resultado foi um compromisso...
Gebhard permitiu que o rapaz abandonasse
o seu trabalho de rotina fiando linho.
A roca de fiar desapareceu (Gebhard
disse que havia feito dela lenha para
a lareira) e, no seu lugar, apareceram
livros.
Gauss e Bartels passaram então
a trabalhar juntos. Costumavam sentar-se
e discutir problemas de Matemática
até longas horas da noite.
Mas cedo Bartels compreendeu que nada
tinha para ensinar a Gauss. O aluno
tinha superado o mestre.
Em 1788, Gauss matriculou-se (quase
contra a vontade do pai) no Liceu
Catharineum em Braunschweig.
O Professor Hellwing devolveu o primeiro
trabalho escrito de Gauss com o comentário
de que "não era necessário,
para um estudante tão dotado,
continuar a ter aulas naquela classe".
Com a ajuda de Bartels e do filólogo
Meyerhoff, Gauss depressa ultrapassou
os seus colegas, não só
em Matemática como também
nas línguas clássicas.
No entanto, para que fosse possível
continuar a sua educação,
e terminado o período de frequência
neste colégio, era necessário
dinheiro, coisa que Gauss não
tinha. É então que...
O
Duque Ferdinand Torna-se Seu Benfeitor
Através de Bartels, Gauss,
entrou em contacto com o Professor
Zimmermann no Colégio Carolinum
(que mais tarde se tornou um Instituto
Técnico). Este era conselheiro
particular do Duque Ferdinand e viria
a ser o intermediário entre
Gauss e o seu benfeitor, o reinante
Duque Carl Wilhelm Ferdinand, da casa
de Braunschweig. Mais tarde, de forma
a formalizar o apoio dado pelo Duque,
Gauss foi convocado para uma audiência
pelo Tribunal Oficial na qual tudo
correu bem. Aí o Duque comprometeu-se
a fornecer os meios necessários
"para a continuação
da preparação de uma
pessoa tão dotada".
O
Duque tinha ganho de uma vez por todas
a confiança e a devoção
do tímido jovem de 14 anos.Com
os problemas económicos resolvidos,
era suposto que o pai de Gauss não
tivesse mais nada a dizer contra o
facto do seu filho continuar a estudar.
Gauss frequentou o Colégio
Carolinum durante os anos 1792-1795.
Quando lá chegou, possuía
uma educação clássica
e científica muito para além
do que era habitual naquele tempo,
em pessoas tão jovens.
Em 1796, quando Gauss publicou a sua
primeira notícia científica
(sobre o polígono regular de
17-lados), Zimmermann apresentou-o
ao círculo de leitores com
algumas linhas:
"aqui
em Braunschweig devotou-se ele próprio
à filosofia e à literatura
com o mesmo sucesso que na álgebra
superior."
Primeira
Pesquisa Independente. Os Números
Primos e a Hipótese de Gauss
Respeitante à sua Distribuição.
Antes que um matemático maduro
seja capaz de dar qualquer contribuição
para a sua ciência, terá
primeiro que conhecer a fundo os resultados
que as gerações anteriores
já alcançaram. Existem
várias formas de o fazer: usando
um livro escolar, recebendo o apoio
um professor ou pensando por si só.
Durante a sua infância, Gauss
pôde utilizar a primeira e a
segunda destas possibilidades, embora
com limites muito estreitos. Porém,
tendo em conta a sua genialidade,
é natural que tenha usado a
terceira hipótese na maioria
das vezes. Assim, aconteceu-lhe com
grande frequência redescobrir
teoremas que já eram conhecidos,
por exemplo, a fórmula da soma
de uma progressão aritmética.
Tal como todas as outras crianças,
Gauss começou os seus estudos
matemáticos pelos números
naturais 1, 2, 3, 4, ... Sabemos que,
apesar de parecerem simples, estes
números escondem muitos dos
mais difíceis problemas matemáticos,
por exemplo, em torno dos números
primos.
Ora, com apenas 15 anos, isto é,
durante o ano 1792-1793, Gauss investigou
a distribuição dos números
primos. A única ajuda que teve
foi uma tabela de números primos
publicada pelo suíço
Johann Lambert. Gauss dividiu os números
naturais em milhares (de 1 a 1000,
de 1000 a 2000 e por aí em
diante) e usou a tabela de Lambert
para calcular o número de primos
em cada intervalo, isto é,
determinou (1000), (2000)-(1000) e
assim sucessivamente. Na tabela seguinte,
que apenas mostra o início,
estão as diferenças
que medem a taxa de crescimento dos
número primos denotadas por
D(x).
|
x
|
(x)
|
D(x)
|
|
1000
2000
3000
4000
5000
6000
7000
8000
9000
10000
|
168
303
430
550
669
783
900
1007
1117
1229
|
168
135
127
120
119
114
117
107
110
112
|
A tendência de D(x) para decrescer
devagar à medida que x aumenta
aparece já aqui e esta tendência
permanece à medida que a tabela
vai sendo aumentada. Para a maior
parte, o seu crescimento continua
a uma razão cada vez mais lenta,
sem contudo parar completamente. O
que implica que os números
primos se tornam mais escassos à
medida que progredimos nos números
naturais.
Esta propriedade geral dos números
primos já era conhecida e,
como é relativamente trivial,
não importa se foi ou não
Gauss que a descobriu por si só.
Mas o que se segue não é
trivial. Ao investigar diferentes
tipos de funções Gauss
depressa descobriu que na média
D(x) era inversamente proporcional
ao logaritmo natural de x, que se
escreve log x.
Como ele havia descoberto uma expressão
para D(x), podia determinar uma expressão
para (x) por um processo de soma intimamente
relacionado com os integrais em Matemática.
O
jovem Gauss, com apenas 15 anos, apresentou
a sua hipótese sobre a distribuição
de números primos na forma
de integral: o número de primos
que são menores ou iguais ao
número natural x é aproximadamente
dado por
Na sua pesquisa da teoria dos números,
e provavelmente noutras áreas
do seu trabalho, Gauss começou
com os números. Ele experimentou-os,
combinando-os de inumeráveis
maneiras em cálculos numéricos
(houve quem dissesse que brincava
com eles) e durante essa brincadeira
encontrou, empiricamente, relações
e leis cujas demonstrações
rigorosas lhe custaram grandes esforços.
As investigações de
Gauss sobre a distribuição
de números primos marcaram
os seus quinze ou dezasseis anos de
transições do que ele
próprio mais tarde chamou "a
pesquisa mais subtil na aritmética
superior" (o que nós agora
chamamos teoria dos números).
O seu método indutivo permitiu
aí os maiores triunfos quando
descobriu o Teorema Fundamental dos
Resíduos Quadráticos,
em Março de 1795, a que chamou
Theorema aureum- teorema dourado -
e Gemma Arithmeticae - gema da aritmética.
O baptizado poético dos seus
novos teoremas talvez pareça
hoje estranho aos nossos ouvidos.
Mas Gauss viveu durante um período
que, do ponto de vista da literatura,
era dominado pelo romantismo. Trata-se
de um estilo que Gauss seguiu nas
suas cartas privadas e testemunhos
e que por vezes invade o seu trabalho
matemático.
As metáforas românticas
que usa quando compara os teoremas
matemáticos ao ouro e a pedras
preciosas ou quando diz: "Matemática
é a rainha das ciências,
mas a Aritmética é a
rainha das Matemáticas"
são espelho disso mesmo.
Curiosamente,
a metáfora revertia sobre o
próprio Gauss que era designado
como Príncipe das
Matemáticas.
Em 1791, Gauss começou a sua
investigação dos meios
aritmético-geométricos.
Já em 1792, quando tinha quinze
anos, havia começado a ponderar
os fundamentos da Geometria Euclidiana.
Estava já interessado no famoso
axioma das paralelas e as suas ideias,
mais tarde amadurecidas, deram origem
à Geometria Não-Euclidiana.
Ao longo dos anos, na sua correspondência,
é possível verificar
que, cautelosamente mas de forma cada
vez mais clara, a sua certeza aumenta
em relação ao facto
de o Quinto Postulado de Euclides
não ser demonstrável.
Em 1794 Gauss descobriu a relação
entre este valor médio e certas
séries de potências.
Ainda no mesmo ano descobriu o Método
dos Mínimos Quadrados, tendo
também estudado como trabalhar
com erros observáveis, o que
mais tarde o levaram à curva
Gaussiana dos erros.
Os
Primeiros Anos Universitários
O
Polígono Regular de 17 Lados
No dia 15 de Outubro de 1795, Gauss
foi admitido na Universidade de Göttingen
como "matematicamente culto";
isto é, como um estudante de
Matemática. Contudo é
muitas vezes assinalado o facto de,
de início, Gauss, ter estado
indeciso entre tornar-se Matemático
ou Filólogo.
O geólogo Sartorius von Waltershausen,
um amigo intimo de Gauss nos seus
últimos anos disse que Gauss
terá ficado completamente certo
da sua escolha quando descobriu a
construção do polígono
regular de 17 lados, ou seja, após
o primeiro ano na universidade.
Dos professores em Göttingen,
quem mais impressionou Gauss foi o
grande filólogo e classicista
Christian Gottlob Heyne, a cujas aulas
assistiu inicialmente e o matemático
Abraham Gotthelf Kästner, que
mostrou pouco interesse pela pesquisa
de Gauss.
A Biblioteca requisitada por Gauss
durante o primeiro ano em Göttingen
é surpreendente. Como estudante
no Colégio Carolinum ele tinha
estudado Newton, Euler, e Lagrange
provavelmente de forma profunda, e
seria natural para ele que continuasse
por essa linha. Mas, dos vinte e cinco
livros que ele requisitou da Biblioteca,
apenas cinco eram de Matemática,
sendo os restantes de autores humanistas.
Quer isto dizer que as humanidades
continuariam como o seu passatempo
preferido...
De qualquer modo, aos dezoito anos
Gauss teve um vislumbre das suas ideias
matemáticas. Sabêmo-lo
através do seu jornal cientifico,
escrito em latim, a que deu o nome
de Notizenjournal.
Na edição de 30 de Março
de 1796, escreve:
"Princípio
da divisão do círculo,
como dividir geometricamente uma circunferência
em dezassete partes, e daí
em diante."
Foi esta descoberta que, com um simples
golpe, fez Gauss famoso entre os Matemáticos.
Ela envolve a construção
do polígono regular de 17 lados
usando apenas "as ferramentas
de Euclides", isto é,
régua e compasso.
Gauss ficou tão feliz e orgulhoso
com esta descoberta que disse ao seu
amigo Wolfgang Bolyai que o polígono
regular de 17 lados deveria ser gravado
na sua sepultura.
Não chegou a ser. Mas, no monumento
a Gauss, em Braunschweig, existe uma
estrela de 17 pontas que quase se
confunde com uma circunferência.
A primeira noticia publicada com que
Gauss apareceu em público dá
a retrospectiva histórica do
problema.
"Todo
o principiante em Geometria sabe que
é possível construir
diferentes polígonos regulares,
por exemplo, triângulos, pentágonos,
polígonos regulares com 15
lados, e que esses polígonos
são resultantes de se duplicar
o número de lados dessas figuras.
Parte disto já vem do tempo
de Euclides e parece que, desde então,
se acreditou que o campo da geometria
elementar acabou nesse ponto. Em todo
o caso, não conheço
nenhuma tentativa bem sucedida para
estender as fronteiras para além
dessa linha.
Parece-me portanto que esta descoberta
possui algum interesse especial. Na
verdade, para além desses polígonos
regulares, um número de outros
são geometricamente constructíveis,
por exemplo, o de 17 lados. Esta descoberta
é realmente um corolário
de uma teoria com conteúdos
maiores, que ainda não está
completa, mas que será publicada
assim que for completada."
O
Jornal. A Reclamação
de Gauss por um Resultado Matemático.
O
jornal de Gauss só foi fundado
em 1898. Desempenhou um papel importante
na apreciação da sua
contribuição matemática
dado que contém muita coisa
que Gauss nunca publicou ou a que
apenas havia feito alusão em
cartas para os seus amigos. É
uma brochura de dezanove páginas
impressas em oitavo, cobrindo o período
de 30 de Março de 1796 a 9
de Julho de 1814. Ao todo, existem
146 pequenos registos de descobertas,
resultantes de cálculos numéricos
ou simples afirmações
de teoremas matemáticos.
O
jornal dá-nos uma visão
clara do percurso matemático
de Gauss quando este tinha entre 18
e 24 anos, isto é, durante
os anos significativos de 1796-1801.
De todos os registos, 121 deles caem
neste intervalo. Assim, de forma lacónica,
podemos seguir o fio de grandes descobertas
em Álgebra, Análise
e Teoria dos Números.
No jornal, Gauss teve que pôr
de lado a máscara de cautela
e inacessibilidade que sempre mostrou
ao mundo que o rodeou durante toda
a sua vida. A sua alegria e orgulho
surgem em exclamações
triunfantes. "Felicitas nobis
est facta" (fui bem sucedido)
fecha a noticia de 3 de Junho de 1800,
quando descobriu a mais bela propriedade
das funções modelares
elípticas. Expressões
semelhantes apareceram várias
vezes. Elas são reminiscências
da "Eureka" de Arquimedes,
grito triunfante das descobertas ao
longo dos anos.
Apesar
de lacónicas, as notícias
no jornal revelam alguma coisa da
individualidade de Gauss: rica ingenuidade
combinada com competência numérica
e poder lógico para encontrar
as demonstrações exactas,
depois de longo e laborioso trabalho.
Como
explicar esta sua reserva?
Tal como Mozart, supõe-se que
Gauss tenha sido esmagado por uma
enchente de novas ideias, durante
a sua juventude. As introduções
no jornal eram feitas em Latim e,
provavelmente, era intenção
de Gauss pô-las de forma mais
detalhada posteriormente. Mas, em
muitos casos, Gauss nunca publicou
as suas descobertas, as quais foram
recuperadas das notas ou das cartas
que deixou.
Tal como Newton, que Gauss admirava
muitíssimo (nquanto que outros
matemáticos são rotulados
com epítetos tais como "clarissimus"
(altamente distinguíveis),
Newton é "summus"
(o melhor)), Gauss adicionou à
exigência de rigor e forma clara
outra característica: a exigência
de síntese. Ele queria encontrar
uma teoria uniforme e geral em cada
área que estabelecesse as ligações
entre os diferentes teoremas. Quer
isto dizer que, tal como Newton, Gauss
desejou deixar uma obra de arte completa
na qual nada pudesse ser modificado
sem que se destruísse a harmonia
do conjunto. Mas, tal como Newton,
Gauss queria obter uma posição
social segura e, apesar do Duque Ferdinand
o apoiar, Gauss queria sustentar-se
a ele próprio. O posto de chefe
no Observatório Astronómico
em Göttingen permitiu-lhe alguma
independência económica
em 1807.
Mais uma razão para a sua reserva
pode ser encontrada no próprio
caracter de Gauss que detestava todas
as formas de violência e encarava
as explosões impetuosas como
algo vergonhoso. Provavelmente, esta
atitude era uma reacção
contra o seu pai tirânico. Gauss
sempre teve um profundo desagrado
por polémicas e quis proteger
a paz de espírito no seu trabalho.
Nunca tomou parte em nenhum debate
público apesar de ser conhecida
a perspicácia da sua crítica
em discussões privadas com
os amigos.
Estas são algumas das causas
que podem permitir explicar porque
razão tantas descobertas brilhantes
nunca foram publicadas por Gauss.
A mais importante é, certamente,
a sua exigência de rigor, beleza,
e síntese. Exigências
que encontram expressão magnífica
na obra de Gauss.
A
Sua Amizade com Wolfgang Bolyai. O
TeoremaFundamental da Álgebra.
Gauss como um Rigorista.
Desde a infância, provavelmente
devido ao seu estatuto de prodígio,
e talvez também devido à
sua disposição séria,
Gauss isolou-se dos seus contemporâneos.
Esta solidão continuou durante
os primeiros anos em Göttingen.
Gauss não participava na vida
estudantil e tinha poucos amigos.
Entre os seus poucos amigos estava
o húngaro Wolfgang Bolyai (1775-1856).
Bolyai estudou em Göttingen durante
1796- 1799 e mais tarde tornou-se
professor de Matemática em
Maros (Vásárhely) na
Transilvânia.
Gauss dizia que Bolyai era o único
que tinha o mesmo ponto de vista que
ele em relação aos fundamentos
da Matemática. Por seu lado,
Bolyai terá dito a Dorothea
que o seu filho era "o maior
Matemático da Europa"
.
Gauss e Bolyai trocaram cartas durante
mais de cinquenta anos, desde 1797
até 1853. Cartas que dão
uma imagem viva da fiel amizade que
Gauss, apesar do seu temperamento
frio, era capaz de abrigar dentro
do seu coração.
A 16 de Julho de 1799, Gauss foi graduado
Doutor em Filosofia pela Universidade
de Helmstedt. A sua tese, publicada
nesse mesmo ano, sob o título
Demonstratio nova theorematis omnem
functionem algebraicum rationalem
integram unius variabilis in factores
reales primi vel secundi gradus resolvi
posse (Uma nova demonstração
de que todos os polinómios
de uma variável podem ser factorizados
em factores reais de primeiro e segundo
grau), é uma demonstração
do Teorema Fundamental da Álgebra.
O
Teorema Fundamental da Álgebra
pode enunciar-se de forma geral: Toda
a equação polinomial
tem pelo menos uma raiz. O facto de
uma equação polinomial
de grau n ter sempre n raízes
é então um simples corolário.
As diferentes demonstrações
deste teorema são as contribuições
mais importantes que Gauss deu como
rigorista, isto é, como representante
do rigor lógico nos métodos
demonstrativos. Como este teorema
tem grande significado tanto em Álgebra
como em Teoria de Funções,
ele influenciou ambas as áreas.
Mas o estímulo do rigor veio
sobretudo da Teoria das Funções.
Disputationes
arithmeticae
As ideias que fluíram de Gauss
durante os anos frutuosos de 1795-1801
foram, na sua maioria, reunidas num
trabalho que publicou em Leipzig em
1801, Disputationes arithmeticae.
A impressão foi paga pelo Duque
Ferdinand razão pela qual o
trabalho começa com uma dedicatória
a "Sua Graciosa Alteza, Príncipe
e Lorde Carl Wilhelm Ferdinand, Duque
de Braunschweig e Lüneburg."
Entre outras coisas, Gauss declara
que, sem a bondade do Duque, "nunca
teria conseguido dedicar-me à
Matemática, na qual tenho estado
sempre mergulhado com apaixonado amor."
Esta dedicatória é fortalecida
pelo estilo rocócó que
era usado na altura mas, neste caso,
não estamos perante uma bajulação
vazia de sentimento. Estas palavras
reflectiam aquilo que Gauss sentia.
As Disquisitiones arithmeticae estão
divididas em sete partes:
Congruências em geral
Congruências de primeiro grau
Resto de Potências
Congruências de segundo grau
Formas quadráticas
Aplicações
Divisões do círculo
Apresentamos
em seguida apenas um esboço
do conteúdo das Disquisitiones
arithmeticae que, com propriedade,
podem ser consideradas como uma sinfonia
clássica em sete momentos,
onde os diferentes temas são
combinados num final que é
levado a cabo com grande força
e magnífica clareza.
Congruências em Geral
e Congruências de Primeiro Grau
Na primeira página Gauss introduz
um novo símbolo matemático
e diz que:
Se um número m divide a diferença
a-b (ou b-a) de dois números
a e b sem resto, então a e
b dizem-se congruentes módulo
m, e Gauss escreveu

Esta expressão lê-se:
a é congruente com b módulo
m. A relação é
chamada congruência; e m é
chamado de módulo da congruência.
O número b é chamado
o resto de a módulo m, e inversamente
a é chamado o resto de b módulo
m. Se a diferença a-b não
for divisível por m, então
a e b dizem-se incongruentes módulo
m, e a e b não são restos
um do outro, módulo m.
De acordo com a definição,
é o mesmo que a-b=m
y,
onde y é um número inteiro
qualquer.
Gauss escolheu o símbolo com
grande previdência, dada a analogia
entre congruências e igualdades.
A noção de congruência
é mais inclusiva, dado que
podemos considerar a igualdade uma
congruência de módulo
0.
Na segunda secção do
seu Disquisitiones arithmeticae Gauss
primeiro provou alguns teoremas donde
saiu aquele que usualmente é
chamado o Teorema
Fundamental da Aritmética:
Todo o número natural maior
que 1 pode, exceto pela ordem dos
fatores, ser escrito de uma e uma
só maneira como produto de
números primos.
Usando o teorema fundamental da álgebra
Gauss depois determinou o máximo
divisor comum (a,b)
e o mínimo
múltiplo comum
{a,b},
de dois números a e b.
O resultado de Gauss para a solubilidade
das congruências lineares é:
Se (a,m)=d, então é
condição necessária
e suficiente para que a congruência
seja
solúvel que d seja um divisor
de b. Então logo existem d
diferentes sequências de soluções,
ou seja, d soluções.
Congruências
de Segundo Grau
Na terceira e na quarta secções
Gauss continuou com as congruências
de grau superior. Especialmente importante
é a congruência binomial
.
Se p é um
número primo e a
é um número inteiro
qualquer não divisível
por p, então
.
A quarta secção refere-se
a uma das mais interessantes partes
da teoria dos números, a teoria
dos restos quadráticos. Um
número a é chamado um
resto
quadrático do número
m se a congruência
tiver
solução. Se a congruência
não tiver solução,
então a não
é um resto quadrático
de m.
Ao computar o período inteiro
da expansão decimal de 1/n
desde n=1 até n=1000,
Gauss escreveu uma tabela para descobrir
a relação entre o período
da expressão decimal e o denominador
n.
No dia 8 de Abril de 1796, uma pequena
noticia no jornal afirma que ele havia
descoberto a demonstração
exacta do teorema fundamental dos
restos quadráticos. Esta era
uma demonstração muito
longa, que continha oito casos diferentes
e era carregada de lógica obstinada.
O grande matemático alemão
Leopold Kronecker (1823-1891) mais
tarde caracterizou-a como "um
teste de força ao génio
de Gauss".
A lei da reciprocidade
quadrática
pode ser formulada de várias
maneiras. A mais curta é provavelmente
a seguinte:
O
número primo p é um
erro quadrático ou não
é um erro de outro número
primo p de acordo com
ser
um erro ou não de p.
Formas Quadráticas
Na quinta secção Gauss
primeiro manuseia a forma binária
quadrática, isto é,
uma expressão da forma . Aqui
o problema é determinar as
soluções inteiras de
x e y da equação Diofantina
=m, onde a, b, c e m são números
inteiros dados. Depois ele estudou
o problema correspondente para a forma
ternária quadrática,
isto é, uma expressão
da forma .
Na sexta secção a precedente
teoria é aplicada a um número
especial de casos, tais como às
soluções de números
inteiros da equação
diofantina .
A Divisão do Circulo.
Na sexta e última secção
Gauss aplica os resultados anteriores
à congruência binomial
onde p é um número primo
e n é um número natural.
A relação entre estas
congruências aritméticas
e a equação binomial
xn=1 dá a solução
para o problema da divisão
do círculo e da construção
do polígono regular de 17 lados
de que se falou anteriormente. A congruência
binomial reúne aritmética,
álgebra, e geometria numa das
sínteses mais importantes a
que Gauss se dedicou e que ele alcançou
aqui de uma maneira que tem poucos
equivalentes na história da
Matemática.
Astronomia
A
Determinação da Órbita
de Ceres
O interesse de Gauss pela astronomia
foi despertado quando, no primeiro
dia do novo século (1 de Janeiro
de 1801), Piazzi, em Palermo, descobriu
o primeiro asteróide, a que
foi dado o nome de Ceres. Visto que
não era possível fazer
muitas observações do
novo asteróide, levantou-se
o problema do cálculo da órbita
de um planeta a partir de um pequeno
número de observações.
Só assim os observadores saberiam
para onde apontar os seus telescópios.
Gauss
resolveu o problema completamente
tendo sido conduzido a uma equação
do oitavo grau.
Enquanto que as Disquisitiones arithmeticae
tornaram Gauss famoso entre os matemáticos,
a determinação da órbita
do asteróide Ceres fê-lo
famoso em todos os círculos
académicos do mundo.
No caso dos planeta podia-se dizer
que a sua órbita era uma elipse,
isto é, a sua excentricidade
era um número desconhecido
entre zero e um. Mas, no caso de Ceres
os métodos conhecidos eram
inúteis.
Gauss já tinha trabalhado com
questões astronómicas,
por exemplo, com a teoria do movimento
da lua e sentia-se agora atraído
com este novo problema. Ele mostrava-se
tão difícil que parecia
ser necessário recorrer à
sua tremenda virtuosidade computacional
e à sua criativa imaginação.
Decidiu então trabalhar em
métodos mais úteis para
determinar órbitas e rapidamente
encontrou a sua primeira solução.
Graças a este resultado, Ceres
foi encontrado novamente durante o
período de 25 de Novembro a
31 de Dezembro de 1801, quase exactamente
no sítio que havia previsto.
Enquanto continuava a melhorar os
seus métodos, Gauss calculou
efemérides para novos asteróides
à medida em que eles eram descobertos.
Os seus cálculos para Vesta
provocaram uma indisfarçada
admiração em Olber (Wilhelm
Olbers (1758-1840), um mais importantes
astrónomos amadores de todos
os tempos. Durante o dia exercia medicina,
e à noite sentava-se no seu
observatório privado, onde
entre outras coisas, descobriu pelo
menos seis cometas e dois asteróides.
Este homem, que claramente necessitava
de dormir muito pouco, tornou-se um
dos amigos mais íntimos de
Gauss.) Em apenas dez horas Gauss
tinha calculado os elementos da órbita
e comparado os seus valores teóricos
com as diferentes observações
dos novos asteróides.
Quando se tratava de órbitas
parabólicas, os seus cálculos
eram ainda mais rápidos. Gauss
conseguia calcular a órbita
de um cometa simplesmente numa hora,
tarefa que tinha ocupado Euler, usando
outros métodos, durante três
dias. Dizia-se que tantos cálculos
tinham levado Euler a cegar de uma
das vistas. Gauss afirmou um tanto
desapiedadamente: "Eu também
teria cegado se tivesse calculado
dessa maneira, durante três
dias."
A
Teoria do Movimento dos Corpos Celestes
Gauss publicou os seus novos métodos
em 1809 sob o título Theoria
motus corporum coelestium in sectionibus
conicis solem ambientium (Teoria do
movimento dos corpos celestes que
se movem em torno do sol em secções
cónicas), obra que constitui
um trabalho clássico em astronomia
teórica.
O
seu trabalho teórico em astronomia
terminou em 1817, mas Gauss continuou
a ser um observador posicional, calculando
e relatando os seus resultados até
à sua morte. Auxiliado por
estudantes e colegas, observava regularmente
e estava envolvido em todos os detalhes
relativos à instrumentação.
Casamento
e Avanços Académicos
Em 1804 um novo observatório
foi planeado em Göttingen. A
25 de Julho de 1807, Gauss foi nomeado
Professor de Astronomia e director
do observatório em Göttingen.
Em Novembro de 1807 Gauss mudou-se
para Göttingen tendo trabalhado
no velho observatório enquanto
o novo edifício estava em construção.
Permaneceu na posição
oficial de Director do Observatório
durante o resto da sua vida.
Mas
não o fez sozinho...
Em 1803, havia conhecido Johanna Osthoff,
a filha do dono de uma fábrica
de curtumes em Braunschweig. Ela tinha
nascido em 1780 e era filha única.
Ficaram noivos no final de 1804. O
casamento teve lugar a 9 de Outubro
de 1805.
Em 1814 o novo observatório
estava completo. As residências
dos professores ficaram completas
em 1816. Gauss e a sua família
mudaram-se para a ala oeste, enquanto
Harding vivia na ala este. Durante
os anos seguintes, Gauss e Harding
instalaram os instrumentos astronómicos.
A
Morte do Duque. A morte da Mulher
de Gauss.O seu segundo casamento.
A 14 de Outubro deu-se a batalha de
Auerstädt na qual o Duque Ferdinand
era comandante das tropas Prussianas
e Saxónicas. Durante a batalha,
o Duque foi atingido por uma bala
de mosquete e morreu em Altona a 10
de Novembro de 1806. Significativo
é o fato de o seu nome não
ter ficado na História política
mas, pelo apoio prestado a Gauss,
ter encontrado lugar na história
da Matemática.
Durante este período de agitação
política Gauss encontrou compensação
no seu trabalho e na sua família.
Teve três filhos: Joseph (1806);
Wilhelmina (1808); e por fim Ludwig
(1809). Com a terceira gravidez, Johanna
esgotou as suas forças e acabou
por morrer a 11 de Outubro de 1809,
sendo seguida por Louis (Ludwig),
cinco meses mais tarde. Gauss entrou
numa profunda solidão da qual
nunca mais conseguiu realmente sair.
No entanto, menos de um ano depois,
a 27 de Março de 1810, acabou
por escrever a sua segunda proposta
de casamento. Esta proposta foi dirigida
à melhor amiga da sua falecida
mulher, Minna Waldeck. Gauss casou
com ela a 4 de Agosto de 1810.
Deste casamento nasceram dois filhos
e uma filha: Eugene (1811), Wilhelm
(1813) e Therese (1816). Contudo Minna
raramente estava bem ou feliz: para
além da doença que a
afligia, sofria por Gauss dominar
as suas filhas e discutir com os seus
filhos mais novos que acabaram por
imigrar para os Estados Unidos da
América.
Gauss nunca conseguiu ter uma vida
familiar tranquila até que
a sua filha mais nova, Therese, tomou
conta da família, depois da
morte da sua mãe (em 1831)
e se tornou a sua companhia durante
os seus últimos vinte e quatro
anos de vida.
Erros Observáveis e
o Cálculo Das Probabilidades
O
grande interesse de Gauss em Astronomia,
e o seu tardio interesse em geodesia,
levaram-no a procurar métodos
racionais para determinar a magnitude
dos erros observáveis.
Ainda hoje a teoria dos erros observáveis
é ensinada quase exatamente
na mesma forma que Gauss a criou.
Dado que a Astronomia assumiu uma
posição dominante entre
as ciências experimentais durante
o período que foi de 1600 a
1700 é natural que a teoria
dos erros observáveis tenha
tido o seu primeiro desenvolvimento
em astronomia.
O
Método dos Mínimos quadrados.
A primeira publicação
de Gauss do método dos mínimos
quadrados apareceu em 1809 no final
do seu Theoria motus. Em
1823 Gauss publicou o seu grande trabalho
Theoria combinationis observationum
erroribus minimus obnoxiae (A Teoria
para a combinação de
observações, que estão
ligadas com os mínimos erros
possíveis).
Trata-se
de uma apresentação
sistemática e generalizada
da sua recente teoria de erros observáveis.
Gauss desenvolve aí o método
dos mínimos quadrados enquanto
a mais adequada de combinar observações,
independentemente de qualquer lei
hipotética relativa à
probabilidade de erro.
A
Lei da Distribuição
Normal. A Curva dos Erros.
A famosa lei da distribuição
de Gauss, com várias aplicações,
foi publicada na terceira secção
do livro Theoria motus.
Gauss fez série de suposições
gerais sobre as observações
e os erros observáveis e complementou-os
com uma suposição puramente
matemática. Depois, de uma
forma muito simples, foi capaz de
obter a equação da curva
que correspondia aos seus resultados
empíricos. Essa curva era a
Curva de Gauss
O gráfico de assemelha-se a
um sino e às vezes é
chamado uma curva em forma de sino.
Se o coeficiente da precisão
é grande, então a curva
é íngreme e as observações
caem próximo da média
aritmética. Mas se for pequena,
a curva é plana, isto é,
a distribuição é
mais generalizada.
Gauss também fez cálculos
acerca de limites de erros prováveis
para uma série particular de
observações da mesma
quantidade. O resultado mais importante
aqui é que o erro médio
da média aritmética
é inversamente perpendicular
à raiz quadrada do número
de observações; noutras
palavras, a ocorrência provável
da média cresce com a raiz
quadrada do número de observações.
Gauss
descobriu também o Teorema
do Integral de Cauchy para
funções analíticas,
mas não publicou essa descoberta.
Geodesia
Em 1817, Gauss estava preparado para
trabalhar em relação
à Geodesia que seria a sua
preocupação durante
os próximos oito anos e um
peso nos seguintes trinta anos.
Desde a sua chegada a Göttingen,
Gauss estava preocupado com a exactidão
da localização do observatório
e, em 1812, o seu interesse em problemas
mais gerais foi estimulado durante
uma visita ao Observatório
de Seeberg. Começou então
a discutir com Schumacher a possibilidade
de prolongar até Hannover o
último prolongamento da Dinamarca.
E Gauss tinha muitos motivos para
este projecto. Ele envolvia problemas
matemáticos interessantes que
abriam um novo campo para as suas
habilidades calculatórias e
permitiam complementar a sua astronomia
posicional. Competindo com os esforços
franceses para calcular o comprimento
do arco de um grau no meridiano, esta
situação oferecia-lhe
uma oportunidade de fazer alguma coisa
útil para a humanidade, providenciando
uma fuga aos aborrecimentos do seu
trabalho e aois problemas familiares.
A última era uma razão
trivial, dado que Gauss tinha responsabilidades
familiares acrescidas para enfrentar
um salário que permaneceria
fixo desde 1807 até 1824.
Só em 1820 a Triangulação
de Hannover foi oficialmente aprovada,
mas já em 1818 Gauss havia
começado um árduo programa
de verão no qual, supervisionando
no terreno, tentava recolher dados
que não tinha sido possível
obter durante o inverno.
Atormentado pelo deficiente arejamento
das instalações em que
se encontrava, pelas desconfortáveis
condições de vida, pelo
mau tempo, pelos funcionários
pouco cooperativos, pelos acidentes,
pela saúde precária
e pela inadequada assistência
e suporte financeiro, Gauss fez o
trabalho de campo quase sempre sozinho
ou com uma ajuda mínima durante
oito anos. Foi, sem dúvida,
uma verdadeira prova de persistência.
Depois de 1825, restringiu a si a
supervisão e a calculação
necessária ao acabamento da
triangulação de Hannover
em 1947. Quando tal aconteceu, havia
manejado milhões de números
sem qualquer assistência.
Um dos instrumentos que resultou do
seu trabalho de campo foi o invento
do heliotrópio, um instrumento
que permitia reflectir os raios solares
numa direcção medida.
Motivado pela insatisfação
quanto aos parcos métodos existentes
para observar pontos distantes, Gauss
decidiu usar luz do sol reflectida.
Depois de trabalhar em teoria óptica,
projectou o instrumento. O primeiro
modelo foi construído em 1821.
O resultado foi bem sucedido na prática,
tendo o instrumento alcançado
o brilho da magnitude de uma primeira
estrela à distância de
24.14 km.
***
O
percurso vitorioso de Gauss viria
a terminar a 23 de Fevereiro de 1855,
dia em que faleceu enquanto dormia.
Apesar da sua morte, o seu trabalho
e as suas poderosas contribuições
para a Matemática estão,
ainda hoje, mais vivas do que nunca.
Num olhar pela história da
Matemática e da Astronomia
será impossível não
reconhecer o quanto o trabalho realizado
por Gauss permitiu que estas duas
ciências progredissem e tivessem
o grau de rigor e precisão
que hoje as caracterizam...