O
mistério foi desfeito com a descoberta de que
a Bcl-2 impede a morte celular, o que também
leva, como a divisão descontrolada, ao acúmulo
de células anormais e, com isso, ao câncer.
Outros estudos mostraram que o efeito protetor
da Bcl-2 é geral, evitando a apoptose em diversos
tipos de célula, tanto de modo direto (bloqueando
complexos de caspases) quanto indireto (impedindo
a liberação para o citoplasma de componentes
da mitocôndria, capazes de ativar a caspase
3). O excesso de Bcl-2, embora não seja suficiente
para causar câncer, favorece a ação de outros
oncogenes.
Certas
células normais produzem níveis relativamente
altos de Bcl-2. Acredita-se que isso preserva
células cuja morte seria devastadora para o
organismo. O excesso de proteção, porém, tem
um preço: quando se tornam cancerosas, elas
costumam gerar tumores mais agressivos, já que
resistem mais à morte programada. Isso parece
ocorrer com os melanócitos. Tais células, produtoras
do pigmento melanina, que escurece a pele e
ajuda a evitar a absorção de doses letais de
luz solar, precisam ser protegidas porque sua
morte precoce ameaçaria outras células da pele.
Mas por causa dessa resistência à apoptose,
os melanócitos, se há algum dano nos genes,
geram tumores (melanomas) mais agressivos e
que se espalham rapidamente.
Outro
gene envolvido na apoptose também foi detectado
em estudos de tumores. O câncer surge quando
células recém-formadas apresentam mutações simultâneas
em genes que controlam o crescimento e a sobrevivência.
Esses "defeitos", se pouco extensos, podem ser
"corrigidos" por enzimas especializadas. Em
geral, se a mutação é irreparável, ocorre o
suicídio celular (segundo o princípio "melhor
morta que errada"). O processo é comandado por
um gene, presente em células normais, que codifica
a proteína p53 (o nome refere-se à massa da
molécula: 53 quilodáltons). Ao contrário do
gene Bcl-2, o p53 desencadeia a apoptose. Células
mutantes, sem esse gene, não sofrem apoptose.
Elas vivem mais tempo, acumulam mais mutações
e multiplicam-se sem controle, gerando tumores.
Por impedir isso, protegendo o organismo do
câncer, o p53 foi chamado de gene supressor
de tumores.
Outros estudos mostraram que o gene p53 está
alterado com maior freqüência nos portadores
de câncer do que nas pessoas sadias. Em mais
da metade de todos os tumores sólidos (incluindo
os de pulmão, intestino grosso e mama) as duas
cópias desse gene foram eliminadas ou alteradas
— portanto, não codificam a proteína p53 ou
levam a formas não-funcionais da mesma.
O
estudo da apoptose e do câncer está começando
a esclarecer por que muitos tumores resistem
à radioterapia e à quimioterapia. Pensava-se
que tais terapias destruíam o tumor por necrose,
mas agora sabe-se que as células morrem em geral
por apoptose. O que parece ocorrer é que tanto
a radiação quanto as drogas danificam o ADN
das células cancerosas, ativando o gene p53
e levando ao suicídio celular. Mas células cancerosas
sem a p53 ou com altos níveis de Bcl-2 não morrem,
tornando inúteis essas terapias. Há poucos anos
também foi constatado que algumas dessas terapias
ativam proteínas que estimulam a transcrição
de "genes protetores".
Hoje,
está sendo explorada a possibilidade de usar
terapias genéticas para evitar a resistência
das células cancerosas à apoptose. Uma dessas
terapias consiste em introduzir o gene p53 em
tumores nos quais ele não existe ou está alterado,
para restaurar a produção dessa proteína na
célula. Também estão sendo investigadas maneiras
de prevenir que genes Bcl-2 hiperativos produzam
essa outra proteína.
A
apoptose e as doenças
A
morte celular programada faz parte de diversos
processos vitais, como o desenvolvimento embrionário,
o controle de tumores e a regulação de populações
de células do sistema imune. Alterações nos
genes responsáveis pela autodestruição podem
ser desastrosas. Por ser indispensável à vida,
a morte da célula deve seguir um plano meticuloso.
Qualquer distúrbio de sua regulação (tanto o
excesso quanto a insuficiência) pode provocar
uma variedade de doenças.
A apoptose excessiva pode causar doenças neurodegenerativas
(como o mal de Alzheimer e o mal de Parkinson),
lesões secundárias após isquemia (bloqueio de
circulação do sangue), retinite pigmentosa (uma
causa de cegueira) e osteoporose (perda de massa
óssea). Certas infecções também podem levar
à apoptose excessiva: no mal de Alzheimer, os
neurônios parecem cometer suicídio precocemente,
o que resulta em demência progressiva e irreversível,
por perda da cognição e da memória.
Em
ataques cardíacos por isquemia, o bloqueio sangüíneo
leva à necrose as células que dependem do vaso
afetado. Mas a destruição não termina aí: células
próximas da área afetada também morrem, mais
lentamente, e sua aparência sugere a ocorrência
de apoptose. Parece que o conteúdo tóxico das
primeiras células mortas, quando não destrói
as células vizinhas por necrose, as leva ao
suicídio.
Infecções
por bactérias e protozoários também podem provocar
a apoptose. Bactérias como Shigella flexneri
e espécies de Salmonella, causadoras de disenterias,
invadem as células e liberam as proteínas IpaB
(S. flexneri) e SipB (Salmonella), que ativam
a caspase 1 e levam à autodestruição. O protozoário
Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas,
induz apoptose em algumas das células que infecta
(não em todas), embora não se conheça o processo
em detalhes. Resultados preliminares de estudo
recente do grupo de um dos autores (Horta) indicam
que macrófagos infectados em laboratório pelo
protozoário Leishmania amazonensis, causador
de um tipo de leishmaniose, mostram diminuição
do conteúdo, fragmentação "em escada" do ADN
e condensação de cromatina, eventos típicos
da apoptose.
Já
a ausência de apoptose, em que a célula "esquece"
de morrer, pode levar a doenças auto-imunes
(em que o sistema imune ataca o próprio organismo),
infecções viróticas prolongadas ou tumores (como
no câncer). As doenças auto-imunes podem ser
geradas por falhas no programa de morte (ainda
no timo) de células T que reagem com substâncias
do próprio organismo, ou mesmo após uma reação
de defesa a certos componentes externos muito
semelhantes aos internos.
Infecções
viróticas também podem se alongar pela ausência
de apoptose. As células invadidas por vírus
com freqüência param ou reduzem a síntese das
próprias proteínas para fabricar as dos invasores.
Em geral, isso bastaria para levar à apoptose
muitas células, mas alguns vírus inibem o processo.
O vírus Epstein-Barr, agente da mononucleose
e associado a cânceres linfáticos, produz proteínas
parecidas com a Bcl-2 (inibidora de apoptose)
e moléculas que induzem maior produção dessa
proteína na célula. Outros inativam ou destroem
a p53 (indutora da apoptose), como o vírus do
papiloma, principal causa do câncer de colo
do útero. O vírus da varíola bovina produz uma
proteína que impede a cascata de caspases. O
conhecimento dessas estratégias está permitindo
a criação de novas drogas, que bloqueiam a ação
do vírus.
Na Aids, a indução de apoptose em células sadias
contribui para a deficiência do sistema imune
que caracteriza a doença. O vírus da Aids (HIV)
infecta basicamente os linfócitos T "auxiliares",
usando como porta de entrada a proteína de superfície
CD4. A "chave" que se encaixa no CD4 e abre
essa porta é a proteína virótica gp120. Pessoas
com Aids perdem grande parcela desses linfócitos,
mas a maioria dos que morrem não parece estar
infectada, e foi provado que muitos morrem por
apoptose. Estudos recentes sugerem que a gp120
também presente no sangue dos portadores do
HIV, ativaria o suicídio de células não-infectadas
ao ligar-se ao CD4. Interações entre as proteínas
Fas e FasL, cuja produção aumenta durante a
infecção, fariam o mesmo. Os linfócitos T citotóxicos
(mesmo não tendo a CD4) também são levados ao
suicídio, pois dependem de fatores de crescimento
derivados dos auxiliares para evitar o processo.
Essa é uma pequena amostra de como uma falha
mínima no programa de morte que toda a célula
carrega pode levar a uma doença e, às vezes,
à morte do indivíduo. Mas é suficiente para
justificar todo o esforço realizado para que
cada participante, cada etapa e cada arma do
misterioso suicídio celular sejam revelados.
Qualquer descoberta é importante para a criação
de novas terapias e métodos de prevenção, que
poderão evitar ou tratar com sucesso inúmeras
doenças hoje incuráveis.
APOPTOSE
INSUFICIENTE
1.
CÂNCER
Linfomas foliculares
Carcinomas
com mutação de p53
Tumores dependentes de hormônios
Câncer
de mama Câncer de próstata
Câncer
de ovário
2.
DOENÇAS AUTO-IMUNES
Lúpus
eritematoso sistêmico
Glomerulonefrite
imune
3.
INFECÇÕES VIRÓTICAS
Herpesvírus
Poxvírus
Adenovírus
APOPTOSE
EXCESSIVA
1. AIDS 2. DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS
Doença
de Alzheimer
Doença de Parkinson
Esclerose lateral amiotrópica
Retinite pigmentosa
Degeneração cerebelar
3. SÍNDROMES MIELODISPLÁSICAS
Anemia
aplástica
4.
LESÕES ISQUÊMICAS
Infarto
do miocárdio
Acidente vascular cerebral
5.
DOENÇAS DO FÍGADO INDUZIDAS POR TOXINAS
Álcool
In: Ciência Hoje, vol.25, nº150, jun.1999. Maria
de Fátima Horta, Departamento de Bioquímica
e Imunologia, Universidade Federal de Minas
Gerais. John Ding-E Young, Universidade de Rockefeller,
Nova York, Estados Unidos