Os
gatilhos do suicídio celular
A
apoptose pode ser acionada por vários tipos
de gatilhos. A ausência dos sinais químicos
que mantêm a célula em atividade e multiplicação
(os chamados fatores de crescimento) pode ser
um deles. No caso da cauda do girino, o gatilho
para o "suicídio" é o aumento da concentração
do hormônio tiroxina, liberado por certas células
da rã. Células expostas em laboratório a altas
concentrações de tiroxina morrem mesmo que o
animal não tenha chegado à fase adulta. No entanto,
se as concentrações de tiroxina são mantidas
abaixo dos níveis normais a cauda persiste,
mesmo na rã adulta.
Dois exemplos interessantes de indução de apoptose
estão no sistema imune. Um deles é a morte prematura
de linfócitos T capazes de atacar o próprio
organismo que os gerou. Originados na medula
óssea, os linfócitos T "amadurecem" na glândula
timo (daí o "T"), entram no sangue e no sistema
linfático e passam a ter papel crucial na defesa
contra microrganismos. Isso se dá por meio de
moléculas receptoras produzidas em sua superfície,
durante sua maturação, que "reconhecem" substâncias
estranhas e as combatem. Ainda no timo, porém,
algumas dessas células produzem receptores que
se ligam a substâncias do próprio organismo,
o que levaria à auto-agressão, se elas fossem
liberadas. Normalmente, porém, só saem do timo
linfócitos que se ligam a componentes estranhos.
Os demais, "inadequados", são selecionados e
levados ao suicídio, graças à apoptose.
O
outro exemplo está na ação dos linfócitos T
chamados de "citotóxicos" contra uma infecção
virótica. Os vírus só sobrevivem se estiverem
dentro de uma célula. Eles usam a máquina celular
para produzir suas próprias proteínas e gerar
novos vírus, que invadem outras células sadias.
Células infectadas, porém, expõem na superfície
componentes do vírus, reconhecidos pelos linfócitos
T citotóxicos. Com isso, o linfócito liga-se
à célula-alvo e a bombardeia com pelo menos
dois tipos de proteínas que, juntas, levam à
morte celular (por necrose ou apoptose), evento
descrito em 1991 em estudo do qual um dos autores
(Young) participou.
Uma
dessas proteínas é a perfurina, que se insere
na membrana celular e forma "poros" ("furos")
que expõem o interior da célula, como demonstrado
pelos autores, junto com outros grupos. O dano
à membrana é suficiente para levar a célula
a necrose. Outros grupos revelaram depois que
a segunda proteína, a enzima granzima B, liga-se
à superfície da célula-alvo e entra no citoplasma.
Ali, essa enzima ativa a cascata das caspases,
provavelmente ao clivar a caspase 10, induzindo
a apoptose.
Mas
as células "citotóxicas" também induzem apoptose
por meio da proteína Fas, presente na membrana
de várias células. Essa proteína mantém uma
parte dentro da célula e outra fora, e pode
ligar-se a outra proteína, a Fasligante (FasL),
presente na membrana dos linfócitos T citotóxicos.
Quando o linfócito liga-se à célula-alvo, a
FasL, une-se à Fas e altera a forma da parte
externa dessa última. Essa alteração faz com
que a parte interna ative a caspase 8, iniciando
a cascata de caspases. Em certos casos, fatores
acidentais podem ser o "gatilho" do programa
de morte.
Os
genes são os responsáveis
Células
insubstituíveis, como neurônios e fibras musculares
esqueléticas, são mais resistentes à apoptose
porque sua perda seria desastrosa para o organismo.
Já células substituídas com facilidade, como
as do sangue, são mais propensas a morrer desse
modo. Mas o que determina que serão mais suscetíveis
ou mais resistentes?
As
primeiras evidências de que os mecanismos do
suicídio celular são regulados por certos genes
vieram dos estudos pioneiros de Robert Horvitz
e colaboradores (no Massachusetts Institute
of Technology, nos Estados Unidos) com o Caernorhabditis
elegans. Esse pequeno verme de vida livre no
solo é um modelo excelente para esse tipo de
estudo por ter apenas 1.090 células somáticas
(já diferenciadas), das quais 131 morrem durante
seu desenvolvimento. Inofensivo ao homem, o
C. elegans reproduz-se rapidamente em laboratório
e é transparente: cada célula pode ser observada.
Outra
vantagem é que todos os seus genes são conhecidos
(estudo concluído em dezembro de 1998). Isso
permitiu identificar, em vermes mutantes, os
quatorze genes com algum papel na morte programada
das células, batizadas de ced (de cell death
abnormal). Para a destruição das 131 células,
apenas dois (ced-3 e ced-4) são necessários:
mutações em um deles bloqueiam a apoptose, e
as células do C. elegans que morreriam continuam
saudáveis. O ced-3 é semelhante ao gene humano
que codifica a caspase 1, sugerindo que descendem
de um ancestral comum.
Que
mecanismo faz com que só as células supérfluas
do C. elegans sejam eliminadas? A resposta parece
estar em outro gene, o ced-9, que impede a ação
dos dois genes suicidas, evitando a apoptose.
Esse "gene de sobrevivência" parece ser expresso
normalmente em muitas células que não devem
morrer, talvez para protegê-las. Em vermes mutantes,
sem um ced-9 ativo, muitas células que estariam
no adulto morrem por apoptose. Ao contrário,
em mutantes que expressam em excesso esse gene
certas células supérfluas são poupadas da morte.
Um gene dos mamíferos muito parecido com o ced-9
é o que codifica a proteína Bcl-2 (de B-cell
lymphoma), que também protege as células da
morte programada. Vários trabalhos vêm sugerindo
que a Bcl-2 e outras proteínas da mesma família
regulam, em grande parte, a suscetibilidade
celular à morte programada. Essa função começou
a ser compreendida pelo estudo de portadores
do linfoma de células B, tipo de leucemia que
só afeta esses linfócitos. Descobriu-se que
nessas células tumorais o gene responsável pela
Bcl-2 tem atividade excessiva, levando à produção
de grandes quantidades da proteína. Em geral,
os oncogenes (genes que causam câncer se expressos
em excesso) promovem a divisão celular, mas
a superexpressão da Bcl-2 não tinha esse efeito,
o que intrigou os cientistas.