Batizado
de apoptose, o
suicídio celular
programado tem
papel importante
em diversos processos
vitais e em inúmeras
doenças. Sua investigação
pode ajudar a
desenvolver novas
terapias e medicamentos.
Maria de Fátima
Horta John Ding-E
Young
Até
recentemente os
cientistas acreditavam
que as células
só morriam quando
agredidas por
fatores externos,
por um processo
chamado necrose.
Agora, sabe-se
que existe outra
forma: o suicídio
celular programado,
necessário para
eliminar células
supérfluas ou
defeituosas.
Esse
fenômeno biológico,
batizado de apoptose,
tem papel importante
em diversos processos
vitais e em inúmeras
doenças e sua
investigação pode
ajudar a desenvolver
novas terapias
e medicamentos.
Idéias como morte
e autodestruição
são sempre sinistras
e trágicas. Sempre?
Se mudarmos o
ponto de vista,
veremos que não,
pois na natureza
tais conceitos
podem muitas vezes
significar a vida.
Por mais cruel
que pareça, o
extermínio dos
indivíduos mais
fracos de uma
espécie por predadores
ou por morte espontânea
daqueles que têm
defeitos letais
— ou seja, a sobrevivência
dos mais aptos
— ajuda essa espécie
a se perpetuar
forte e sadia.
Esse mecanismo
de seleção ocorre
também em níveis
menos visíveis,
como o das células.
Muitas
células de um
organismo morrem
para que o conjunto
sobreviva. Assim
como é preciso
gerar novas células
para manter processos
vitais, é imprescindível
eliminar as supérfluas
ou defeituosas.
No indivíduo adulto,
se a multiplicação
das células não
é compensada de
modo preciso por
perdas, os tecidos
e órgãos crescem
sem controle,
o que pode levar
ao câncer. O que
estudos recentes
revelaram, porém,
é que muitas células
carregam instruções
internas para
"cometer suicídio"
no momento em
que não são mais
úteis ao organismo.
Tais instruções
são executadas,
como um programa,
quando certos
comandos são acionados.
Essa
morte programada
só atraiu o interesse
dos cientistas
nos últimos anos,
mas sua compreensão
já avançou muito.
A morte de células
já era conhecida
há muito tempo,
mas acreditava-se
que era sempre
prejudicial ao
organismo. Hoje,
ao contrário,
sabe-se que seres
pluricelulares
só atingem sua
forma final porque
eliminam de modo
seletivo certo
número de células.
A rã e os insetos
são exemplos bem
familiares. A
rã inicia a vida
como girino, forma
adaptada ao ambiente
aquático. Depois,
ganha outras estruturas
para viver em
terra e ao mesmo
tempo ter nadadeiras,
guelras e a cauda.
Essas perdas decorrem
da morte das células.
Nos insetos, a
mudança de larva
para animal adulto
(de lagarta para
borboleta, por
exemplo) exige
a morte de milhões
de células.
Outros
exemplos são menos
visíveis. Durante
a fase embrionária
de todos os vertebrados,
certos neurônios
devem enviar projeções
longas e finas
(axônios) até
um músculo, que
irá controlar.
Se um neurônio
não faz essa ligação
ou a faz de modo
inadequado, está
fadado a morrer.
A formação da
mão humana segue
processo semelhante.
No início, é um
apêndice arredondado,
sem dedos definidos.
Estes são formados
pela multiplicação
de algumas células,
enquanto as que
estão nos espaços
entre eles recebem
o comando para
morrer. Se isso
não ocorresse,
os dedos de nossas
mãos seriam ligados
por uma membrana,
como nos patos.
Necrose:
a célula como
vítima
Nos
exemplos dados,
a morte das células
é um processo
fisiológico normal,
totalmente regulado.
Mas as células
também morrem
de modo não-fisiológico,
o que causa a
maioria das doenças.
A morte é patológica
ou "acidental"
quando a célula
é impedida de
manter seus processos
vitais por lesões
físicas ou químicas
causadas por fatores
externos, como
temperaturas extremas,
radiação, traumas,
produtos tóxicos
e falta de oxigênio
(como no infarto
do miocárdio e
na gangrena).
As lesões podem
ter ainda origem
biológica, como
nas infecções
por bactérias
ou vírus. Esse
tipo de morte
celular, o único
conhecido pelos
cientistas mais
antigos, é chamado
de necrose.
A
necrose é claramente
visível por microscopia
eletrônica: a
célula incha e
as organelas do
citoplasma, em
particular as
mitocôndrias,
são danificadas,
mas o núcleo não
sofre alterações
significativas.
Tais lesões impedem
o controle do
equilíbrio interno:
a água e alguns
íons (em especial
sódio e cálcio),
normalmente bombeados
para fora, fluem
livremente para
dentro da célula,
que incha e se
rompe.
A
ruptura libera
no tecido vizinho
o conteúdo celular,
rico em proteases
(enzimas que "cortam"
outras proteínas)
e outras substâncias
tóxicas. Além
da toxicidade
direta para as
células vizinhas,
o derrame gera
substâncias que
atraem células
do sistema imune,
causando intensa
reação inflamatória:
alguns tipos de
glóbulos brancos
(em especial neutrófilos
e macrófagos)
convergem para
o tecido em necrose
e ingerem as células
mortas. A inflamação,
típica da necrose,
é importante para
limitar infecções
e remover restos
de células, mas
a atividade e
as secreções dos
glóbulos brancos
podem também danificar
tecidos normais
vizinhos, às vezes
de maneira devastadora.
Apoptose: o
suicídio silencioso
A
morte celular
fisiológica é
totalmente distinta
da necrose. Em
primeiro lugar,
a célula não incha.
Ao contrário,
encolhe-se, destaca-se
das células vizinhas
e começa a apresentar
bolhas em sua
superfície (processo
chamado de zeiose).
A membrana e as
organelas mantêm
sua estrutura
intacta e não
há alterações
evidentes no citoplasma.
O núcelo, porém,
sofre mudanças
dramáticas: normalmente
dispersa, a cromatina
(conjunto dos
cromossomos, que
contêm o material
genético) forma
um ou mais aglomerados
nas bordas internas
da membrana nuclear.
Isso basta para
levar as células
à morte. As que
demoram a morrer
podem sofrer outras
mudanças: o núcleo
parte-se e a célula
também divide-se
em estruturas
("corpos apoptóticos")
contendo porções
do núcleo, tomando
uma forma inconfundível
ao microscópio
eletrônico.
Em
1972, o australiano
John Kerr e os
colaboradores
escoceses Andrew
Wyllie e Alastair
Currie descreveram
os diferentes
aspectos das células
na morte programada
e na patológica.
Para distingui-los,
batizaram o primeiro
de "apoptose",
em oposição à
necrose. Em grego
arcaico, a palavra
apoptose significa
"o ato de cair",
como caem as pétalas
das flores e as
folhas das árvores
no outono, e foi
escolhida porque
sugere perdas
(a morte celular,
no caso) benéficas,
necessárias ao
bom funcionamento
e à sobrevivência
do organismo.
Após
outros estudos,
os cientistas
sugeriram que
a morte celular
programada ocorre
não só durante
o desenvolvimento,
mas também em
organismos maduros,
ao longo da vida.
Também sugeriram
que na apoptose,
ao contrário do
que acontece na
necrose, a célula
participa da própria
destruição, e
que poderia haver
ligação entre
a ativação do
suicídio celular
e doenças degenerativas
(como o mal de
Alzheimer) e entre
sua inibição "incorreta"
e doenças replicativas
(como o câncer).
Uma
característica
marcante é que
a apoptose é "silenciosa".
Não há, como na
necrose, o "alvoroço"
da inflamação.
Em geral, as células
apoptóticas são
as reconhecidas
por macrófagos
(um tipo de glóbulo
branco presente
em todos os tecidos)
e ingeridas antes
que se desintegrem.
Isso evita o derrame
do conteúdo celular
e, assim, não
há inflamação
e lesão do tecido,
garantindo o seu
funcionamento
normal.
Fato
interessante é
que certas células
apoptóticas não
são removidas
logo, continuando
no local às vezes
por toda a vida.
É o caso dos queratinócitos,
células da camada
externa da pele.
Ao migrar de camadas
mais profundas
para a superfície,
eles morrem por
apoptose, mas
no processo substituem
seu conteúdo pela
proteína queratina
e ganham uma "capa"
impermeável. Assim,
a camada protetora
mais externa da
pele é feita de
células mortas,
descamadas e trocadas
por outras a cada
21 dias, em média.
O cristalino (a
lente) dos olhos
também é formado
por células mortas,
que substituíram
a maior parte
de seu citoplasma
por proteínas
denominadas cristalinas.
As idéias inovadoras
geradas pelo grupo
de Kerr no início
da década de 1970
passaram despercebidas
por mais de uma
década, até que
suas previsões
começaram a ser
confirmadas. Hoje,
inúmeros cientistas
pesquisam a apoptose
e, embora muitas
questões continuem
sem resposta,
vários princípios
básicos já foram
descobertos.
As
"armas" usadas
pelas células
Certas
proteases, recentemente
chamadas de caspases
(nome derivado
de cisteína-protease
que cliva — "corta"
— após resíduos
de ácido aspártico)
têm papel central
na apoptose, em
todo o tipo de
célula e em todo
o organismo multicelular
já estudado. A
primeira enzima
dessa família
descrita em mamíferos
foi a ICE (interleukin-1b
converting enzyme),
hoje caspase 1.
O que levou à
identificação
da ICE foi sua
função de ativar
a interleucina-1b,
proteína importante
no sistema imune,
mas depois ela
atraiu maior atenção
por seu papel
na apoptose.
Outras
enzimas, com características
semelhantes, foram
identificadas
depois: a família
já tem quatorze
integrantes. De
início, atribuiu-se
à caspase 1 um
papel primordial
na apoptose, mas
estudos recentes,
com camundongos
"nocautes" para
essa enzima (que
não a produzem),
mostraram que
várias formas
de apoptose ocorrem
na sua ausência.
Em alguns casos,
no entanto, a
caspase 1 é preponderante.
Uma caspase pode
clivar outras
e esse "corte"
parece ser essencial
à ativação dessas
enzimas. Ao ser
ativada, uma caspase
iniciadora cliva
outras, em seqüência,
até gerar uma
caspase executora.
Esta destrói proteínas
essenciais à célula,
ativa proteínas
tóxicas ou destrói
proteínas que
protegem a célula
da apoptose. Todos
os casos levam
à morte celular.
Vários
experimentos em
laboratório sugerem
uma hierarquia
na ativação das
caspases, mas
essa hierarquia
e as caspases
envolvidas podem
diferir, dependendo
do modo de indução
da apoptose. A
caspase 8 ou a
caspase 10, dependendo
do tipo de estímulo
que a célula recebe,
são fortes candidatas
a caspases iniciadoras,
e há indícios
de que, em geral,
a ativação da
caspase 3 e da
caspase 7 precede
a ativação da
caspase 6 (caspases
executoras).
Decifrando
o programa letal
Na
grande maioria
das células em
apoptose observa-se
a destruição do
material genético,
o ácido desoxirribonucléico
ADN. Células eucariotas
(com ADN contido
em núcleo limitado
por membrana)
têm cromossomos
formados por unidades
repetitivas, os
nucleossomas.
Antes da morte
da célula, o ADN
é cortado por
enzimas (endonucleases)
em regiões específicas
entre os nucleossomas.
Como cada unidade
dessas tem cerca
de duzentos pares
de bases (nucleotídeos),
os fragmentos
de ADN gerados
têm esse número
de pares de bases
ou múltiplos dele.
Assim,
se o ADN de uma
célula apoptótica
for analisado
por eletroforese,
técnica que separa
os fragmentos
por tamanho, será
vista uma "escada"
na qual os "degraus"
indicam o tamanho
de fragmento:
duzentos pares
de bases, quatrocentos,
seiscentos etc.
A presença dessa
"escada" é usada
como uma marca
da apoptose, embora
ainda haja controvérsia
sobre se todas
as células em
apoptose sofrem
fragmentação do
ADN.
Várias
proteínas são
apontadas como
"alvos" das caspases,
mas ainda não
foi estabelecida
uma relação direta
entre o corte
dessas proteínas
e a morte celular.
O primeiro vínculo
entre a ação de
uma caspase e
o corte do ADN
foi constatado
há pouco. A caspase
3 corta uma proteína
(ICAD, de inhibitor
of caspase-activated
ADNse) normalmente
ligada a uma endonuclease
(CAD) no citoplasma,
ativando essa
enzima, que entra
no núcleo e começa
a cortar o ADN.
Outra relação
direta já identificada
é o corte, também
pela caspase 3,
da gelsolina,
proteína ligada
aos filamentos
de actina (parte
do citoesqueleto,
que mantém a estrutura
normal da célula).
Esse corte danifica
os filamentos
e a célula perde
sua forma, o que
leva à apoptose.
Os
gatilhos do suicídio
celular
A
apoptose pode
ser acionada por
vários tipos de
gatilhos. A ausência
dos sinais químicos
que mantêm a célula
em atividade e
multiplicação
(os chamados fatores
de crescimento)
pode ser um deles.
No caso da cauda
do girino, o gatilho
para o "suicídio"
é o aumento da
concentração do
hormônio tiroxina,
liberado por certas
células da rã.
Células expostas
em laboratório
a altas concentrações
de tiroxina morrem
mesmo que o animal
não tenha chegado
à fase adulta.
No entanto, se
as concentrações
de tiroxina são
mantidas abaixo
dos níveis normais
a cauda persiste,
mesmo na rã adulta.
Dois exemplos
interessantes
de indução de
apoptose estão
no sistema imune.
Um deles é a morte
prematura de linfócitos
T capazes de atacar
o próprio organismo
que os gerou.
Originados na
medula óssea,
os linfócitos
T "amadurecem"
na glândula timo
(daí o "T"), entram
no sangue e no
sistema linfático
e passam a ter
papel crucial
na defesa contra
microrganismos.
Isso se dá por
meio de moléculas
receptoras produzidas
em sua superfície,
durante sua maturação,
que "reconhecem"
substâncias estranhas
e as combatem.
Ainda no timo,
porém, algumas
dessas células
produzem receptores
que se ligam a
substâncias do
próprio organismo,
o que levaria
à auto-agressão,
se elas fossem
liberadas. Normalmente,
porém, só saem
do timo linfócitos
que se ligam a
componentes estranhos.
Os demais, "inadequados",
são selecionados
e levados ao suicídio,
graças à apoptose.
O
outro exemplo
está na ação dos
linfócitos T chamados
de "citotóxicos"
contra uma infecção
virótica. Os vírus
só sobrevivem
se estiverem dentro
de uma célula.
Eles usam a máquina
celular para produzir
suas próprias
proteínas e gerar
novos vírus, que
invadem outras
células sadias.
Células infectadas,
porém, expõem
na superfície
componentes do
vírus, reconhecidos
pelos linfócitos
T citotóxicos.
Com isso, o linfócito
liga-se à célula-alvo
e a bombardeia
com pelo menos
dois tipos de
proteínas que,
juntas, levam
à morte celular
(por necrose ou
apoptose), evento
descrito em 1991
em estudo do qual
um dos autores
(Young) participou.
Uma
dessas proteínas
é a perfurina,
que se insere
na membrana celular
e forma "poros"
("furos") que
expõem o interior
da célula, como
demonstrado pelos
autores, junto
com outros grupos.
O dano à membrana
é suficiente para
levar a célula
a necrose. Outros
grupos revelaram
depois que a segunda
proteína, a enzima
granzima B, liga-se
à superfície da
célula-alvo e
entra no citoplasma.
Ali, essa enzima
ativa a cascata
das caspases,
provavelmente
ao clivar a caspase
10, induzindo
a apoptose.
Mas
as células "citotóxicas"
também induzem
apoptose por meio
da proteína Fas,
presente na membrana
de várias células.
Essa proteína
mantém uma parte
dentro da célula
e outra fora,
e pode ligar-se
a outra proteína,
a Fasligante (FasL),
presente na membrana
dos linfócitos
T citotóxicos.
Quando o linfócito
liga-se à célula-alvo,
a FasL, une-se
à Fas e altera
a forma da parte
externa dessa
última. Essa alteração
faz com que a
parte interna
ative a caspase
8, iniciando a
cascata de caspases.
Em certos casos,
fatores acidentais
podem ser o "gatilho"
do programa de
morte.
Os
genes são os responsáveis
Células
insubstituíveis,
como neurônios
e fibras musculares
esqueléticas,
são mais resistentes
à apoptose porque
sua perda seria
desastrosa para
o organismo. Já
células substituídas
com facilidade,
como as do sangue,
são mais propensas
a morrer desse
modo. Mas o que
determina que
serão mais suscetíveis
ou mais resistentes?
As
primeiras evidências
de que os mecanismos
do suicídio celular
são regulados
por certos genes
vieram dos estudos
pioneiros de Robert
Horvitz e colaboradores
(no Massachusetts
Institute of Technology,
nos Estados Unidos)
com o Caernorhabditis
elegans. Esse
pequeno verme
de vida livre
no solo é um modelo
excelente para
esse tipo de estudo
por ter apenas
1.090 células
somáticas (já
diferenciadas),
das quais 131
morrem durante
seu desenvolvimento.
Inofensivo ao
homem, o C. elegans
reproduz-se rapidamente
em laboratório
e é transparente:
cada célula pode
ser observada.
Outra
vantagem é que
todos os seus
genes são conhecidos
(estudo concluído
em dezembro de
1998). Isso permitiu
identificar, em
vermes mutantes,
os quatorze genes
com algum papel
na morte programada
das células, batizadas
de ced (de cell
death abnormal).
Para a destruição
das 131 células,
apenas dois (ced-3
e ced-4) são necessários:
mutações em um
deles bloqueiam
a apoptose, e
as células do
C. elegans que
morreriam continuam
saudáveis. O ced-3
é semelhante ao
gene humano que
codifica a caspase
1, sugerindo que
descendem de um
ancestral comum.
Que
mecanismo faz
com que só as
células supérfluas
do C. elegans
sejam eliminadas?
A resposta parece
estar em outro
gene, o ced-9,
que impede a ação
dos dois genes
suicidas, evitando
a apoptose. Esse
"gene de sobrevivência"
parece ser expresso
normalmente em
muitas células
que não devem
morrer, talvez
para protegê-las.
Em vermes mutantes,
sem um ced-9 ativo,
muitas células
que estariam no
adulto morrem
por apoptose.
Ao contrário,
em mutantes que
expressam em excesso
esse gene certas
células supérfluas
são poupadas da
morte.
Um gene dos mamíferos
muito parecido
com o ced-9 é
o que codifica
a proteína Bcl-2
(de B-cell lymphoma),
que também protege
as células da
morte programada.
Vários trabalhos
vêm sugerindo
que a Bcl-2 e
outras proteínas
da mesma família
regulam, em grande
parte, a suscetibilidade
celular à morte
programada. Essa
função começou
a ser compreendida
pelo estudo de
portadores do
linfoma de células
B, tipo de leucemia
que só afeta esses
linfócitos. Descobriu-se
que nessas células
tumorais o gene
responsável pela
Bcl-2 tem atividade
excessiva, levando
à produção de
grandes quantidades
da proteína. Em
geral, os oncogenes
(genes que causam
câncer se expressos
em excesso) promovem
a divisão celular,
mas a superexpressão
da Bcl-2 não tinha
esse efeito, o
que intrigou os
cientistas.
O
mistério foi
desfeito com
a descoberta
de que a Bcl-2
impede a morte
celular, o que
também leva,
como a divisão
descontrolada,
ao acúmulo de
células anormais
e, com isso,
ao câncer. Outros
estudos mostraram
que o efeito
protetor da
Bcl-2 é geral,
evitando a apoptose
em diversos
tipos de célula,
tanto de modo
direto (bloqueando
complexos de
caspases) quanto
indireto (impedindo
a liberação
para o citoplasma
de componentes
da mitocôndria,
capazes de ativar
a caspase 3).
O excesso de
Bcl-2, embora
não seja suficiente
para causar
câncer, favorece
a ação de outros
oncogenes.
Certas
células normais
produzem níveis
relativamente
altos de Bcl-2.
Acredita-se
que isso preserva
células cuja
morte seria
devastadora
para o organismo.
O excesso de
proteção, porém,
tem um preço:
quando se tornam
cancerosas,
elas costumam
gerar tumores
mais agressivos,
já que resistem
mais à morte
programada.
Isso parece
ocorrer com
os melanócitos.
Tais células,
produtoras do
pigmento melanina,
que escurece
a pele e ajuda
a evitar a absorção
de doses letais
de luz solar,
precisam ser
protegidas porque
sua morte precoce
ameaçaria outras
células da pele.
Mas por causa
dessa resistência
à apoptose,
os melanócitos,
se há algum
dano nos genes,
geram tumores
(melanomas)
mais agressivos
e que se espalham
rapidamente.
Outro
gene envolvido
na apoptose
também foi detectado
em estudos de
tumores. O câncer
surge quando
células recém-formadas
apresentam mutações
simultâneas
em genes que
controlam o
crescimento
e a sobrevivência.
Esses "defeitos",
se pouco extensos,
podem ser "corrigidos"
por enzimas
especializadas.
Em geral, se
a mutação é
irreparável,
ocorre o suicídio
celular (segundo
o princípio
"melhor morta
que errada").
O processo é
comandado por
um gene, presente
em células normais,
que codifica
a proteína p53
(o nome refere-se
à massa da molécula:
53 quilodáltons).
Ao contrário
do gene Bcl-2,
o p53 desencadeia
a apoptose.
Células mutantes,
sem esse gene,
não sofrem apoptose.
Elas vivem mais
tempo, acumulam
mais mutações
e multiplicam-se
sem controle,
gerando tumores.
Por impedir
isso, protegendo
o organismo
do câncer, o
p53 foi chamado
de gene supressor
de tumores.
Outros estudos
mostraram que
o gene p53 está
alterado com
maior freqüência
nos portadores
de câncer do
que nas pessoas
sadias. Em mais
da metade de
todos os tumores
sólidos (incluindo
os de pulmão,
intestino grosso
e mama) as duas
cópias desse
gene foram eliminadas
ou alteradas
— portanto,
não codificam
a proteína p53
ou levam a formas
não-funcionais
da mesma.
O
estudo da apoptose
e do câncer
está começando
a esclarecer
por que muitos
tumores resistem
à radioterapia
e à quimioterapia.
Pensava-se que
tais terapias
destruíam o
tumor por necrose,
mas agora sabe-se
que as células
morrem em geral
por apoptose.
O que parece
ocorrer é que
tanto a radiação
quanto as drogas
danificam o
ADN das células
cancerosas,
ativando o gene
p53 e levando
ao suicídio
celular. Mas
células cancerosas
sem a p53 ou
com altos níveis
de Bcl-2 não
morrem, tornando
inúteis essas
terapias. Há
poucos anos
também foi constatado
que algumas
dessas terapias
ativam proteínas
que estimulam
a transcrição
de "genes protetores".
Hoje,
está sendo explorada
a possibilidade
de usar terapias
genéticas para
evitar a resistência
das células
cancerosas à
apoptose. Uma
dessas terapias
consiste em
introduzir o
gene p53 em
tumores nos
quais ele não
existe ou está
alterado, para
restaurar a
produção dessa
proteína na
célula. Também
estão sendo
investigadas
maneiras de
prevenir que
genes Bcl-2
hiperativos
produzam essa
outra proteína.
A
apoptose e as
doenças
A
morte celular
programada faz
parte de diversos
processos vitais,
como o desenvolvimento
embrionário,
o controle de
tumores e a
regulação de
populações de
células do sistema
imune. Alterações
nos genes responsáveis
pela autodestruição
podem ser desastrosas.
Por ser indispensável
à vida, a morte
da célula deve
seguir um plano
meticuloso.
Qualquer distúrbio
de sua regulação
(tanto o excesso
quanto a insuficiência)
pode provocar
uma variedade
de doenças.
A apoptose excessiva
pode causar
doenças neurodegenerativas
(como o mal
de Alzheimer
e o mal de Parkinson),
lesões secundárias
após isquemia
(bloqueio de
circulação do
sangue), retinite
pigmentosa (uma
causa de cegueira)
e osteoporose
(perda de massa
óssea). Certas
infecções também
podem levar
à apoptose excessiva:
no mal de Alzheimer,
os neurônios
parecem cometer
suicídio precocemente,
o que resulta
em demência
progressiva
e irreversível,
por perda da
cognição e da
memória.
Em
ataques cardíacos
por isquemia,
o bloqueio sangüíneo
leva à necrose
as células que
dependem do
vaso afetado.
Mas a destruição
não termina
aí: células
próximas da
área afetada
também morrem,
mais lentamente,
e sua aparência
sugere a ocorrência
de apoptose.
Parece que o
conteúdo tóxico
das primeiras
células mortas,
quando não destrói
as células vizinhas
por necrose,
as leva ao suicídio.
Infecções
por bactérias
e protozoários
também podem
provocar a apoptose.
Bactérias como
Shigella flexneri
e espécies de
Salmonella,
causadoras de
disenterias,
invadem as células
e liberam as
proteínas IpaB
(S. flexneri)
e SipB (Salmonella),
que ativam a
caspase 1 e
levam à autodestruição.
O protozoário
Trypanosoma
cruzi, causador
da doença de
Chagas, induz
apoptose em
algumas das
células que
infecta (não
em todas), embora
não se conheça
o processo em
detalhes. Resultados
preliminares
de estudo recente
do grupo de
um dos autores
(Horta) indicam
que macrófagos
infectados em
laboratório
pelo protozoário
Leishmania amazonensis,
causador de
um tipo de leishmaniose,
mostram diminuição
do conteúdo,
fragmentação
"em escada"
do ADN e condensação
de cromatina,
eventos típicos
da apoptose.
Já
a ausência de
apoptose, em
que a célula
"esquece" de
morrer, pode
levar a doenças
auto-imunes
(em que o sistema
imune ataca
o próprio organismo),
infecções viróticas
prolongadas
ou tumores (como
no câncer).
As doenças auto-imunes
podem ser geradas
por falhas no
programa de
morte (ainda
no timo) de
células T que
reagem com substâncias
do próprio organismo,
ou mesmo após
uma reação de
defesa a certos
componentes
externos muito
semelhantes
aos internos.
Infecções
viróticas também
podem se alongar
pela ausência
de apoptose.
As células invadidas
por vírus com
freqüência param
ou reduzem a
síntese das
próprias proteínas
para fabricar
as dos invasores.
Em geral, isso
bastaria para
levar à apoptose
muitas células,
mas alguns vírus
inibem o processo.
O vírus Epstein-Barr,
agente da mononucleose
e associado
a cânceres linfáticos,
produz proteínas
parecidas com
a Bcl-2 (inibidora
de apoptose)
e moléculas
que induzem
maior produção
dessa proteína
na célula. Outros
inativam ou
destroem a p53
(indutora da
apoptose), como
o vírus do papiloma,
principal causa
do câncer de
colo do útero.
O vírus da varíola
bovina produz
uma proteína
que impede a
cascata de caspases.
O conhecimento
dessas estratégias
está permitindo
a criação de
novas drogas,
que bloqueiam
a ação do vírus.
Na Aids, a indução
de apoptose
em células sadias
contribui para
a deficiência
do sistema imune
que caracteriza
a doença. O
vírus da Aids
(HIV) infecta
basicamente
os linfócitos
T "auxiliares",
usando como
porta de entrada
a proteína de
superfície CD4.
A "chave" que
se encaixa no
CD4 e abre essa
porta é a proteína
virótica gp120.
Pessoas com
Aids perdem
grande parcela
desses linfócitos,
mas a maioria
dos que morrem
não parece estar
infectada, e
foi provado
que muitos morrem
por apoptose.
Estudos recentes
sugerem que
a gp120 também
presente no
sangue dos portadores
do HIV, ativaria
o suicídio de
células não-infectadas
ao ligar-se
ao CD4. Interações
entre as proteínas
Fas e FasL,
cuja produção
aumenta durante
a infecção,
fariam o mesmo.
Os linfócitos
T citotóxicos
(mesmo não tendo
a CD4) também
são levados
ao suicídio,
pois dependem
de fatores de
crescimento
derivados dos
auxiliares para
evitar o processo.
Essa é uma pequena
amostra de como
uma falha mínima
no programa
de morte que
toda a célula
carrega pode
levar a uma
doença e, às
vezes, à morte
do indivíduo.
Mas é suficiente
para justificar
todo o esforço
realizado para
que cada participante,
cada etapa e
cada arma do
misterioso suicídio
celular sejam
revelados. Qualquer
descoberta é
importante para
a criação de
novas terapias
e métodos de
prevenção, que
poderão evitar
ou tratar com
sucesso inúmeras
doenças hoje
incuráveis.
APOPTOSE
INSUFICIENTE
1.
CÂNCER
Linfomas foliculares
Carcinomas
com mutação
de p53
Tumores dependentes
de hormônios
Câncer
de mama Câncer
de próstata
Câncer
de ovário
2.
DOENÇAS AUTO-IMUNES
Lúpus
eritematoso
sistêmico
Glomerulonefrite
imune
3.
INFECÇÕES VIRÓTICAS
Herpesvírus
Poxvírus
Adenovírus
APOPTOSE
EXCESSIVA
1. AIDS 2.
DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS
Doença
de Alzheimer
Doença de Parkinson
Esclerose lateral
amiotrópica
Retinite pigmentosa
Degeneração
cerebelar
3. SÍNDROMES
MIELODISPLÁSICAS
Anemia
aplástica
4.
LESÕES ISQUÊMICAS
Infarto
do miocárdio
Acidente vascular
cerebral
5.
DOENÇAS DO FÍGADO
INDUZIDAS POR
TOXINAS
Álcool
In: Ciência
Hoje, vol.25,
nº150, jun.1999.
Maria de Fátima
Horta, Departamento
de Bioquímica
e Imunologia,
Universidade
Federal de Minas
Gerais. John
Ding-E Young,
Universidade
de Rockefeller,
Nova York, Estados
Unidos
Bibliografia:
