“Aprender
a ser cidadão é, entre outras coisas,
aprender a agir com respeito, solidariedade, responsabilidade,
justiça, não violência; aprender
a usar o diálogo nas mais diferentes situações
e comprometer-se com o que acontece na vida coletiva
da comunidade e do país. Esses valores e essas
atitudes precisam ser aprendidos e desenvolvidos pelos
alunos e, portanto, podem e devem ser ensinados na escola.”
*
Em geral, o cotidiano das escolas, principalmente nos
grandes centros urbanos é bastante agitado e
às vezes até
tumultuado.
São muitos alunos, muitos conteúdos, muita
gente para lá e para cá. Nesse contexto,
nem sempre é fácil ter clareza do porquê
de todo esse trabalho, ou em outras palavras, nem sempre
se tem clareza de qual é o papel da escola na
sociedade em que vivemos hoje.
Os
Parâmetros Curriculares Nacionais sinalizam que
“...a educação escolar deve possibilitar
que os alunos sejam capazes de:
compreender
a cidadania como participação social e
política, assim como exercício de direitos
e deveres políticos, civis e sociais, adotando,
no dia-a-dia, atitudes de solidariedade, cooperação
e repúdio às injustiças, respeitando
o outro e exigindo para si o mesmo respeito;
posicionar-se
de maneira crítica, responsável e construtiva
nas diferentes situações sociais, utilizando
o diálogo como forma de mediar conflitos e de
tomar decisões coletivas.” pg 1
Certamente, não são objetivos fáceis
de serem transformados em ações no cotidiano
da escola porque demandam um grande esforço da
equipe escolar. Nesse caso, o melhor seria que os educadores,
coordenadores, funcionários, diretores, alunos
e comunidade decidissem juntos (no Conselho de Escola,
por exemplo) que conteúdos adotar, que procedimentos
escolher, que atitudes privilegiar a partir de um diagnóstico
da situação da escola:
Os
alunos têm canais de participação
nas decisões da escola? Quais são eles?
É possível ampliá-los?
A solidariedade está presente nas relações
sociais? (entre alunos, entre professores e alunos,
entre funcionários, entre a escola e a comunidade);
ela é intencionalmente um valor desejado e trabalhado
na escola? · Existe clima de respeito?
Os alunos aprenderam a argumentar na defesa de suas
idéias apoiados em fatos, conceitos e valores?
Os direitos são respeitados? Os deveres são
valorizados?
Como são resolvidas as situações
de conflito? Como são negociados os impasses?
:: O diagnóstico pode ser um bom começo.
Ilustração:
Luiz Maia
Existem muitas maneiras de investigar os valores que
estão orientando as ações e as
relações com o outro na escola. Pode-se
propor, por exemplo, que alunos, funcionários,
professores façam uma semana de observação,
a partir de alguns critérios, sobre a vida nos
espaços coletivos: os intervalos, a hora do lanche,
ou a secretaria, por exemplo; os alunos de uma classe
observam suas próprias atitudes no dia-a-dia,
fazendo uma espécie de relatório por uma
semana. A partir das observações, é
importante discutir criticamente e definir o que o grupo
considera que está bom e o que necessita mudar
e melhorar.
Se
esse trabalho faz parte do projeto da escola (como deveria
fazer), é preciso também que todos –
alunos, funcionários, professores, pais - saibam
que princípios regem as ações da
escola e que ações estarão sendo
realizadas durante o ano para que a escola desenvolva
a consciência ética.
Caso
ainda não seja ainda possível pensar essas
questões na totalidade da escola, sempre é
viável fazer alguma coisa em pequenas equipes
ou duplas de educadores, e, aos poucos, ir buscando
apoio dos demais.
::
O CIDADÃO – CONTEÚDOS DISCIPLINARES
E ÉTICA
Ilustração: Michele Iacocca
A formação integral do cidadão
não diz respeito apenas a atitudes e valores,
mas também a conteúdos, considerados na
sua totalidade. Na verdade, fatos, conceitos, procedimentos
de todas as áreas de ensino estão intimamente
ligados aos valores e atitudes humanas. Desse modo,
a vida da escola, seja ela na sala de aula, nas reuniões
de professores, nos encontros com os pais, seja nos
trabalhos feitos pelos alunos respira ética,
mesmo se a escola tem atitudes pouco éticas,
ou até quando o grupo não têm consciência
desse fato.
::
TRABALHANDO A ÉTICA
Uma
questão importante é compreender que não
se trata apenas de montar um curso para se falar de
ética com os alunos, mas de viver as situações,
os problemas presentes na escola e na comunidade, as
aulas de todas as disciplinas a partir de princípios
éticos da vida em sociedade. Não adianta
fazer discurso sobre as regras gerais de convivência
na escola quando a norma é o tratamento desrespeitoso
entre as pessoas, assim como não adianta saber
como funciona a cadeia produtiva do papel se existe
uma prática generalizada de desperdício
nas salas de aula. É preciso buscar uma certa
coerência entre a teoria, os princípios
que se prega e a prática diária.
Além
disso, o cotidiano escolar é repleto de situações
que podem servir de ‘matéria prima’
para a discussão de questões éticas.
É importante que os professores e toda a equipe
escolar estejam atentos a essas situações
e possam aproveitá-las da melhor maneira possível
para provocar reflexões sobre elas, destacando-se
os diversos pontos de vista existentes, os conflitos
e quais as alternativas para resolvê-los.
Mais
que isso, não se trata de ensinar aos alunos
uma lista de preceitos morais, como devem responder
a essa ou aquela situação. No campo do
ensino de questões éticas, não
cabe a pregação de uma tábua de
bons valores. Se o que se propõem como objetivo
é o desenvolvimento de cidadãos livre-pensantes,
a simples pregação de tábuas de
valores torna-se uma contradição. De acordo
com esse objetivo, o desafio é possibilitar aos
alunos recursos internos e condições objetivas
para avaliar as situações em que vivem
e fazer boas escolhas tendo em vista uma vida mais justa
e solidária entre humanos.
Não
se pode esquecer também que a construção
de uma vida democrática, pautada por princípios
éticos, é dinâmica. Evidentemente
surgem fatos novos, as pessoas (alunos, professores,
pais, funcionários) mudam, existem conflitos
diferentes (porque eles nunca deixam de existir) que
necessitam ser resolvidos a partir das discussões,
do diálogo, criando-se uma tradição
no grupo de como fazer isso.
A
vida democrática não é construída
em um dia nem por uma pessoa, ela é feita a cada
dia e pelo esforço de cada um para que seja possível
um mundo mais justo.
::
SUGESTÕES DE TRABALHO
Assim,
podemos afirmar que existem muitos modos de se valorizar
e ter clareza dos princípios que pautam o cotidiano
escolar. Algumas possibilidades:
acolhimento dos alunos pela escola – em todas
as situações, com momentos especiais no
início do ano letivo, nas mudanças de
período ou turmas, nas transferências crianças
e jovens de outras escolas;
criar espaços para que os pais entrem na escola
e participem dela;
resolver os conflitos por meio do diálogo;
criar código de ética da classe ou da
escola; estabelecer conjuntamente normas de condutas
periodicamente revistas – por exemplo, ouvir e
respeitar a opinião dos colegas, não interromper
a fala do outro; respeitar as diferenças;
organizar a participação efetiva dos membros
do Conselho de Escola;
estimular a criação do Grêmio;
instituir as representações de classes;
eleger este ou aquele tema para os projetos de classe/série/turmas
com pesquisas e estudos sérios, sem perder o
objetivo final de toda ação educativa;
trabalhar os fatos e conceitos científicos sempre
relacionados com sua presença na organização
da vida humana e ao mundo dos valores.
*(BR Ministério da Educação - Secretaria
de Educação Fundamental. Ética
e Cidadania no convívio escolar. Brasília,
2001,pg 13)
Produção
e Edição: Equipe
EducaRede
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