Biografia
Um
pintor de paredes mulato e uma portuguesa
de prendas domésticas foram os pais do menino
Joaquim Maria Machado de Assis, neto de escravos
alforriados, pobre e epiléptico, nascido em
21 de junho de 1839, no morro do Livramento,
Rio de Janeiro, uma cidade então suja, malcheirosa
e com uma população estimada de 300 mil habitantes,
metade escravos.
Nos
primeiros anos, com certeza, o menino freqüentou
a Chácara do Livramento, sob a proteção da
madrinha, senhora muito rica, dona da propriedade.
Aos
seis anos, presenciou a morte da única irmã.
Quatro anos mais tarde, morre-lhe a mãe. Em
1854 o pai casou-se com Maria Inês. Aos quatorze
anos, Joaquim Maria ajudava a madastra a vender
doces para sustentar a casa, tarefa difícil
depois da morte do pai. Não se sabe se freqüentou
regularmente a escola. O que se sabe é que,
adolescente, já se interessava pela vida intelectual
da Corte, onde trabalhou como caixeiro de
livraria, tipógrafo e revisor, antes de se
iniciar como jornalista e cronista.
Em
6 de janeiro de 1855, a Marmota Fluminense
publicou o poema "A palmeira". Nada de excepcional,
era apenas a estréia literária de Joaquim
Maria Machado de Assis. O jornal em que se
publicou o poema era editado numa livraria
que havia se transformado em ponto de encontro
dos escritores da época. Foi lá que Machado
de Assis ganhou protetores como Paulo Brito
(dono da livraria) , Manuel Antônio de Almeida,
já conhecido romancista, e um padre que ensinava
latim ao adolescente. Logo Machado de Assis
já era membro da redação da Marmota Fluminense.
Outros jornais passaram a publicar seus trabalhos.
Machado
de Assis, homem da cidade, cada vez mais se
distanciava de Joaquim Maria, menino do subúrbio.
Nas roupas, na postura, na expressão. Os meios
literários da Corte tornavam-se, pouco a pouco,
terreno conhecido para ele. E ele tornava-se
cada vez mais conhecido nesse terreno.
Machado
de Assis escrevia sobre a vida fluminense,
as óperas, corridas, patinação, pleito eleitoral
e muitas outras coisas, surpreendendo por
um estilo sutilmente irônico, que logo ia
tornar-se marca registrada de sua obra. Sua
crônicas ainda hoje têm atualidade, pois ele
conseguiu extrair reflexões profundas de fatos
corriqueiros, tocando a essência daquilo que
observava com um meio riso de contemplação.
E quase sempre esse riso trazia, implícita
ou explicitamente, uma advertência. Em Machado
de Assis, o fato em si tinha menor importância,
o que interessava era a reflexão que esse
fato provocava.
Machado cronista escreveu para diversos jornais,
mas viver da escrita naquela época? Nem pensar!
Machado seguiu uma carreira burocrática: o
emprego público lhe garantia o sustento. A
ascensão na carreira burocrática foi ocorrendo
paralelamente a sua consagração como escritor.
Oficial do gabinete do ministro, membro do
Conservatório Dramático, oficial da Ordem
das Rosas e, em 1889, o mais alto grau da
carreira: diretor de um órgão público, a Diretoria
do Comércio. Aos poucos foi chegando a estabilidade
econômica e mais tempo para escrever.
Durante
40 anos Machado escreveu suas crônicas. Utilizando-se
de histórias do dia-a-dia, o escritor ia refletindo
sobre a História que se desenhava a sua volta.
Machado denunciou a escravidão, não se utilizando
do emocionalismo que caracterizava as manifestações
abolicionistas, mas a análise, a reflexão,
demolindo a idéia (muito comum na época) da
"bondade dos brancos" ao libertar os negros.
Em sua obra (crônica, conto, romance) procurou
desvendar os mecanismos econômicos e ideológicos
que tentavam justificar, primeiro, a necessidade
do trabalho escravo e, depois, a contingência
imperiosa da libertação. Em 13 de maio de
1888 foi assinada a Lei Áurea. No dia 19 do
mesmo mês, Machado de Assis publicou uma crônica
sobre o assunto, ironizando a "bondade dos
brancos".
A Abolição e a Guerra do Paraguai foram fatais
para a Monarquia. Sob a liderança do Exército,
proclamou-se então a república, em 1889. Machado
não era contra uma nova ordem, mas contra
essa nova ordem republicana. Para ele, o fim
do Império poderia significar o fim da estabilidade
ainda precária do país. Foi por temer essa
instabilidade que ele se opôs ao que considerava
o prematuro advento republicano.
Enfim,
Machado de Assis não passou largo dos grandes
acontecimentos de seu tempo. É possível entrever,
no registro do cotidiano feito por suas crônicas,
assim como posteriormente nos romances, a
ligação com o contexto social mais amplo.
Entre uma crônica e outra, entre uma crítica
teatral e um poema, Machado de Assis ia tecendo
a parte mais importante de sua obra: o conto
e o romance.
O
amor de verdade, não o ficcional dos romances,
para o homem Machado de Assis veio na figura
de Carolina Novais, portuguesa e mais velha
que o escritor. Em carta, Machado declarou-lhe:
"Tu não te pareces com as mulheres vulgares
que tenho conhecido. Espírito e coração como
os teus são prendas raras [...] Como te não
amaria eu?". Viram-se. Amaram-se. Casaram-se
em 12 de novembro de 1869. Passaram por dificuldades
financeiras antes e depois do casamento. Casamento
este que durou 35 anos. Consta que na mais
perfeita harmonia.
No
ano seguinte ao do casamento publica-se o
primeiro volume de contos: Contos Fluminenses
(1870). A crítica considera apenas medianos
os contos desse livro. De qualquer forma,
já aprecem as características marcantes do
estilo machadiano: a conversa com o leitor;
a ironia; o estudo da alma feminina. Três
anos mais tarde, surgem as Histórias da meia-noite,
também considerado pela crítica no mesmo nível
do primeiro livro. Papéis avulsos (1882),
é o terceiro livro de Machado. "O título parece
negar ao livro certa unidade", frase do próprio
autor. O que é falso, pois nesse livro revela-se
a maturidade do contista Machado de Assis.
No conto, esse livro marca a passagem para
a segunda fase do escritor, a fase da maturidade
artística. "O Alienista", "Teoria do medalhão",
"O espelho", são alguns dos contas que fazem
parte desse terceiro livro. Em Papéis avulsos
Machado começa a trabalhar um dos seus outros
temas básicos: a loucura. Nesse sentido, o
conto "O Alienista" é uma obra-prima, de leitura
absolutamente indispensável.
Em
vida, Machado publicou ainda Histórias sem
data (1884), Várias histórias (1896), Página
escolhidas (1899) e Relíquias de casa velha
(1906).
Alguns
contos de Machado de Assis são de leitura
indispensável: "A igreja do diabo", Cantiga
de esponsais", "Singular ocorrência", "A cartomante",
"A causa secreta", "Um Apólogo" e "Missa do
galo". Essas narrativas revelam o universo
dos temas que interessam a Machado: a loucura,
a alma feminina, a vaidade, a sedução, o casamento,
o adultério.
Os
romances de Machado de Assis retratam a vida
encarada como um espetáculo, ou mais precisamente,
a vida da sociedade fluminense na época do
Segundo Reinado. Espetáculo tratado de duas
maneira distintas, ao longo da obra. 1.ª fase:
Ressurreição (1872); A mão e a luva (1874);
Helena (1876); Iaiá Garcia (1878). 2.ª fase:
Memórias póstuma de Brás Cubas (1881); Quincas
Borba (1891); Dom Casmurro (1899); Esaú e
Jacó (1904); Memorial de Aires (1908).
Diante
dessa esquematização, pode-se concluir que
na trajetória de Machado de Assis ocorreu
uma mudança brusca, uma verdadeira ruptura
no modo de escrever; mas não é verdade. O
que aconteceu foi o amadurecimento gradual,
lento, progressivo, apesar de o primeiro romance
da segunda fase ser revolucionário, não só
em relação aos anteriores, mas também em relação
a toda a história da literatura brasileira.
Machado passou pelo Romantismo e pelo Realismo,
assimilando características de ambos, mas
não se pode enquadrá-lo radicalmente em nenhum
desses estilos. Pode-se dizer, a grosso modo,
que os romances da primeira fase tendem ao
Romantismo e os da segunda fase ao Realismo.
Porém, nos romances de primeira fase, já se
podem notar algumas novidades. Sendo a principal
delas é a criação de personagens que ambicionam
sobretudo mudar de classe social, ainda que
isso lhes custe sacrificar o amor (excetuando
Ressurreição, os outros três romances dessa
fase levam esse tom), bem diferente dos romances
românticos em que os personagens em geral
comportam-se de acordo com aquilo que lhes
dita o coração.
Machado de Assis centrou seu interesse na
sondagem psicológica, isto é, buscou compreender
os mecanismos que comandam as ações humanas,
sejam elas de natureza espiritual ou decorrentes
da ação que o meio social exerce sobre cada
indivíduo. Tudo temperado com profunda reflexão.
O escritor busca inspiração nas ações rotineiras
do homem. Penetrando na consciência das personagens
para sondar-lhes o funcionamento, Machado
mostra, de maneira impiedosa e aguda, a vaidade,
a futilidade, a hipocrisia, a ambição, a inveja,
a inclinação ao adultério. Como este escritor
capta sempre os impulsos contraditórios existentes
em qualquer ser humano, torna-se difícil classificar
suas personagens em boas ou más. Escolhendo
suas personagens entre a burguesia que vive
de acordo com o convencionalismo da época,
Machado desmascara o jogo das relações sociais,
enfatizando o contraste entre essência (o
que as personagens são) e aparência (o que
as personagens demonstram ser). O sucesso
financeiro e social é, quase sempre, o objetivo
último dessas personagens.
O
escritor preocupa-se muito mais com a análise
das personagens do que com a ação. Por isso,
em sua narrativas, pouca coisa "acontece":
há poucos fatos em suas histórias, e todos
são ligados entre si por reflexões profundas.
Outra característica da prosa machadiana é
a análise que o autor faz da própria narrativa,
o narrador rompe o envolvimento emocional
do leitor com a obra proporcionando momentos
de reflexão sobre o que está lendo. A visão
de mundo machadiana tem as seguintes características:
humor, este tem duas funções: ora visa criticar
o ser humano e suas fraquezas, através da
ironia, ora demonstra compaixão pelo homem,
fazendo o leitor refletir sobre a condição
humana; pessimismo, não o angustiado nem desesperador.
Tende para a a ironia e propões a aceitação
do prazer relativo que a vida pode oferecer,
já que a felicidade absoluta é inatingível.
A natureza, considerada aqui como todas as
forças que estabelecem e conservam a ordem
do universo, é ao mesmo tempo mãe, porque
criou o ser humano, e inimiga, porque mantém-se
impassível diante do sofrimento, que só terá
fim com a morte. A teoria do Humanitismo:
trata-se de uma teoria formulada pela personagem
Quinca Borba, que aparece em dois romances
de Machado. O Humanitismo, é uma caricatura
que Machado criou para retratar uma religião
positivista comum em sua época, religião esta
que pretendia salvar o mundo e o homem. O
Humanitismo baseia-se na luta pela vida, que
seria o grande objetivo do ser humano. Nessa
luta vence o mais forte, e sua vitória é vista
por Machado com a maior naturalidade, às vezes
até com certo cinismo. A guerra, por exemplo,
é considerada não como uma desgraça, mas como
um processo fundamental para a sobrevivência
do homem. Segundo o Humanitismo, a violência
e a dor (física ou moral) fazem parte da própria
condição humana.
Quando
Carolina Novais morreu, em 1904, a vida de
Machado de Assis desmoronou. "Foi-se a melhor
parte da minha vida, e aqui estou só no mundo
[...] Aqui me fico, por ora, na mesma casa,
no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus.
Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como
estou à beira do eterno aposento, não gastarei
tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará."
Carolina não teve de esperar mais que quatro
anos. Com a vista fraca, uma renitente infecção
intestinal e uma úlcera na língua, em 1.º
de agosto Machado vai pela última vez à Academia
Brasileira de Letras - que fundara em 1896
e da qual fora eleito presidente primeiro
e perpétuo. Na madrugada de 29 de setembro
de 1908, lúcido, recusando a presença de um
padre para a extrema-unção, morreu Machado
de Assis, reconhecido pelo público e pela
crítica como um grande escritor.
Foi
sepultado ao lado de Carolina, cumprindo o
que prometera quatro anos antes à mulher,
num soneto de despedida:
OBRAS
DO AUTOR
POESIA Crisálidas (1864); Falenas (1870);
Americanas (1875); Poesias completas (incluindo
Ocidentais) (1901).
ROMANCE
Ressurreição (1872); A mão e a luva (1874);
Helena (1876); Iaiá Garcia (1878); Memórias
póstumas de Brás Cubas (1881); Quincas Borba
(1891); Dom Casmurro (1899); Esaú e Jacó (1904);
Memorial de Aires (1908).
CONTO
Contos fluminenses (1870); Histórias da meia-noite
(1873); Papéis avulsos (1882); Histórias sem
data (1884); Várias histórias (1896); Páginas
recolhidas (1899); Relíquias de casa velha
(1906).
TEATRO
Queda que as mulheres têm para os tolos (1861);
Desencantos (1861); Hoje avental, amanhã luva(1861);
O caminho da porta (1862); O protocolo.(1862);
Quase ministro (1863); Os deuses de casaca
(1865); Tu, só tu, puro amor (1881); Teatro
coligido (incluindo Não consultes médico e
Lição de botânica) (1910).
ALGUMAS
OBRAS PÓSTUMAS Crítica (1910); Outras relíquias
(contos) (1921); A semana (crônica)(1914,
1937) 3 vol.; Páginas escolhidas (contos)
(l92l); Novas relíquias (contos) (1932); Crônicas
(1937); Contos fluminenses - 2º vol. (1937);
Crítica literária (1937); Crítica teatral
(1937); Histórias românticas (1937); Páginas
esquecidas (1939); Casa velha (1944); Diálogos
e reflexões de um relojoeiro (1956); Crônicas
de Lélio (1958).
Bibliografia:

Machado
de Assis no Centenário das Comemorações
- Publicação de algum
material biográfico sobre Machado de
Assis, extraído diretamente dos periódicos.
(UNESP)
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