Biografia
- 1908-1967
João
Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG)
a 27 de junho de 1908 e teve como pia batismal
uma peça singular talhada em milenar pedra
calcária – uma estalagmite arrancada à Gruta
do Maquiné. Era o primeiro dos seis filhos
de D. Francisca (Chiquitinha) Guimarães Rosa
e de Florduardo Pinto Rosa, mais conhecido
por "seu Fulô" comerciante, juiz-de-paz, caçador
de onças e contador de estórias.
O
nome do pai, de origem germânica frod (prudente)
e hard (forte) –, e o nome da cidade natal,
o "burgo do coração" do latim cordis, genitivo
de cor, coração, mais o sufixo anglo-saxônico
burgo , por sua sonoridade, sua força sugestiva
e sua origem podem desde cedo ter despertado
a curiosidade do menino do interior, introvertido
e calado, mas observador de tudo, estimulando-o
a se preocupar com a formação das palavras
e com seu significado. Esses nomes de quente
semântica poderiam ter sido invenção do próprio
Guimarães Rosa. Outro aspecto notável de sua
obra foi sua preocupação com o ritmo do discurso,
desde cedo manifestada, que o ajudaria a compor,
mais tarde, juntamente com outros atributos,
a magistral prosa-poética rosiana.
Aos
7 anos incompletos, Joãozito começou a estudar
francês, por conta própria. Em março de 1917,
chegava a Cordisburgo, como coadjutor, Frei
Canísio Zoetmulder, frade franciscano holandês,
com o qual o menino fez amizade imediata.
Em companhia do frade, iniciou-se no holandês
e deu prosseguimento aos estudos de francês,
que iniciara sozinho. Aos 9 anos incompletos,
foi morar com os avós em Belo Horizonte, onde
terminou o curso primário no Grupo Escolar
Afonso Pena; até então fora aluno da Escola
Mestre Candinho, em Cordisburgo. Iniciou o
curso secundário no Colégio Santo Antônio,
em São João del Rei, onde permaneceu por pouco
tempo, em regime de internato, visto não ter
conseguido adaptar-se não suportava a comida,
retornando a Belo Horizonte matriculou-se
no Colégio Arnaldo, de padres alemães e, desde
logo, para não perder a oportunidade, tendo
se dedicado ao estudo da língua de Goethe,
a qual aprendeu em pouco tempo. Sobre seus
conhecimentos lingüísticos, assim se expressaria,
mais tarde, numa entrevista concedida a uma
prima, então estudante no Curvelo:
Falo:
português, alemão, francês, inglês, espanhol,
italiano, esperanto, um pouco de russo; leio:
sueco, holandês, latim e grego (mas com o
dicionário agarrado); entendo alguns dialetos
alemães; estudei a gramática: do húngaro,
do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês,
do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco,
do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei
um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal.
E acho que estudar o espírito e o mecanismo
de outras línguas ajuda muito à compreensão
mais profunda do idioma nacional. Principalmente,
porém, estudando-se por divertimento, gosto
e distração.
Em
1925, matricula-se na Faculdade de Medicina
da U.M.G.*, com apenas 16 anos. Segundo depoimento
do Dr. Ismael de Faria, colega de turma do
escritor, recentemente falecido, quando cursavam
o 2º ano, em 1926, ocorreu a morte de um estudante
de Medicina, de nome Oseas, vitimado pela
febre amarela. O corpo do estudante foi velado
no anfiteatro da Faculdade. Estando Ismael
de Faria junto ao ataúde do desventurado Oseas,
em companhia de João Guimarães Rosa, teve
o ensejo de ouvir deste a comovida exclamação:
"As pessoas não morrem, ficam encantadas",
que seria repetida 41 anos depois por ocasião
de sua posse na Academia Brasileira de Letras.
Em 1929, ainda como estudante, João Guimarães
Rosa estreou nas letras. Escreveu quatro contos:
Caçador de camurças, Chronos Kai Anagke (título
grego, significando Tempo e Destino), O mistério
de Highmore Hall e Makiné para um concurso
promovido pela revista O Cruzeiro. Visava
mais os prêmios (cem mil réis o conto) do
que propriamente a experiência literária;
todos os contos foram premiados e publicados
com ilustrações em 1929-1930. Mais tarde,
Guimarães Rosa confessaria que nessa época
escrevia friamente, sem paixão, preso a moldes
alheios – era como se garimpasse em errada
lavra. Seja como for, essa primeira experiência
literária de Guimarães Rosa não poderia dar
uma idéia, ainda que pálida, de sua produção
futura, confirmando suas próprias palavras
em um dos prefácios de Tutaméia:
"Tudo
se finge, primeiro; germina autêntico é depois."
Em
27 de junho de 1930, ao completar 22 anos,
casa-se com Lígia Cabral Penna, então com
apenas 16 anos, que lhe dá duas filhas: Vilma
e Agnes; essa primeira união não dura muito,
desfazendo-se uns poucos anos depois. Ainda
em 1930, forma-se em Medicina pela U.M.G.*,
tendo sido o orador da turma, escolhido por
aclamação pelos 35 colegas. O paraninfo foi
o Prof. Samuel Libânio e os professores homenageados
foram David Rabelo, Octaviano de Almeida,
Octávio Magalhães, Otto Cirne, Rivadávia de
Gusmão e Zoroastro Passos. O fac-símile do
quadro de formatura encontra-se atualmente
na Sala Guimarães Rosa do Centro de Memória
da Medicina de Minas Gerais, da Faculdade
de Medicina da U.F.M.G. No referido quadro
de formatura está estampada a clássica legenda,
em latim, com os dizeres "FAC QUOD IN TE EST";
figura, também, a reprodução de uma tela do
pintor holandês Rembrandt Van Rijn em que
é mostrada uma aula de anatomia (A lição de
anatomia do Dr. Tulp, datada de 1632).
O
discurso do orador da turma foi publicado
no jornal Minas Geraes, de 22 e 23 de dezembro
de 1930.
Depois
de formado, Guimarães Rosa vai exercer a profissão
em Itaguara, então município de Itaúna (MG),
onde permanece cerca de dois anos; ali, passa
a conviver harmoniosamente até mesmo com raizeiros
e receitadores, reconhecendo sua importância
no atendimento aos pobres e marginalizados,
a ponto de se tornar grande amigo de um deles,
de nome Manoel Rodrigues de Carvalho, mais
conhecido por "seu Nequinha", que morava num
grotão enfurnado entre morros, num lugar conhecido
por Sarandi. Seu Nequinha era adepto do espiritismo
e parece ter inspirado a extraordinária figura
do Compadre meu Quelemém, espécie de oráculo
sertanejo, personagem do Grande Sertão: Veredas.
Ademais, consta que o Dr. Rosa cobrava as
visitas que fazia, como médico, pelas distâncias
que, a cavalo, tinha de percorrer. No conto
Duelo, de Sagarana, o diálogo entre os personagens
Cassiano Gomes e Timpim Vinte-e-Um testemunha
esse critério comum entre os médicos que exerciam
seu ofício na zona rural – de condicionar
o montante da remuneração a ser recebida à
distância percorrida para visitar o doente.
Semelhante
critério aplicava-o, também, o Dr. Mimoso
a seu ajudante-de-ordens Jimirulino, protagonista
do conto – Uai, eu?, de Tutaméia.
Segundo
depoimento de sua filha Vilma, a extrema sensibilidade
do pai, aliada ao sentimento de impotência
diante dos males e das dores do mundo (tanto
mais quanto os recursos de que dispunha um
médico do interior há meio século eram por
demais escassos), acabariam por afastá-lo
da Medicina. Aliás, foi justamente em Itaguara,
localidade desprovida até mesmo de luz elétrica,
que o futuro escritor se viu obrigado a assistir
o parto da própria esposa por ocasião do nascimento
de Vilma. Isso porque o farmacêutico de Itaguara,
Ary de Lima Coutinho, e seu irmão, médico
em Itaúna, Antônio Augusto de Lima Coutinho,
chamados com urgência pelo aflito Dr. Rosa,
só chegaram quando tudo já estava resolvido.
É ainda Vilma quem relata que sua mãe chegou
a se esquecer das contrações para apenas se
preocupar com o marido – um médico que chorava
convulsivamente!
Outra
ocorrência curiosa, contada por antigos moradores
de Itaguara, diz respeito à atitude do Dr.
Rosa quando da chegada de um grupo de ciganos
àquela cidade. Valendo-se da ajuda de um amigo,
que fazia as vezes de intermediário, o jovem
médico procurou aproximar-se daquela gente
estranha; uma vez conseguida a almejada aproximação,
passava horas envolvido em conversa com os
"calões" na "língua disgramada que eles falam",
como diria, mais tarde, Manuel Fulô, protagonista
do conto Corpo fechado, de Sagarana, que resolveu
"viajar no meio da ciganada, por amor de aprender
as mamparras lá deles". Também nos contos
Faraó e a água do rio, O outro ou o outro
e Zingaresca, todos do livro Tutaméia, Guimarães
Rosa refere-se com especial carinho a essa
gente errante, com seu peculiar modus vivendi,
seu temperamento artístico, sua magia, suas
artimanhas e negociatas.
De
volta de Itaguara, Guimarães Rosa atua como
médico voluntário da Força Pública, por ocasião
da Revolução Constitucionalista de 1932, indo
servir no setor do Túnel. Posteriormente entra
para o quadro da Força Pública, por concurso.
Em 1933, vai para Barbacena na qualidade de
Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria.
Segundo depoimento de Mário Palmério, em seu
discurso de posse na Academia Brasileira de
Letras, o quartel pouco exigia de Guimarães
Rosa – "quase que somente a revista médica
rotineira, sem mais as dificultosas viagens
a cavalo que eram o pão nosso da clínica em
Itaguara, e solenidade ou outra, em dia cívico,
quando o escolhiam para orador da corporação".
Assim, sobrava-lhe tempo para dedicar-se com
maior afinco ao estudo de idiomas estrangeiros;
ademais, no convívio com velhos milicianos
e nas demoradas pesquisas que fazia nos arquivos
do quartel, o escritor teria obtido valiosas
informações sobre o jaguncismo barranqueiro
que até por volta de 1930 existiu na região
do Rio São Francisco.
Quando Guimarães Rosa servia em Barbacena,
um amigo de convívio diário, impressionado
com sua cultura e erudição, e, particularmente,
com seu notável conhecimento de línguas estrangeiras,
lembrou-lhe a possibilidade de prestar concurso
para o Itamarati, conseguindo entusiasmá-lo.
O então Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria,
após alguns preparativos, seguiu para o Rio
de Janeiro onde prestou concurso para o Ministério
do Exterior, obtendo o segundo lugar. Por
essa ocasião, aliás, já era por demais evidente
sua falta de "vocação" para o exercício da
Medicina, conforme ele próprio confidenciou
a seu colega Dr. Pedro Moreira Barbosa, em
carta datada de 20 de março de 1934:
Não nasci para isso, penso. Não é esta, digo
como dizia Don Juan, sempre après avoir couché
avec...’ Primeiramente, repugna-me qualquer
trabalho material só posso agir satisfeito
no terreno das teorias, dos textos, do raciocínio
puro, dos subjetivismos. Sou um jogador de
xadrez nunca pude, por exemplo, com o bilhar
ou com o futebol.
Em
1938, Guimarães Rosa é nomeado Cônsul Adjunto
em Hamburgo, e segue para a Europa; lá fica
conhecendo Aracy Moebius de Carvalho (Ara),
que viria a ser sua segunda mulher. Durante
a guerra, por várias vezes escapou da morte;
ao voltar para casa, uma noite, só encontrou
escombros. Ademais, embora consciente dos
perigos que enfrentava, protegeu e facilitou
a fuga de judeus perseguidos pelo Nazismo;
nessa empresa, contou com a ajuda da mulher,
D. Aracy. Em reconhecimento a essa atitude,
o diplomata e sua mulher foram homenageados
em Israel, em abril de 1985, com a mais alta
distinção que os judeus prestam a estrangeiros:
o nome do casal foi dado a um bosque que fica
ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém.
A concessão da homenagem foi precedida por
pesquisas rigorosas com tomada de depoimentos
dos mais distantes cantos do mundo onde existem
sobreviventes do Holocausto. Foi a forma encontrada
pelo governo israelense para expressar sua
gratidão àqueles que se arriscaram para salvar
judeus perseguidos pelo Nazismo por ocasião
da 2ª Guerra Mundial. Com efeito, Guimarães
Rosa, na qualidade de cônsul adjunto em Hamburgo,
concedia vistos nos passaportes dos judeus,
facilitando sua fuga para o Brasil. Os vistos
eram proibidos pelo governo brasileiro e pelas
autoridades nazistas, exceto quando o passaporte
mencionava que o portador era católico. Sabendo
disso, a mulher do escritor, D. Aracy, que
preparava todos os papéis, conseguia que os
passaportes fossem confeccionados sem mencionar
a religião do portador e sem a estrela de
Davi que os nazistas pregavam nos documentos
para identificar os judeus. Nos arquivos do
Museu do Holocausto, em Israel, existe um
grosso volume de depoimentos de pessoas que
afirmam dever a vida ao casal Guimarães Rosa.
Segundo D. Aracy, que compareceu a Israel
por ocasião da homenagem, seu marido sempre
se absteve de comentar o assunto já que tinha
muito pudor de falar de si mesmo. Apenas dizia:
"Se eu não lhes der o visto, vão acabar morrendo;
e aí vou ter um peso em minha consciência."
Em 1942, quando o Brasil rompe com a Alemanha,
Guimarães Rosa é internado em Baden-Baden,
juntamente com outros compatriotas, entre
os quais se encontrava o pintor pernambucano
Cícero Dias, cognominado "o pequeno Chagall
dos trópicos" já que, no início de sua carreira,
tentou adaptar para a temática dos trópicos
a maneira do pintor, gravador e vitralista
russo MarcChagall, recentemente falecido.
Ficam retidos durante 4 meses e são libertados
em troca de diplomatas alemães. Retornando
ao Brasil, após rápida passagem pelo Rio de
Janeiro, o escritor segue para Bogotá, como
Secretário da Embaixada, lá permanecendo até
1944. Sua estada na capital colombiana, fundada
em 1538 e situada a uma altitude de 2.600
m, inspirou-lhe o conto Páramo, de cunho autobiográfico,
que faz parte do livro póstumo Estas Estórias.
O conto se refere à experiência de "morte
parcial" vivida pelo protagonista (provavelmente
o próprio autor), experiência essa induzida
pela solidão, pela saudade dos seus, pelo
frio, pela umidade e particularmente pela
asfixia resultante da rarefação do ar (soroche
– o mal das alturas).
Em dezembro de 1945 o escritor retornou à
terra natal depois de longa ausência. Dirigiu-se,
inicialmente, à Fazenda Três Barras, em Paraopeba,
berço da família Guimarães, então pertencente
a seu amigo Dr. Pedro Barbosa e, depois, a
cavalo, rumou para Cordisburgo, onde se hospedou
no tradicional Argentina Hotel, mais conhecido
por Hotel da Nhatina.
Em
1946, Guimarães Rosa é nomeado chefe-de-gabinete
do ministro João Neves da Fontoura e vai a
Paris como membro da delegação à Conferência
de Paz.
Em 1948, Guimarães Rosa está novamente em
Bogotá como Secretário-Geral da delegação
brasileira à IX Conferência Inter-Americana;
durante a realização do evento ocorre o assassinato
político do prestigioso líder popular Jorge
Eliécer Gaitán, fundador do partido Unión
Nacional Izquierdista Revolucionaria, de curta
mas decisiva duração.
De 1948 a 1950, o escritor encontra-se de
novo em Paris, respectivamente como 1º Secretário
e Conselheiro da Embaixada. Em 1951, de volta
ao Brasil, é novamente nomeado Chefe de Gabinete
de João Neves da Fontoura. Em 1953 torna-se
Chefe da Divisão de Orçamento e em 1958 é
promovido a Ministro de Primeira Classe (cargo
correspondente a Embaixador). Em janeiro de
1962, assume a chefia do Serviço de Demarcação
de Fronteiras, cargo que exerceria com especial
empenho, tendo tomado parte ativa em momentosos
casos como os do Pico da Neblina (1965) e
das Sete Quedas (1966). Em 1969, em homenagem
ao seu desempenho como diplomata, seu nome
é dado ao pico culminante (2.150 m) da Cordilheira
Curupira, situado na fronteira Brasil/Venezuela.
O nome de Guimarães Rosa foi sugerido pelo
Chanceler Mário Gibson Barbosa, como um reconhecimento
do Itamarati àquele que, durante vários anos,
foi o chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras
da Chancelaria Brasileira.
Em
1952, Guimarães Rosa retorna aos seus "gerais"
e participa, juntamente com um grupo de vaqueiros,
de uma longa viagem pelo sertão; o objetivo
da viagem era levar uma boiada da Fazenda
da Sirga (município de Três Marias), de propriedade
de Chico Moreira, amigo do escritor, até a
Fazenda São Francisco, em Araçaí, localidade
vizinha de Cordisburgo, num percurso de 40
léguas. A viagem propriamente dita dura 10
dias, dela participando Manuel Narde, vulgo
Manuelzão, falecido em 5 de maio de 1997,
protagonista da novela Uma estória de amor,
incluída no volume Manuelzão e Miguilim. Segundo
depoimento do próprio Manuelzão, durante os
dias que passou no sertão, Guimarães Rosa
pedia notícia de tudo e tudo anotava "ele
perguntava mais que padre" –, tendo consumido
"mais de 50 cadernos de espiral, daqueles
grandes", com anotações sobre a flora, a fauna
e a gente sertaneja usos, costumes, crenças,
linguagem, superstições, versos, anedotas,
canções, casos, estórias...
Em 1958, no começo de junho, Guimarães Rosa
viaja para Brasília, e escreve para os pais:
Em começo de junho estive em Brasília, pela
segunda vez lá passei uns dias. O clima da
nova capital é simplesmente delicioso, tanto
no inverno quanto no verão. E os trabalhos
de construção se adiantam num ritmo e entusiasmo
inacreditáveis: parece coisa de russos ou
de norte-americanos"... "Mas eu acordava cada
manhã para assistir ao nascer do sol e ver
um enorme tucano colorido, belíssimo, que
vinha, pelo relógio, às 6 hs 15’, comer frutinhas,
durante 10 , na copa da alta árvore pegada
à casa, uma tucaneira’, como por lá dizem.
As chegadas e saídas desse tucano foram uma
das cenas mais bonitas e inesquecíveis de
minha vida.
A partir de 1958, Guimarães Rosa começa a
apresentar problemas de saúde e estes seriam,
na verdade, o prenúncio do fim próximo, tanto
mais quanto, além da hipertensão arterial,
o paciente reunia outros fatores de risco
cardiovascular como excesso de peso, vida
sedentária e, particularmente, o tabagismo.
Era um tabagista contumaz e embora afirme
ter abandonado o hábito, em carta dirigida
ao amigo Paulo Dantas em dezembro de 1957,
na foto tirada em 1966, quando recebia do
governador Israel Pinheiro a Medalha da Inconfidência,
aparece com um cigarro na mão esquerda. A
propósito, na referida carta, o escritor chega
mesmo a admitir, explicitamente, sua dependência
da nicotina:
...
também estive mesmo doente, com apertos de
alergia nas vias respiratórias; daí, tive
de deixar de fumar (coisa tenebrosa!) e, até
hoje (cabo de 34 dias!), a falta de fumar
me bota vazio, vago, incapaz de escrever cartas,
só no inerte letargo árido dessas fases de
desintoxicação. Oh coisa feroz. Enfim, hoje,
por causa do Natal chegando e de mais mil-e-tantos
motivos, aqui estou eu, heróico e pujante,
desafiando a fome-e-sede tabágica das pobrezinhas
das células cerebrais. Não repare.
É
importante frisar também que, coincidindo
com os distúrbios cardiovasculares que se
evidenciaram a partir de 1958, Guimarães Rosa
parece ter acrescentado a suas leituras espirituais
publicações e textos relativos à Ciência Cristã
(Christian Science), seita criada nos Estados
Unidos em 1879 por Mrs. Mary Baker Eddy e
que afirmava a primazia do espírito sobre
a matéria – "... the nothingness of matter
and the allness of spirit" , negando categoricamente
a existência do pecado, dos sentimentos negativos
em geral, da doença e da morte.
Em
maio de 1963, Guimarães Rosa candidata-se
pela segunda vez à Academia Brasileira de
Letras (a primeira fora em 1957, quando obtivera
apenas 10 votos), na vaga deixada por João
Neves da Fontoura. A eleição dá-se a 8 de
agosto e desta vez é eleito por unanimidade.
Mas não é marcada a data da posse, adiada
sine die, somente acontecendo quatro anos
depois.
Em janeiro de 1965, participa do Congresso
de Escritores Latino-Americanos, em Gênova.
Como resultado do congresso ficou constituída
a Primeira Sociedade de Escritores Latino-Americanos,
da qual o próprio Guimarães Rosa e o guatemalteco
Miguel Angel Asturias (que em 1967 receberia
o Prêmio Nobel de Literatura) foram eleitos
vice-presidentes.
Em
abril de 1967, Guimarães Rosa vai ao México
na qualidade de representante do Brasil no
I Congresso Latino-Americano de Escritores,
no qual atua como vice-presidente. Na volta
é convidado a fazer parte, juntamente com
Jorge Amado e Antônio Olinto, do júri do II
Concurso Nacional de Romance Walmap que, pelo
valor material do prêmio, é o mais importante
do país.
A
posse na Academia Brasileira de Letras
ocorreu na noite de 16 de novembro de 1967.
Quando
se ouve a gravação do discurso de Guimarães
Rosa nota-se, claramente, ao final do mesmo,
sua voz embargada pela emoção – era como se
chorasse por dentro. É possível que o novo
acadêmico tivesse plena consciência de que
chegara sua HORA e sua VEZ. Com efeito, três
dias após a posse, em 19-XI-1967, ele morreria
subitamente em seu apartamento em Copacabana,
sozinho (a esposa fora à missa), mal tendo
tempo de chamar por socorro. Na segunda-feira,
dia 20, o Jornal da Tarde, de São Paulo, estamparia
em sua primeira página uma enorme manchete
com os dizeres: "MORRE O MAIOR ESCRITOR".
Desconfio
que sou um individualista feroz, mas disciplinadíssimo.
Com aversão ao histórico, ao político, ao
sociológico. Acho que a vida neste planeta
é caos, queda, desordem essencial, irremediável
aqui, tudo fora de foco. Sou só RELIGIÃO –
mas impossível de qualquer associação ou organização
religiosa: tudo é o quente diálogo (tentativa
de) com o ¥. O mais, você deduz. (Guimarães
Rosa)
Fonte:
João
Guimarães Rosa: Sua HORA
*
A Faculdade de Medicina de Belo Horizonte,
fundada em 1911, passou a chamar-se, a partir
de 1927, Faculdade de Medicina da Universidade
de Minas Gerais (Faculdade da UMG); embora
federalizada em 1949, somente em 1965 pasou
a vigorar a denominação Faculdade de Medicina
da Universidade Federal de Minas Gerais (Faculdade
de Medicina da UFMG).
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