Biografia
Nasce
no Recife, em 15 de março de 1900, Gilberto
Freyre, filho do Dr. Alfredo Freyre — educador,
Juiz de Direito e catedrático de Economia
Política da Faculdade de Direito do Recife
— e de D. Francisca de Mello Freyre.
Aos seis anos de idade tenta fugir de casa,
escondendo-se em Olinda, cidade à qual devotou
grande amor e da qual escreveria, em 1939,
o 2° Guia Prático, Histórico e Sentimental.
Inicia
seus estudos freqüentando o Jardim da Infância
do Colégio Americano Gilreath, em 1908. Faz
seu primeiro contato com a literatura através
das Viagens de Gulliver. Mas, apesar de seu
interesse, não consegue aprender a escrever,
fazendo-se notar pelos desenhos. Toma aulas
particulares com o pintor Telles Júnior, que
reclama contra sua insistência em deformar
os modelos. Começa a aprender a ler e escrever
em inglês com Mr. Williams, que elogia seus
desenhos.
Em
1909 falece sua avó materna, que viva a mimá-lo
por supor ser o neto retardado, pela dificuldade
em aprender a escrever. Ocorrem suas primeiras
experiências rurais de menino de engenho,
nessa época, quando passa temporada no Engenho
São Severino do Ramo, pertencente a parentes
seus. Mais tarde escreverá sobre essa primeira
experiência numa de suas melhores páginas,
incluída em Pessoas, Coisas & Animais.
Nas
férias de 1911 passa seu primeiro verão na
praia de Boa Viagem, onde escreve um soneto
camoniano e enche muitos cadernos com desenhos
e caricaturas.
Dá
as primeiras aulas no Colégio, em 1913.
Em
1914, ensina Latim, que aprendeu com o próprio
pai, conhecido humanista recifense. Toma parte
ativa nos trabalhos da sociedade literária
do colégio. Torna-se redator-chefe do jornal
impresso do colégio: O Lábaro.
Em
1915, tem lições particulares de Francês com
Madamme Meunieur.
Corresponde-se,
em 1916, com o jornalista paraibano Carlos
Dias Fernandes, que o convida a proferir palestra
na capital do Estado, João Pessoa. Seu pai
não apreciava Carlos Dias Fernandes, pela
vida boêmia que levava. Mesmo assim Gilberto
Freyre viaja autorizado pela mãe e lê no Cine-Teatro
Pathé sua primeira conferência pública, dissertando
sobre Spencer e o problema da educação no
Brasil. O texto foi publicado no jornal O
Norte, com elogios de Carlos Dias Fernandes.
Influenciado
pelos mestres do colégio, tanto quanto pela
leitura do Peregrino de Bunyan e de uma biografia
do Dr. Livingstone, toma parte em atividades
evangélicas e visita a gente miserável dos
mocambos recifenses. Interessa-se pelo socialismo
cristão, mas lê como uma espécie de antídoto
a seu misticismo, autores como Spencer e Comte.
Em
1917, conclui o curso de Bacharel em Ciências
e Letras do Colégio Americano Gilreath. Eleito
orador da turma, cujo paraninfo é o historiador
Oliveira Lima, desde então seu amigo, faz-se
notar pelo discurso que profere. Começa a
estudar grego. Torna-se membro da Igreja Evangélica,
desagradando a mãe e a família católica.
Segue,
no início do ano de 1918, para os Estados
Unidos, fixando-se em Waco (Texas) para matricular-se
na Universidade de Baylor. Inicia sua colaboração
no Diário de Pernambuco, com uma série de
cartas intituladas "Da outra América".
No ano de 1919, naquela Universidade, auxilia
o geólogo John Casper Branner no preparo do
texto português da "Geologia do Brasil". Ensina
francês a jovens oficiais norte-americanos
convocados para a guerra. Estuda Literatura
com A. J. Armstrong, professor de literatura
e crítico literário especializado na filosofia
e na poesia de Robert Browning. Escreve os
primeiros artigos em inglês publicados por
um jornal de Waco. Divulga suas primeiras
caricaturas.
Conhece
pessoalmente, em 1920, por intermédio do professor
Armstrong, o poeta irlandês William Butler
Yates, os "poetas novos" dos Estados Unidos:
Vachel Lindsay, Amy Lowell e outros. Escreve
em inglês um estudo sobre Amy Lowell. Como
estudante de Sociologia, faz pesquisas sobre
a vida dos negros de Waco e dos mexicanos
marginais do Texas. Conclui, na Universidade
de Baylor, o curso de Bacharel em Artes, mas
não comparece à solenidade da formatura: contra
as praxes acadêmicas, a Universidade envia-lhe
o diploma por intermédio de um portador. Segue
para Nova Iorque e ingressa na Universidade
de Colúmbia. A Academia Pernambucana de Letras,
por proposta de França Pereira, elege-o sócio-correspondente,
em 05 de junho desse ano.
Segue,
em 1921, na Faculdade de Ciências Políticas
(inclusive as Ciências Sociais Judiciais)
da Universidade de Colúmbia, cursos de graduação
e pós-graduação. Conhece pessoalmente Rabindranath
Tagore e o Príncipe de Mônaco. A convite de
Amy Lowell, visita-a em Boston. Segue, na
Universidade de Colúmbia, o curso do Professor
Zimmern, da Universidade de Oxford, sobre
a escravidão na Grécia. Visita a Universidade
de Harvard e o Canadá. É hóspede da Universidade
de Princeton, como representante dos estudantes
da América Latina que ali se reúnem em congresso.
Torna-se editor-associado da revista El Estudiante
Latino-Americano, publicada mensalmente em
Nova Iorque pelo Comitê de Relações Fraternais
entre Estudantes Estrangeiros. Publica diversos
artigos no referido periódico.
Defende,
em 1922, tese para o grau de M.A. (Magister
Artium ou Master of Arts) na Universidade
de Colúmbia intitulada Social life in Brazil
in the middle of the 19th Century, publicada
em Baltimore pela Hispanic American Historical
Review e recebida com elogios pelos professores
Haring Shepherd, Robertson, Martin, por Oliveira
Lima e H. L. Mencken, que aconselha o autor
a expandir o trabalho em livro. Deixa de comparecer
à cerimônia de formatura, seguindo imediatamente
para a Europa, onde recebe o diploma, enviado
pelo Reitor Nicholas Murray Butler. Visita
a França, a Alemanha, a Bélgica, tendo antes
estado na Inglaterra. Visista, também, a Espanha
e conhece Portugal. Convive com Vicente do
Rego Monteiro e com outros artistas modernistas
brasileiros como Tarsila do Amaral e Brecheret.
Na Alemanha conhece o Expressionismo, na Inglaterra,
o ramo inglês do Imagismo, já seu conhecido
nos Estados Unidos. Na França, o anarco-sindicalismo
de Sorel e o federalismo monárquico de Maurras.
Vem o ano de 1923 e ele continua em Portugal,
onde conhece João Lúcio de Azevedo, o Conde
de Sabugosa, Fidelino de Figueiredo, Joaquim
de Carvalho, Silva Gaio.
Regressa
ao Brasil e volta a colaborar no Diário de
Pernambuco. Da Europa escreve artigos para
a Revista do Brasil (São Paulo), a pedido
de Monteiro Lobato. Retorna ao Brasil em 1924
e reintegra-se no Recife, onde conhece José
Lins do Rego, incitando-o a escrever romances,
em vez de artigos políticos. Funda-se no Recife,
a 28 de abril o "Centro Regionalista do Nordeste",
com Odilon Nestor, Amaury de Medeiros, Alfredo
Freyre, Antônio Inácio, Morais Coutinho, Carlos
Lyra Filho, Pedro Paranhos, Júlio Bello e
outros. Excursões pelo interior do Estado
de Pernambuco e pelo Nordeste com Pedro Paranhos,
Júlio Bello (que a seu pedido escreveria as
Memórias de um senhor de engenho) e seu irmão
Ulysses Freyre. Lê, na capital do Estado da
Paraíba conferência publicada no mesmo ano:
"Apologia pro generatione sua".
Encarregado
pela direção do Diário de Pernambuco, em 1925,
organiza o livro comemorativo do primeiro
centenário de fundação do referido jornal:
Livro do Nordeste, onde foi publicado pela
primeira vez o poema modernista de Manuel
Bandeira "Evocação do Recife", escrito a seu
pedido. O Livro do Nordeste consagrou, ainda,
o até então desconhecido pintor Manoel Bandeira
e publica desenhos modernistas de Joaquim
Cardozo e Joaquim do Rego Monteiro. Lê na
Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco
uma conferência sobre Dom Pedro II, publicada
no ano seguinte.
Conhece,
em 1926, a Bahia e o Rio de Janeiro, onde
faz amizade com o poeta Manuel Bandeira, os
escritores Prudente de Morais Neto (Pedro
Dantas), Rodrigo M. F. de Andrade, Sérgio
Buarque de Holanda, o compositor Villa-Lobos.
Por intermédio de Prudente, conhece Pixinguinha,
Donga e Patrício e se inicia na nova música
popular brasileira em noitadas boêmias. Escreve
um poema longo, modernista ou imagista e ao
mesmo tempo regionalista e tradicionalista,
do qual Manuel Bandeira dirá depois que é
um dos mais saborosos do ciclo das cidades
brasileiras: "Bahia de todos os santos e de
quase todos os pecados" (publicado no Recife,
no mesmo ano, em edição da Revista do Norte,
reeditado, em 20 de junho de 1942, na revista
O Cruzeiro e incluído no livro Talvez poesia).
Segue para os Estados Unidos como delegado
do Diário de Pernambuco ao Congresso Pan-Americano
de Jornalistas. É convidado para redator-chefe
do mesmo jornal e para oficial de gabinete
do Governador eleito de Pernambuco, então
vice-presidente da República. Colabora (artigos
humorísticos) na Revista do Brasil com o pseudônimo
de J. J. Gomes Sampaio. Publica-se no Recife
a conferência lida, no ano anterior, na Biblioteca
Pública do Estado de Pernambuco: "A propósito
de Dom Pedro II" (edição da Revista do Norte;
incluída, em 1944, no livro Perfil de Euclydes
e outros perfis). Promove no Recife o 1º Congresso
Brasileiro de Regionalismo.
Em
1927, assume o cargo de oficial de gabinete
do novo Governador de Pernambuco, Estácio
de Albuquerque Coimbra, casado com a prima
de Alfredo Freyre, Joana Castelo Branco de
Albuquerque Coimbra.
Dirige, em 1928,a pedido de Estácio Coimbra,
o jornal A Província, onde passam a colaborar
os escritores novos do Brasil. Publica no
mesmo jornal artigos e caricaturas com diferentes
pseudônimos: Esmeraldino Olímpio, Antônio
Ricardo, Le Moine, J. Rialto e outros. Nomeado
pelo Governador Estácio Coimbra, por indicação
do diretor A. Carneiro Leão, torna-se professor
da Escola Normal do Estado de Pernambuco:
primeira cadeira de Sociologia que se estabelece
no Brasil com moderna orientação antropológica
e pesquisas de campo.
Acompanhando Estácio Coimbra ao exílio, em
1930, em viagem por mar que começou na Bahia,
conhece parte do continente africano (Dacar,
Senegal) e inicia, em Lisboa, as pesquisas
e estudos em que se basearia Casa-grande &
senzala ("Em outubro de 1930 ocorreu-me a
aventura do exílio. Levou-me primeiro à Bahia:
depois a Portugal, com escala pela África.
O tipo de viagem ideal para os estudos e as
preocupações que este ensaio reflete", como
escreverá no prefácio do mesmo livro)
A convite da Universidade de Stanford, em
1931, segue para os Estados Unidos, como professor
extraordinário daquela Universidade. Volta,
no fim do ano, para a Europa, demorando-se
na Alemanha, em novos contatos com seus museus
de antropologia, de onde regressa ao Brasil.
Continua,
no Rio de Janeiro, em 1932, as pesquisas para
a elaboração de Casa-grande & senzala, em
bibliotecas e arquivos. Recusando convites
para empregos que lhe foram feitos pelos membros
do novo governo brasileiro — um deles José
Américo de Almeida — vive, então, com grandes
dificuldades financeiras, hospedando-se em
casas de amigos e em pensões baratas do então
Distrito Federal. Estimulado pelo seu amigo
Rodrigo M. F. de Andrade, contrata com o poeta
Augusto Frederico Schmidt — editor à época
— a publicação do livro por 500 mil reis mensais,
que recebe com irregularidades constantes.
Regressa ao Recife, onde continua a escrever
Casa-grande & senzala, na casa do seu irmão
Ulysses Freyre.
Em 1933, conclui o livro, enviando os originais
ao editor Schmidt, que o publica em dezembro.
Aparecem,
em princípios de 1934, nos jornais do Rio
de Janeiro os primeiros artigos sobre Casa-grande
& senzala, escritos por Yan de Almeida Prado,
Roquette Pinto, João Ribeiro e Agrippino Grieco,
todos elogiosos. Organiza no Recife o 1º Congresso
de Estudos Afro-Brasileiros. Recebe o prêmio
da Sociedade Felipe d'Oliveira pela publicação
Casa-grande & senzala. Lê na mesma Sociedade
conferência sobre "O escravo nos anúncios
de jornal do tempo do Império", publicada
na revista Lanterna Verde. Regressa ao Recife
e lê, no dia 24 de maio, na Faculdade de Direito
e a convite de seus estudantes, conferência
publicada, no mesmo ano, pela Editora Momento:
"O estudo das ciências sociais nas universidades
americanas". Publica-se no Recife (Oficinas
Gráficas The Propagandist, edição de amigos
do autor, tiragem de apenas 105 exemplares
em papel especial e coloridos a mão por Luís
Jardim) o Guia prático, histórico e sentimental
da cidade do Recife, inaugurando, em todo
o mundo, um novo estilo de guia de cidade,
ao mesmo tempo lírico e informativo e um dos
primeiros livros para bibliófilos publicados
no Brasil.
A pedido dos alunos da Faculdade de Direito
do Recife, em 1935, e por designação do Ministro
da Educação, inicia na referida escola superior
um curso de Sociologia com orientação antropológica
e ecológica. Segue, em setembro, para o Rio
de Janeiro, onde, a convite de Anísio Teixeira,
dirige na Universidade do Distrito Federal
o primeiro curso de Antropologia Social e
Cultural da América Latina.
Publica-se
no Recife (Edições Mozart) o livro Artigos
de jornal. Profere, a convite de estudantes
paulistas de Direito, no Centro XI de Agosto,
da Faculdade de Direito de São Paulo, a Conferência
"Menos Doutrina mais Análise", tendo sido
saudado pelo estudante Osmar Pimentel. Publica-se
no Rio de Janeiro (Companhia Editora Nacional,
volume 64 da coleção Brasiliana), em 1936,
o livro que é uma continuação da série iniciada
com Casa-grande & senzala: Sobrados e mocambos.
Viaja à Europa, visitando a França e Portugal.
Em 1937 retorna à Europa, desta vez como delegado
do Brasil ao Congresso de Expansão Portuguesa
no Mundo, reunido em Lisboa. Lê conferências
nas Universidades de Lisboa, Coimbra e Porto
e na de Londres (King's College), publicadas
no Rio de Janeiro no ano seguinte. Regressa
ao Recife e lê conferência política no Teatro
Santa Isabel, a favor da candidatura de José
Américo de Almeida à presidência da República.
A convite de Paulo Bittencourt, inicia colaboração
semanal no Correio da Manhã. Publica-se no
Rio de Janeiro (José Olympio) o livro Nordeste
(aspectos da influência da cana sobre a vida
e a paisagem do Nordeste do Brasil).
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